De loucos


Eu mato tudo em que toco, se é que podemos falar metaforicamente. Já chamei ao amor de suicídio demasiadas vezes. Acho que acabo por me perder nas mais intrínsecas vontades dos outros e perco as poucas que tenho. Quando não tenho vontade de nada e todo o desejo que sinto são personificações minhas em que quero querer. Este é um desses momentos em que não quero nada em concreto. Não sei se pela imprudência, felicidade ou demasiada apatia. Não tenho vontades minhas porque não quero que nada seja meu. Não quero ser senhora de ninguém e só me dou com espíritos sem vontade porque não corro o risco de que me queiram também. Mas isto não é de agora. Tu sabes do que eu gosto. Gosto do desprendimento e de tudo o que não conheço, gosto das falhas e das saudades. Gosto do desconhecido, do estranho, da excentricidade de viver sem nada. Da clareza de nada ter. Nem amor nem dinheiro. Nem sorte ao jogo embora muita vontade de jogar. Dos vícios. Da morte das coisas com que sonho. Acho que o mundo é tão mutante que eu tenho de o ser também porque se há coisa que gosto é do mundano, do vulgar, da beleza das ruas por onde passo todos os dias, da particularidade das pessoas que me rodeiam. Mas eu sou a mesma que disse que gosto do que não tenho nem conheço, não é? Pois não me ligues. Eu já matei muitas vezes o amor e continuo sem saber porquê. Se por falta de quem me ensinou a matar, se por nunca me terem ensinado a amar. Esta é uma das minhas loucuras. Não aceites nada de mim. Eu não sei o que quero. Só sei do que eu gosto. E se soubesses, sabes que te diria que já não és tu. São de todos, em todos, um pouco. 

Luas


Quando percebeste que a minha luz era lunar, sacudi-te a purpurina da cara, cheia de boas intenções, tentando não arranhar as mãos na tua barba, e suavemente em dois segundos tirei-te o brilho. Intencionalidades à parte, beijei-te a face e já era meia-noite enquanto te abraçava, apertando os meus pulmões contra os teus, e, por mais dois segundos, senti-te respirar. Ambos fingíamos estar apaixonados, não sei se um pelo outro, se pelo ego crescente. Éramos como a lua, cheia de fases e de amor estávamos em decrescente. A leve brisa do teu nariz rasgava-me os fios de cabelo preto e o negrume da minha alma aumentava com a tua pulsação. A única simbiose que tínhamos era em palavras mas permanecíamos em silêncio. Precisava de acabar esta tristeza, por isso fiz uma mochila. Para a minha bagagem. Com o coração cheio de tudo e vazia de ti, inspirei fundo, desfoquei o horizonte no meu olhar, vidrei nos teus gestos e repeti que não ficaria por muito tempo. A minha intenção era deixar-te. Nunca tive como objectivo que me amasses e acabou por ser um erro o encontro das nossas órbitas. Desalinhados no destino e na vida, ficamos cegos com a possibilidade mas analisando o batimento cardíaco da nossa união, nós já estamos mais do que mortos. E um morto nunca viu um cego assim como este também não sabe o que é morrer. "Pena que o amor seja tão cego", disseste-me ao ouvido. "Lamentável que eu não te ame", consolei-te. 

M.A.R.S


Talvez em todas as minhas mentiras haja mais verdade que nas tuas. A questão não é ler, é deixar que me leiam. Não merece castigo. E se for a que é dita, não precisa de ser lembrada. No entanto, nem com vinte litros de álcool eu deixo de ter a soar na minha cabeça a verdade que me disseram: "A tua dor é não sentir dor". Não é que seja obrigada a ouvir, nem obrigada a aceitar que me digam, mas teve que ser. É merecido. Fico nua. Fiquei nua. Em qualquer ocasião exponho a vossa verdade. A tua. A tua e a tua. "Tu não sentes. Se te fazem mal, ultrapassas. Se te fazem bem, esqueces. Não sofres. Não amas. Não te dói. Nada te dói e não sentir aquilo que os outros sentem tão comummente, magoa-te. A tua dor é a ausência da mesma". A igualdade de que nos falaram em crescimento deve ser esta. Eu poder ser lida no meu medo de existir na ausência de sentir, na fina certeza do que é pensar. Mais pequena que a do mundo inteiro, mais nossa porque sentimos tão paralelamente que as nossas diferenças são essas mesmas perpendicularidades de uma faca a trespassar-nos o peito. É estranho poder ser só o que és. Não ter que representar e não ter que ser nada a não ser a melhor versão de ti. Somos uma relação mutante. E onde as mudanças que sofremos nunca são particulares. Já nos falaram tanto em união, mas de facto a nossa comunhão não serve de exemplo a ninguém. A frieza que temos em esclarecer a definições da nossa maldade, da bondade que guardamos mutuamente. Já discutimos o passado, o nosso presente é um circulo tanto quanto somos um também, o que sentimos são réplicas do já sentimos, estamos velhos e impiedosamente a vida pede-nos que nada nos separe, correndo o risco de rasgar o peito se o fizermos. Duplas, triângulos. Somos os quatro cantos do mundo. Quatro elementos. De todos os nossos medos, os mesmos que partilhamos, os mesmos que sonhamos, os mesmos que são as nossas utopias, um a um, morrem neste grande amor. O nosso obscuro medo do escuro é este. Que finalmente estejamos a sentir e que agora seja imperativo saber fazê-lo. Todo o dia, todos os dias. 

"Ever Thine, Ever Mine, Ever Ours"


Dentro do quarto não se consegue respirar. O ar é abafado e todas as portas e janelas estão fechadas, juntando as partículas do nosso suor às dos átomos de oxigénio, a soma são quatro paredes de desejo. Nunca amei alguém como te amo a ti. Amo-te neste instante em que o sol de primavera passa a custo por entre a persiana e desenha no teu peito quadrados arredondados de luz. Amarela, luz amarela, na tua pele morena. Em sentido obliquo e seguindo as curvas do teu músculo. Passo-te a mão no mamilo e arrepias-te. Foi sem querer. Sento o queixo na tua clavícula e ouço-te. Porque te quero ouvir. Quero ouvir quando dizes que me perdoas e quero ouvir quando magoado, ainda assim, dizes que me queres. Pedes-me para ficar contigo e eu não quero ficar contigo. Deitas-me na cama outra vez, enquanto tento não perder um segundo do dourado que tens nos olhos. Sempre foram os meus olhos favoritos. Em todos os olhos procuro os teus. Em todos os homens procuro-te a ti. Adormeço a pensar que estou a adiar o inevitável, deixar-te. Mas acordas-me debaixo dos lençóis brancos, enquanto constróis um tecto com as tuas costas e passas a mão nas minhas. Quando me amarras na anca e me viras para ti, olho para cima e percebo que este é o meu mundo, que já fiz de ti a minha casa e que sobre a minha casa nada sei, nem de que cor são as paredes, nem se há flores na entrada. Dizes-me palavras que trago no peito até hoje a descrever como a minha complexidade te conquistou e eu confesso que não sei nada sobre ti e insisto em permanecer assim. 
Mas hoje arrependo-me de ter permanecido assim. Não me interpretes mal, eu não quero voltar atrás. Mas se não fosses tão misterioso, talvez eu te conseguisse odiar mais. Amei-te desde o primeiro dia em que te conheci e vou amar-te até deixar de te conhecer. Estive ao teu lado sessenta e três meses, vi mais coisas num homem do que queria, conheci mais amor do que podia querer, amei-te mais do que devia amar. Vi a maior apatia do mundo e habituei-me a ele. Vi o maior entusiasmo do mundo e sofri com ele. De ti vi mais do que alguém viu, de mim viste algo que nunca mais ninguém vai ver. Procuro-te em todos os homens para saber que não tenho mais, para ter a certeza que não te repito e para estar confiante de que o amor que recebo não é menor do que o que dou. Já li que se deve escolher um homem que nos ame mais do que nós a ele, mas há pouca gente a escrever como é que duas pessoas que não sabem amar, amam. Nós éramos um monte de planos furados, tentativas falhadas e perspectivas condenadas, mas juntos nós fazíamos planos, tentávamos que nem loucos e a perspectiva nunca devia ter sido esta, mas todos cometemos erros de cálculo e na minha vida, se há coisa que eu não esperava, era ter-te. O nosso erro foi este. Big, eu amei-te como nunca amei ninguém e nunca mais vou amar assim porque já não sei como se faz, se cada amor é uma pessoa ou se cada pessoa é um amor, não sei, existem coisas inexplicáveis no mundo e esta semana quando me perguntaram se eu voltaria para ti se assim pudesse e eu aguentei e disse que não, o que eu queria dizer era "não, porque tu não voltas para o amor da tua vida". 

Acendes?


- "Tenho uma estranha obsessão pelo teu lado intelectual." 
Tinha uma obsessão pela forma como me sorrias enquanto me mentias. Pintavas-me as unhas de preto mas sempre detestaste ver-me extravagante, enquanto reunias as razões pelas quais te deixaste conquistar. Esperei por ti e afoguei-me nas tuas merdas. Nós nem conversávamos mais e eu tinha uma dificuldade em respirar-te cada vez maior. Quando paravas a olhar para mim, eu sentia que me comias viva e foi com essa sensação que acabei por me perder em falta de noção daquilo que achava que gostava em ti. Eu odiava tudo em ti. A maneira como discutias e como acabavas as discussões. A maneira como querias ajudar toda a gente e não permitias que ninguém te ajudasse a ti. Como implicavas com tudo o que eu dizia, mesmo quando não suportavas até o que eu fazia. Principalmente a forma como me sabias despir com palavras e olhares. Mas, claramente o oposto de ti, foi no oposto de mim que eu me tornei no dia em que olhei para ti e percebi que podia estar apaixonada. Fiquei sem ti. Propus-me a ficar sempre sem ti, esclarecendo que não posso efectivamente ficar com alguém. Bati com a cabeça em paredes, conheci sorrisos mais bonitos que o teu, vergonhas maiores e espíritos mais livres, mas nenhum me deu tanta controvérsia. Nenhum me deu tanta bondade. Nenhum me deu tanta vontade. Embora em combate constante, com a tua integridade a querer superar a minha maldade e com a minha maldade a querer ensinar-te algo, nunca deixei de me sentir apaixonada pela maneira vaga como vives. Até que se tornou perigoso estar ao teu lado, até que te habituaste aos meus desejos, até que soubeste os meus segredos todos. A classe do teu lado mais escuro estava em gostar de ver o meu sair à rua. Mas tu não gostas das pessoas certas e isso pode dizer muito de mim. É a pele que tu ensinas a vestir, de pureza misturada com vaidade, que te torna um poço de sucessivo álcool em mim. E é engraçado gostar de alguém que eu nunca gostaria de ser. Isto é por dias. É por dias que estou apaixonada por ti. É por dias que não gosto de ti. É por dias e por algumas noites, onde o álcool se transforma em chama. Mas respondendo, agora, arranja-me um cigarro. 

Lovers