Imparcialidades


Se é de partes que falamos, de as manter juntas, vamos ser o suficientemente frios para entender que amar é o acto mais parcial de todos. Na sua prática, - e sim, é aí que se torna um acto -, é tão parcial como as nossas mães que não conseguem não nos defender. No mundo, gostamos tanto de proclamar a justiça e a igualdade e se pararmos para pensar que se nos permitimos a não ser imparciais para amar alguém, o sítio dos nossos valores troca automaticamente de lugar. Há excepções para serem abertas, quem inventou a regra de ter que amar algo para ser-se mais humano, nunca pensou que seria só mais um erro, apesar de ser um desses onde nos permitimos a pensar ser felizes. Passamos a fazer. Deixamos de agir. Assim, como se amar algo fosse por si só incorrecto e muito aproximado de um retrocesso como homem. Afinal como é que vamos pedir a outra parte do mundo, outra pessoa, que esteja ao nosso dispor, como é que reclamamos a liberdade e queremos prender alguém? E se por outro lado já que a nossa liberdade termina onde começa a do outro, amar seja talvez altruísta porque queremos acrescentar ao circulo de ser livre mais possibilidades. Mas aí não nos privamos de sofrer e praguejar como se quiséssemos ainda mais e não, enganem-se aqueles que pensam que apenas estão a reclamar de volta o que é seu. Incondicionalmente, seremos o animal com mais desejos neste mundo, é isso que nos torna diferentes. E até que ponto o amor não é só esse desejo que é um vicio, e portanto uma doença de loucos, é bastante questionável. Assim, porque é que perdemos o amor daqueles que amamos e porque é deixamos de amar, às vezes como objectivo, outras vezes tão naturalmente? Porque em todas as dimensões confundimos a nossa capacidade de fazer algo por alguém com a nossa maior vontade de querer fazer algo por nós. E se achamos que possuir em desejo de todas as coisas que achamos ser capazes de realizar e atingir a plenitude de todos os actos num só que é amar alguém, nos vai fazer felizes, então desiludimos-nos ao ver que o amor não acontece assim tantas vezes e não é como o sol para todos. E ainda assim somos tão espectaculares que conseguimos um dia encontrar essa parte do mundo representada por tudo o que não queremos nem conseguimos mudar, que nos mostra, por isso, a nossa fraqueza, e nos doma e nos leva a ser melhores porque esse desejo de possuir nunca morre, transforma-se, e ainda que assim seja a natureza, onde nada se perde, percebemos que amar é matar aquilo que mais queremos ter. Só e apenas enquanto não entendermos que amar é conseguir não ter, não ser desejo de ninguém. Amar é afinal imparcial, porque não existem partes, porque, sim é conseguir não ter para poder ser. E repete-se o ciclo de novamente termos força de sermos quem quisermos, mas agora em qualquer lugar do mundo sem nenhum lugar para voltar porque ir e deixar ir é estruturação do amor mais bonito do mundo. E quando finalmente sentimos em nós que realmente nada foi amor até aí, e aí assim sim um sentimento, nós somos pessoas melhores, - ainda que ao dizer que o somos deitemos tudo ao chão.

1 comentário:

  1. Que texto poderoso. Deixaste-me a pensar nas imparcialidades da vida.

    ResponderEliminar

Lovers