Neve nos dedos


Peguei na lua pelas pontas dos dedos, quase me escorregou e tive medo de desequilibrar a ordem natural do mundo, mas qualquer um pensaria que era noite de lua nova e eu precisava mesmo de um pouco de descanso. Fechei também as luzes e puxei as persianas não fosse algum pirilampo quebrar a corrente. Deitei abaixo o botão e não houve electricidade que pudesse passar ali. Agora tudo estava escuro e deitei-me aos apalpões no chão, encolhi-me e foi como se tivesse na barriga da minha mãe. Fechei os olhos e adormeci.
Já não gosto do Natal nem de nada que brilhe ou pisque ou mostre alegria. A minha paz é a dos morcegos, no mais confim do mundo que encontrar. Porque quando tu partiste, e eu sei que isto parece e é um lugar tão comum, levaste tudo isso contigo e o meu peito tornou-se o habitat perfeito para a tristeza. E não acredito mais no Natal porque não acredito mais no amor nem no para sempre. O Natal é bonito para as crianças que amam porque só elas sabem fazê-lo.
Quem me dera ser inocente e olhar os teus olhos acreditando em todas as mentiras que me contavas. Púnhamos play no rádio e dançávamos, passávamos horas a fio no quentinho da cama com a neve lá fora, tu  tinhas os olhos transparentes e eu sentia-me parte de uma página de um velho livro, cheirava bem e recordava os bons tempos. O nosso cheiro era o da paixão e de suor e quantas vezes eu fosse ele seguia-me e fazia-me voltar, como a comida da mamã. Voltar a ti era voltar a casa, voltar a mim depois dos dias e dias a fio no frio das ruas e das pessoas que são como eu sou agora, um cubo e muitas vezes quadrada.
Mas tu foste porque não existe amor nem eternidade nem histórias bonitas e as pessoas são como o tempo para o que lhes convém. Não choro nem sabem que estou aqui porque continuo sentada na sala, fui ter contigo às escondidas sem que ninguém soubesse porque tenho medo que me julguem de ser tão burra de não saber com esta idade que tudo não passou de uma brincadeira de miúdos. Como todas. Mas eu jurei que podíamos casar e viajar por aí e as minhas viagens agora são sozinha. O sofá fui eu que desenhei e não tenho lugar certo para estar, nem para viver nem para trabalhar. A idade fez-me dura e todas os anos eu gostava de te reencontrar e talvez te dissesse que fui eu que errei mas esta é a minha natureza e eu digo que não lutaste por mim porque tu e eu, sem nós, somos puramente e simplesmente corrompidos.
Não vou mais recordar que partiste porque senão te afastas cada vez mais. Fica porque o teu lugar é ao meu lado e o meu lugar é ao lado da força.
Amo-te e passe o tempo que passe, esteja tão escuro assim, eu nunca vou deixar de saber que és o meu primeiro amor e nunca vou deixar de ser criança e alguém estará lá para me lembrar que o Natal vale sempre a pena.

7 comentários:

  1. Escreves sempre muito bem, já tinha saudades de te ler, princesa <3

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  2. Tinha-me esquecido do quanto as tuas palavras me tocavam no coração.
    Sinceramente, depois de ter lido o teu texto, escrever força parece-me muito pouco para aquilo que o teu coração precisa. Talvez de tempo, talvez dele (?)

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  3. Escreves muito bem. Gostei imenso do blog. Beijinho

    http://fashionblowpt.blogspot.pt/

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  4. Alterei o link do meu blog. Se puderes, visita-o e dá-me a tua opinião!
    http://demim-paranos.blogspot.com
    beijinhos! :)

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  5. De nada querida, tu escreves mesmo bem!

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  6. Lindo :)

    Feliz 2013!

    http://trapeziovermelho.blogspot.pt

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