Redondamente



A forma como julguei conhecer-te foi absurda, a forma como só olhei para os teus defeitos foi monstruosa. A forma como te escrevi como o vilão e a forma como te desenhei como risco fora do sítio. 
Imaginei-te num plano diferente, inferior, superior, tudo menos no meu plano. Fiz de ti a jarra em que não se toca e se pensa saber feita de material frágil, fiz de ti o quadro com a fita vermelha em frente, a proibir a passagem. 
Enganei-me. 
A forma como julguei conhecer-me é que foi absurda, senti-me tão bem na minha pele lá. A forma como só olhei para as minhas virtudes é que foi digna de má da fita. A forma como me escrevi como heroína é que foi ridícula. E a forma como me desenhei num circulo fechado é que estragou tudo. 
Imagino-te no meu plano. Faço de ti a minha saudade, a minha eterna impossibilidade, e sou eu a fita vermelha, o material de que é feito a jarra.  
Iludi-me. 

Repetidamente



"Já me passaram muitas mulheres pela vida, no entanto, nenhuma como ela. Não lhe primo a beleza, embora ela seja bonita e estonteantamente agradável à vista. Não lhe destaco o corpo, embora seja ele a fonte de todo o pecado. Antes pelo contrário realço o que vos parece invisível, a personalidade forte e charme natural. Não são os olhos castanhos, é o olhar transparente e incógnito. Não são as palavras escondidas, é o mistério que há nelas, o não saber nada dela. Não é a forma da boca nem a carnudez do lábios, é a forma como encaixa um no outro e o modo como se delicia da sua própria boca. Não são os seios voluptuosos, são a forma como ela os joga e tapa sobre mim. Não é o rabo alinhadamente redondo, é a forma como ele mostra encaixar-se precisamente ali. Não são as pernas longas e os braços frágeis, é a gentileza do andar e a dureza do passo, o delicado absurdamente forte do pulso. Não é nada que possam ver, é só aquilo que alguns conseguem sentir. E de todas as mulheres que me passaram pela vida, destaco-a por me mostrar isso mesmo: como uma mulher pode ser única e fazer-nos abandonar o mundo, (tudo e principalmente todos). Quando a conheci, todas as outras me pareceram de menos, quem estava ao meu lado pareceu tão drasticamente incapaz. Encantou-me a forma como ela acertava em todos os actos precisamente no momento certo e encaixava todos os meus pensamentos nas suas palavras, fazendo-me crer que me lia a mente. Como se me viesse para salvar do tédio em que tudo na minha volta se tornará. Tudo se tornou excitante quando ela me ligou a primeira vez e quando me disse que tinha saudades de mim. Quando me propôs uma relação proíba e escondida, pensei em todos os meus valores e todos se desfizeram em pequenos grãos de areia. Ela era agora o meu mar. No entanto, eu perdi toda a minha força de homem para admitir que ela era a mulher da minha vida e deixei-a a sós na sua solidão de sedutora. Eterna e inata sedutora. Custou-me admitir que não era a mulher que tinha ao meu lado que eu desejava todas as noites, mas superei o facto de nunca poder dar-lhe o grande homem que ela pensava eu ser. Ela tentou todos os dias e quando eu quis abandonar todo o meu passado e começar com ela, ela vingou-se da minha cobardia. Por isso não lhe destaco a cara e o corpo. À Raquel destaco-lhe a capacidade de dizer não e de saber exactamente o que quer sem rodeios ou falsas demagogias. O que ela quer, ela tem. Ela teve-me. Sou menos homem porque me passou pelas mãos "a mulher". E sendo ela uma menina e eu um homem, não posso deixar de me sentir reduzido. Ela é a menina mais inocente e menos doce que eu conheço. Destaco-lhe a existência neste momento. Ela fez valer cada minuto que perdi a escrever-lhe, a ligar-lhe... Fez valer cada minuto que passei com ela. Todos. E tenho tantas saudades. De tudo, dela e do que ela me fazia sentir. De dizer "minha Raquel" e sentir que ela era realmente minha, só minha, embora não o fosse, nunca. E só me conforta saber que ela nunca será minha nem de ninguém, nenhum homem é capaz, apesar de ela achar que nos fazer pensar que sim é o melhor caminho... Falo assim de ti e não me ouves de qualquer maneira pois não? O meu erro foi crasso e fatal."


- Acreditas em Karma?  

Matematicamente





Quando dividimos certezas por incertezas, qual é o resto? Quando não sabemos dividir, poderá a sorte dar-nos resultado certo? Podemos nós ter boa nota na vida, só por mero acaso? Não. Não acredito que possamos. Temos que saber bem somar corações, subtrair sofrimentos, dividir certezas por incertezas, dar a dose certa de números à dose certa de estudo. Na matemática, como na vida, é preciso prática, tentar e tentar mais uma vez. Mesmo depois de horas de folhas e raízes quadradas, é preciso, perante o cansaço, resistir. Perante um bom professor, saber aproveitar o que ele tem para dar. Perante um mau professor, superar as dificuldades. Tal como as pessoas na nossa vida. 
Será demais reduzir a vida a um conjunto de cálculos bem efectuados ou uma distracção de décimas, mas quando tu não sabes o teu resto, reduzes tudo demais. Torna-se tudo demasiado "menos", demasiado "pequeno", demasiado "não serve", demasiado "não pode ser", demasiado "não consigo". Sendo dividendo, tens que ver bem os divisores. E continuar a "ganhar fôlego".

Belo Horror



Como explicar essa ambiguidade de sentidos em que me metes?! Não é possível definir o indefinível, conhecer o que já é conhecido, pesar o que é tão leve, carregar o que é tão pesado. Será possível haver tal corpo fatal e monstruoso e tal alma insolente e insubordinada como a tua? Qualquer coisa quisesse que fosses só sonho acordado da minha cabeça e, os defeitos, que não te encontro, fossem verdadeiros e substituíssem essa blasfémia e esse insulto que é a tua presença. E pode o feio ser tão belo? O horror ser tão cativante? Onde está a tua a beleza, essa que todos reclamam de ti como se fosses o dono do mundo, o senhor do reino. Que reino? Não gosto de gostar de certos pedaços teus. Antes gostasse do total que me afasta e aflige com pontadas de raiva no meu coração a muito cicatrizado. Acordo do teu pesadelo e penso que foi um sonho, mesmo suando e respirando como um animal enfeitiçado de uma longa corrida de caça. Pega lá nesse teu "bonito" e sai daqui. Como explicar que não consigo encontrar explicação para o facto de te ter dado demais quando merecias de menos? Admitir o erro só me faz perguntar mais. E que faço com isto? Escrevo e deixo ao vento? Devia enfiar-te cada silaba a força, penetrar-te com elas bem abaixo da pele, assim sentirias o meu horror, o meu maravilhoso e deslumbrante horror. 

Lovers