O sujeito que escondi és tu. Depois de te matar no quarto, te embrulhar em lençóis e atirar-te pela janela do teu nono andar. Vou tratar-te por Guilherme porque se fosses um homem era esse nome que gostavas de ter e muitas vezes já o quiseste ser porque te incomoda a maneira como o mundo vê a mulher ou como a mulher se quer ver perante o mundo. És filho de dois loucos, um que não sabe amar porque não sente e outro que não ama porque o faz demais. Odeias vítimas por causa disso. Causa-te impressão as pessoas que choram sem amanhã, que caem sobre si mesmas, que se julgam em sofrimento, talvez porque tenhas uma certa inveja. Essa força que te deram, ou te ensinaram, é muito tua, como o último pilar de uma casa em ruínas. Estás intrinsecamente convencido de que não sentes dor mas estás muito enganado, eu provo-te. A morte não te faz vomitar e só sabes que amas alguém quando a consegues ver fora da tua vida, talvez fora do mundo. Porque não gostas de meios termos, não consegues imaginar ter alguém ao teu lado, achas que todos vão acabar por te magoar, quando na verdade és tu que não serias capaz de ser de alguém. Queres o que não tens e quando não tens gostavas de saber como era afinal ser de alguém. O amor é o teu maior sonho. Apaixonaste facilmente achando poder ver a verdade em tudo porque tudo a tem mas esqueceste dos pormenores humanos. Aliás, tu próprio te afastas de sentir, tu próprio não te queres encaixar na humanidade que és tu. No entanto, toda a gente vê uma certa malícia ou maldade em ti. És ambíguo, provocas desconforto nos outros, gostas do "contra" e do "anti" ditos em verdade porque a verdade é uma ofensa. Induzes os outros em erro, não te sabem amar como tu não te sabes também, porque às vezes mostras querer ficar mas na tua cabeça estás sempre a ir. Já ouviste tantas vezes que não és bonito e que não consegues. Ouves e acenas com a cabeça mas não é fácil ser a tal que te anula a cabeça e diz "escuta". Por isso nada te abala, és senhor de ti. Talvez se falasses mais, se abandonasses essa timidez inicial cada vez que conheces alguém que se transforma em sede de saber logo a seguir, se gostasses menos de ouvir, se fosses por uma vez aquele que só fala, talvez aí, pudesses perceber que à tua frente estão pessoas. Mas tu não gostas de pessoas e adoras Pessoa. Não sei de onde vem esta relação que tens com os duelos, com os dúbios, com o mistério. A vontade de permanecer faz-te tantas vezes ficar afastado de ti. Porque vais e vens, vais e vens, e voltas sempre a ser um solitário. Desconheço do que tens medo afinal, sendo que aposto que tens medo de ti. Do que poderias ser se fosses mais. Ou menos, porque estás perdido. E é por isso que eu tenho um pedido para te fazer. Escrevo-te uma carta porque sei que adoras ler mas não o tens feito muito, mas sendo um curioso como és, terás que ler isto. É um favor que te faço e gostava que aprendesses a aceitar favores. Não estás sozinho. Eu estou aqui. Não me fui embora, não deixei de ser artista, apenas tenho muitos quadros para pintar, não deixei de te escrever, apenas quis que esperasses por mim mais tempo. Sou vaidosa, gosto de ser cobiçada. Não estou perto, eu sei, mas estou a chegar. Talvez queiras acender um cigarro enquanto esperas que eu chegue, por isso te matei à partida. Faz-me impressão que queiras morrer devagar, enquanto te sufocam o ar, mas faço-te a surpresa às vezes. Esse coração já foi tão rebatido, agitado, atirado, pisado, tantas vezes que sempre irei admirar como ainda consegues desvalorizar o teu passado e seguir em frente. És tu mesmo um louco e hoje gostava de te pedir que o fosses sempre, que mantivesses essa loucura, quando te vês como orfão, te sentes sem terra, sem ideal politico, quando gostavas que o mundo voltasse à anarquia e és anárquico a sentir. Não deves nem temes, admiras sem fé os que te inspiram, que falam com paixão, quando amas os teus amigos como se fossem a tua fonte de vida e de conhecimento, quando adoras pessoas e viajas, quando detestas pessoas e te revoltas. Tu és admirável, no entanto tenho medo de ti. Matei-te porque tive medo que me matasses primeiro, que ficasses cego, demasiado embriagado ou num trance qualquer. Afastei-me porque não suportaria que te afastasses. És alegre quando estás a ir, a tua felicidade é olhar de longe e com carinho o que abandonaste, afinal aquilo que sabes sempre é que não estás satisfeito como tu querias. Poderias ser sempre mais e fazes tão pouco. Porque é que fumas? Não fumes. E as drogas? Sim, eu sei que as portas da mente não se acabam de abrir mas olha para ti. Os teus limites distorcidos por uma mente demasiado aberta, a tua crença na bondade e fé extraordinária de que o teu país, o teu mundo, tu mesmo, têm à espera um dia de glória. Mas as tuas glórias mudam porque sonhas para lá de ti. És muito os outros, mas arrogante. Simpático, mas observador. Correcto, mas agressivo. Dócil, mas com o coração partido. Pela sociedade que te apontou o dedo pela maneira estranha de vestir, notas ou falta de beleza. Eu sei que ainda não te achas bonito, que não acreditas quem alguém se pode apaixonar por ti, que já amaste e acreditaste tanto que era possível e nem reparaste como não foi realmente. E como amaste sem medida e te puseram regras. Como ouviste dizer como era não amar-te ou como era não gostar do que eras. Mas tu deixas de ser, deixas de ser quando te magoam e deixaste de ser tantas vezes que o teu coração desapareceu e é disso que agora estás à procura. Longe de mim, mas comigo a chegar. Morto por mim, mas com a vida que quiseste. Vai ficar tudo bem, escuta, tu consegues. Consegues fugir de mim mas vais escolher ficar, porque somos todos diferentes. Continua a gostar de música sem saber tocar, continua a ser louco por cinema, continua a adorar praias num dia de inverno, continua a adorar cafés de conversas vulgares e mocas de conversas fantásticas, continua a gostar do que tu gostas com vontade e verás que não vais gostar de parar de gostar. Tenho a convicção de que és convicto do que queres, do que não queres e do processo de descobrir tudo isso. És louco, como eu disse, mas a tua loucura é muito bonita. Gostas do jogo e dos jogadores, do mundo e dos que sabem vê-lo sem palas nos olhos. Tenho a certeza que tu estás correcto até tu mesmo te proves o contrário. Tens que aprender a ser tu, é isso que te quero pedir. Como te posso matar, se mudas a toda a hora? Estou a escrever que és e já não és. Como podes ser o sujeito que eu escondi? Ninguém se consegue esconder. Tudo tem uma razão e tudo está ligado por partículas de átomos e é tudo um caos. Como podes ser o sujeito que eu escondi? Porque percebeste isso e porque sou eu, que gostava de esconder um sujeito como tu.
O sujeito que eu escondi
O sujeito que escondi és tu. Depois de te matar no quarto, te embrulhar em lençóis e atirar-te pela janela do teu nono andar. Vou tratar-te por Guilherme porque se fosses um homem era esse nome que gostavas de ter e muitas vezes já o quiseste ser porque te incomoda a maneira como o mundo vê a mulher ou como a mulher se quer ver perante o mundo. És filho de dois loucos, um que não sabe amar porque não sente e outro que não ama porque o faz demais. Odeias vítimas por causa disso. Causa-te impressão as pessoas que choram sem amanhã, que caem sobre si mesmas, que se julgam em sofrimento, talvez porque tenhas uma certa inveja. Essa força que te deram, ou te ensinaram, é muito tua, como o último pilar de uma casa em ruínas. Estás intrinsecamente convencido de que não sentes dor mas estás muito enganado, eu provo-te. A morte não te faz vomitar e só sabes que amas alguém quando a consegues ver fora da tua vida, talvez fora do mundo. Porque não gostas de meios termos, não consegues imaginar ter alguém ao teu lado, achas que todos vão acabar por te magoar, quando na verdade és tu que não serias capaz de ser de alguém. Queres o que não tens e quando não tens gostavas de saber como era afinal ser de alguém. O amor é o teu maior sonho. Apaixonaste facilmente achando poder ver a verdade em tudo porque tudo a tem mas esqueceste dos pormenores humanos. Aliás, tu próprio te afastas de sentir, tu próprio não te queres encaixar na humanidade que és tu. No entanto, toda a gente vê uma certa malícia ou maldade em ti. És ambíguo, provocas desconforto nos outros, gostas do "contra" e do "anti" ditos em verdade porque a verdade é uma ofensa. Induzes os outros em erro, não te sabem amar como tu não te sabes também, porque às vezes mostras querer ficar mas na tua cabeça estás sempre a ir. Já ouviste tantas vezes que não és bonito e que não consegues. Ouves e acenas com a cabeça mas não é fácil ser a tal que te anula a cabeça e diz "escuta". Por isso nada te abala, és senhor de ti. Talvez se falasses mais, se abandonasses essa timidez inicial cada vez que conheces alguém que se transforma em sede de saber logo a seguir, se gostasses menos de ouvir, se fosses por uma vez aquele que só fala, talvez aí, pudesses perceber que à tua frente estão pessoas. Mas tu não gostas de pessoas e adoras Pessoa. Não sei de onde vem esta relação que tens com os duelos, com os dúbios, com o mistério. A vontade de permanecer faz-te tantas vezes ficar afastado de ti. Porque vais e vens, vais e vens, e voltas sempre a ser um solitário. Desconheço do que tens medo afinal, sendo que aposto que tens medo de ti. Do que poderias ser se fosses mais. Ou menos, porque estás perdido. E é por isso que eu tenho um pedido para te fazer. Escrevo-te uma carta porque sei que adoras ler mas não o tens feito muito, mas sendo um curioso como és, terás que ler isto. É um favor que te faço e gostava que aprendesses a aceitar favores. Não estás sozinho. Eu estou aqui. Não me fui embora, não deixei de ser artista, apenas tenho muitos quadros para pintar, não deixei de te escrever, apenas quis que esperasses por mim mais tempo. Sou vaidosa, gosto de ser cobiçada. Não estou perto, eu sei, mas estou a chegar. Talvez queiras acender um cigarro enquanto esperas que eu chegue, por isso te matei à partida. Faz-me impressão que queiras morrer devagar, enquanto te sufocam o ar, mas faço-te a surpresa às vezes. Esse coração já foi tão rebatido, agitado, atirado, pisado, tantas vezes que sempre irei admirar como ainda consegues desvalorizar o teu passado e seguir em frente. És tu mesmo um louco e hoje gostava de te pedir que o fosses sempre, que mantivesses essa loucura, quando te vês como orfão, te sentes sem terra, sem ideal politico, quando gostavas que o mundo voltasse à anarquia e és anárquico a sentir. Não deves nem temes, admiras sem fé os que te inspiram, que falam com paixão, quando amas os teus amigos como se fossem a tua fonte de vida e de conhecimento, quando adoras pessoas e viajas, quando detestas pessoas e te revoltas. Tu és admirável, no entanto tenho medo de ti. Matei-te porque tive medo que me matasses primeiro, que ficasses cego, demasiado embriagado ou num trance qualquer. Afastei-me porque não suportaria que te afastasses. És alegre quando estás a ir, a tua felicidade é olhar de longe e com carinho o que abandonaste, afinal aquilo que sabes sempre é que não estás satisfeito como tu querias. Poderias ser sempre mais e fazes tão pouco. Porque é que fumas? Não fumes. E as drogas? Sim, eu sei que as portas da mente não se acabam de abrir mas olha para ti. Os teus limites distorcidos por uma mente demasiado aberta, a tua crença na bondade e fé extraordinária de que o teu país, o teu mundo, tu mesmo, têm à espera um dia de glória. Mas as tuas glórias mudam porque sonhas para lá de ti. És muito os outros, mas arrogante. Simpático, mas observador. Correcto, mas agressivo. Dócil, mas com o coração partido. Pela sociedade que te apontou o dedo pela maneira estranha de vestir, notas ou falta de beleza. Eu sei que ainda não te achas bonito, que não acreditas quem alguém se pode apaixonar por ti, que já amaste e acreditaste tanto que era possível e nem reparaste como não foi realmente. E como amaste sem medida e te puseram regras. Como ouviste dizer como era não amar-te ou como era não gostar do que eras. Mas tu deixas de ser, deixas de ser quando te magoam e deixaste de ser tantas vezes que o teu coração desapareceu e é disso que agora estás à procura. Longe de mim, mas comigo a chegar. Morto por mim, mas com a vida que quiseste. Vai ficar tudo bem, escuta, tu consegues. Consegues fugir de mim mas vais escolher ficar, porque somos todos diferentes. Continua a gostar de música sem saber tocar, continua a ser louco por cinema, continua a adorar praias num dia de inverno, continua a adorar cafés de conversas vulgares e mocas de conversas fantásticas, continua a gostar do que tu gostas com vontade e verás que não vais gostar de parar de gostar. Tenho a convicção de que és convicto do que queres, do que não queres e do processo de descobrir tudo isso. És louco, como eu disse, mas a tua loucura é muito bonita. Gostas do jogo e dos jogadores, do mundo e dos que sabem vê-lo sem palas nos olhos. Tenho a certeza que tu estás correcto até tu mesmo te proves o contrário. Tens que aprender a ser tu, é isso que te quero pedir. Como te posso matar, se mudas a toda a hora? Estou a escrever que és e já não és. Como podes ser o sujeito que eu escondi? Ninguém se consegue esconder. Tudo tem uma razão e tudo está ligado por partículas de átomos e é tudo um caos. Como podes ser o sujeito que eu escondi? Porque percebeste isso e porque sou eu, que gostava de esconder um sujeito como tu.
Estupidez
Não sei quando é que percebo. Estou a cinco minutos de te apanhar e tu foges. Divides os pedaços de ti em partes mais ínfimas ainda, à espera que eu saiba decifrar o que tu és, mas eu nem sei o que sou. Encontro-me sempre nos outros mas quando converso contigo só fico com mais dúvidas de se isto que eu vivo é realmente uma vida. És tu que me mostras o lado negro da lua. É sobre ti que falo quando descrevo um lado lunar numa noite escura com as drogas de amor. As viagens todas e os comboios sem fim, os três e oito com que escrevo o teu nome e tu vês sempre as minhas costas, às vezes em curva, outras vezes só longe. Recordo uma noite em que me estou a rir, deitada desconfortavelmente na cama, tantas vezes a olhar para ti por entre palavras ao lado e discursos vulgares sobre a ordem do mundo, que me esqueço de ver o quanto consegues ser bonito por entre o bigode desalinhado e os olhos fugitivos. Não te acho piada, nunca achei verdadeiramente, gostava de ser sincera nesse aspecto, mas sabes fluir conversas que me tocam na vontade de falar e eu nunca desejo exprimir a minha alma. Talvez por teres percebido tão bem a deslocação do meu espírito, do corpo que abandono e das casas que não tenho, consegues falar para o meu lado obscuro em discurso directo. Não faria mal por ti e percebo-te minimamente, mas perfeitamente não consigo entender qual é este meu mal desresponsabilizador, esta doença reflectida em ti, esta vontade de ser todos os lados de mim publicamente. Não sei quando é que percebo que isto não me leva a lugar nenhum, a não ser escrever. E desabituei-me de viver no papel porque já não gosto do que é palpável. Estou a cinco minutos de te perder e tu vens. Afinal,"como é que podes gostar de um homem que não te fode?".
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