Afogar-me


Sinto a afogar-me. Toda a água que constitui o teu corpo deve estar a engolir-me. Cada gota entra e como se não fosse água queima-me. Uma entra-me pelos olhos, é a tua imagem, a tua caçadora e esfomeada imagem. Outra gota entra-me pelo coração, é a tua presença, que a muito me abandonou mas ainda está viva e dilacerante como antes. E a maior gota de todas, a maior onda de água que me assombra não é vinda de ti, não. A minha alma está inundada por uma terrível lembrança. O que me disseste e fizeste ainda vibra e suspira com o vento que respiro... Não te consigo largar enquanto tiver todos os dias que o lembrar. Como se eu pudesse afastar toda a água de volta de mim e subir a tona... Agora esta a entrar-me pela garganta e cada vez que passas por mim vou mais e mais fundo. Ainda assim o meu orgulho não me deixa bater no fundo, ainda quando a minha vontade é encher os pulmões e fazer deles parte deste poço onde me meto. Pois, e enfim, que me sinto prestes a boiar... Não sei porque me meto no poço, porque me meti. Nunca mais chega o tempo de seca?

Pele


É no instante exacto, nem um segundo mais cedo ou mais tarde, mas nesse exacto e preciso instante em que me olhas antes de apagar a luz, que me sinto a rapariga com mais sorte no mundo - Margarida R. Pinto


A minha pele não fala, mas bem que podia falar. A minha pele não fala, mas se falasse facilitava-me a vida... Podia dizer-te o arrepio dela, a sensação, o toque. Podia dizer-te qual a sensação de ter a tua mão na minha anca, na minha perna, na minha barriga, no meu peito, nos meus braços, e qualquer outro canto do meu corpo onde toques, ela poderia dizer-te a magia que é. E hoje quando adormeci nos teus braços ela poderia dizer-te o quão fantástico é o contorno do teu peito e a suavidade que ele me transmite. E quando estou debaixo dos teus, agora quase nossos lençóis, ela poderia dizer-te o quanto lhe sabe bem suar e poderia suspirar mais alto que eu.

Mas a sensação que me deste hoje ela não conseguia descrever. Não me sai da cabeça. Pela primeira vez consigo pensar em algo que me traz paz, depois daquilo tudo. Eu adormeci e tu acordas-te-me, até ai nada de anormal, não é a primeira vez que adormeço na tua cama nem será a última... Mas não me chamas-te, não me abanas-te. Beijas-te-me. Senti os teus lábios perto dos meus olhos, depois foram descendo, sempre saltitando, até à minha boca, e eu despertei! Disse que eras lindo, que te amava, mas estava cheia de sono, por isso, abracei-te, envolvi-te, beijei-te muitas vezes e adormeci com os meus lábios nas tuas pálpebras... E depois não queria sair dali, não queria mas agora chegou a noite e estou aqui. Na minha cama, que foi tua hoje de manhã e posso-te dizer que ter-te na minha cama a dormir é a visão mais aconchegadora do mundo.

A minha pele bem que podia falar, mas continuava ser pouco, muito pouco.

«Henrique III»


(...)
Ele pegou-me na mão, encaminhou-me até à mesa, puxou uma cadeira e sentou-me lá.
Comecei a suar e podia sentir todo o meu corpo a tremer... "Estás bem?", ele parecia preocupado. Eu também estaria. Eu devia ter um aspecto horrível, tinha estado a dormir e estava cheia de fome. O meu melhor amigo e minha grande paixão diz que me ama, e eu só penso em comer... "Deves estar cheia de fome...". Pois, era evidente.
"Olha Raquel eu sei que tu adoras massas e essas coisas... Por isso fiz para nós." - ele acabou de dizer que cozinhou para mim e deu-me um colapso: "HENRIQUE! Espera... para! Não estou a perceber nada! O que é isto tudo? Para quê? Henrique?" e ele proferiu com uma voz melodiosa quase a cantar: "Eu amo-te Raquel...". O meu coração começou a acelerar, levantei-me para o confrontar, mas deu-me uma tontura e cai, cai redonda no chão. Não vi mais nada.
Acordei outra vez, de novo na cama. Agora tinha um cobertor cinzento com muito pelo em cima de mim e este tinha o perfume dele... O perfume dele é o cheiro que eu mais gosto no mundo. É leve mas penetrante, tem um misto de frutas com algo que não consigo decifrar... mas é também muito masculino, e deve ser por isso que as minhas hormonas se ressentem por ele.
Abriu-se a porta... Henrique estava só de calças e juro que podia desmaiar outra vez se aquilo que eu tinha a minha frente não fosse a visão da perfeição. Eu nunca tinha visto o peito do Henrique nu... E qual magnifica experiência ele agora aparece-me nu da cinta para cima e com a luz das velas a bater-lhe nas costas. Ele tinha uma mão no puxador e outra no paradeiro da porta, estava ligeiramente inclinado para frente e eu consegui ver-lhe o ombro esquerdo e quase todas as costas desse lado... Semelhante forma era chocante, ele era o homem mais lindo que eu já tinha visto. Pensei que já muitas vezes tinha me encostado no peito e sentido as formas mas ver era diferente... Ele tinha todos os músculos perfeitamente desenhados mas como era magro não estavam demasiadamente desenvolvidos, só o suficiente para poder encher a mão de cada um deles, mas era o peito o mais magnifico músculo do Henrique: era o mais desenvolvido e o mais apaixonante. Era volumoso e quase de certeza que ao contrário dos outros uma mão não me chegava para me ocupar dele, tinha aquela curva característica do peitoral masculino elevada que fazia uma ligeira cova com o abdominal abaixo. Tinha um espaço, um vale entre os dois peitos e os mamilos eram pequenos, rosados e faziam um circunferência perfeita... Desci o olhar até a barriga e perdi-me no meio de tanta beleza... Ele era moreno, não muito mas o suficiente. A barriga dele era uma tabulete de chocolate que eu podia comer até não poder mais...
"Raquel estás a sonhar acordada?!" disse-me a sorrir. O sorriso dele era de um anjo e a voz dele era uma melodia dos céus. "Sim..." - pronto isto era escusado mas era verdade e eu não conseguia mentir-lhe. Ele soltou uma gargalhada e eu corei, como quase sempre. "Espera já venho..." (...) "Olha! Espero que gostes...". Ele vinha com um tabuleiro na mão, daqueles com perninhas para se comer na cama, tinha um prato de massa com delicias do mar e eu não podia resistir... "Henrique já comeste?" "Já... Dormiste mais uma hora por isso...". Ele riu-se outra vez e eu sentia-me ridícula, mais uma hora a dormir, obrigada meu deus. Imagino as figuras que faço a dormir e o Henrique a ver tudo... "E porque estás assim?". Ele surpreendeu-se: "Assim? Assim como?". Eu apontei o dedo para o peito dele... "Ah... Esta calor não achas?". Sim estava calor... Principalmente porque ele agora estava sentado do lado direito da cama a brincar com a almofada...


(continua)

Lovers