A rapariga sem coração


Abriram-lhe o peito com o bisturi, era a carne mais dura de cortar que tinha passado por aquela maca fria de metal. Devagar enquanto o pouco sangue que ainda lhe havia no corpo saia. Não deixa de ser tão bela a morte, pois não? Ainda mais lentos ao abrir a pele, separada cada parte para seu lado, tal como a causa do acidente. Distraídos com os instrumentos foram prontos para lhe tocar mas as surpresas acontecem até nos dias mais escuros e ela não tinha coração. Estava de peito vazio, só pele e músculo. Procuraram. Lavaram os olhos. Correram corredores para trás e para frente. Ela não tinha mesmo coração. Um crime horrendo, certamente, tanta beleza sem coração. Chamaram tudo e todos mas ela continuou de buraco aberto para quem quisesse ver, a rapariga sem coração. Ligaram para o único número no telemóvel dela, atendeu do outro lado uma voz alegre de homem mas logo gelou. Ao chegar, só lhes disse "outra vez ela, sem coração, sem nada para dar, outra vez ela ai deitada a fingir-se de morta, a deixar-se cortar por qualquer um que lhe queira magoar, não sente nada e outra vez ela para me atormentar os sonhos e os pesadelos, outra vez, outra vez, outra vez para me castigar outra vez". Parecia realmente louco, depois de a ter morto todos os dias para lhe lembrar estava ela com outra cara, outro corpo, outra roupa mas sempre sem peito. Com outro nome, sempre bonita, em todos os lábios, em todos os cantos, sem coração. Um mês depois, um ano depois, eternamente depois para lhe lembrar do sucedido e ela sempre ali viva sem coração no peito a ser cortada mais uma vez a cada olhar dele, outra vez aquele olhar que lhe dizia o que não era saber amar. E outra vez ela de peito desabrochado a olhar para ele com aquele olhar que o fazia desejar saber amar.

Pulsação


Eram três da manhã, olhei no meu relógio dourado. Fumava o meu cigarro vermelho, sentada no parapeito da minha janela do terceiro andar, olhando as estrelas do céu, eles riam-me e eu soltava gargalhadas por entre fumos e copos de vinhos a pequenos goles. Quando fui ver as horas, parei um segundo para me apreciar, o meu pulso continuava fino. Lembro-me das minhas paixões sorrateiras e atrevidas e de como eu achava que as conquistava pelo tamanho do meu pulso. Tão delicado, tão forte. Achava que elas, as paixões, e eles, os homens, gostavam de mim por causa dos meus pulsos. Porque me podiam amarrar com facilidade, porque me podiam quebrar com facilidade, porque apesar disso nunca teriam força para tal. Eu achava que a minha paixão dependia muito disso, da minha força de pulso. Era tão nova, tão estúpida. Até agora entre copos de vinho é provável que aconteça algo de que me possa vir a arrepender, mas eu sempre fui fácil de levar com boas conversas, sorrisos tortos e mãos de pianista e, já agora, se me permitirem pulsos. O vento não vai dizer ninguém e tu onde quer que estejas nunca vais saber do que foi feito desse meu jeito simples de ser tomada, afinal, apesar, de ser assim mesmo simples, nunca tiveste coragem de fazer tão simplesmente assim o que te era pedido, dominar. E é tudo uma questão de força e é, por isso, que gosto de homens e de braços de ferro e olhares, como as mulheres são feitas para ser frágeis. Por falar nisso, tenho a certeza que me reprovarias pela forma como estou embriagadamente sentada na janela. Tenho saudades dessa tua protecção mas também quem me mandou ser senhora de mim, não faço nem deixo fazer. No fundo, sempre tive saudades de não ter este futuro entre copos, cigarros e sorrisos entre barba, mas o quão triste será ter saudades do futuro, que diz isso do nosso presente, pensa. Não penses, um dia de cada vez. Tu sabes que vou acabar sozinha e tu sabes que vais acabar a lembrar e talvez eu caia da janela e tu estejas a passar na rua e me apanhes. Ou apanhes o mesmo autocarro. Ou apanhes o mesmo grupo de amigos. Ou apanhes a mesma bebedeira. Os pulsos servem para isso, para agarrar.

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