«Henrique II»


(...) quase ceguei. E depois parei, não, aquilo não estava a acontecer...
A sala estava completamente diferente, branca e luminosa, como se de repente tivesse caído entre nuvens bem perto do sol. A mesa agora tinha duas cadeiras a acompanha-la, tinha uma toalha branca e cintilante como neve... E mais o mais magnifico era que todo aquele brilho provinha de mil velas, mil velas a arder, quase tanto como eu ardia.
Aquilo não estava a acontecer...
O Henrique apareceu a minha frente com aquele sorriso de orelha a orelha, com aqueles dentes perfeitos e ofuscantes, com aqueles olhos meios fechados de sorrir que mais pareciam avelãs, castanho claro com pinceladas de dourado. E disse-me: "Olá minha Raquel, pensava que nunca mais acordavas... Mas não te quis incomodar...".
Meu Deus... Que voz, que doçura. Ele nunca me tinha tratado por "minha Raquel", éramos só bons amigos, era estranha a nossa relação mas éramos bons amigos... "Raquel, Raquel... Tás a ouvir?!", "Não, Henrique há quanto tempo estou a dormir?" e corei. Nem podia imaginar que estive a dormir. E que casa era aquela? ...
Ele respondeu que dormi umas 5 horas, que já estava a anoitecer e que não me preocupasse... Que era o destino, era algo superior a nós que pôs aquela casa no nosso caminho... Que me deixasse levar... Eu só pensava "Nós?! Nós?! Ele nunca falou em nós..." Não percebia nada. E ai ele começou a falar:
"Raquel, eu sei que estás confusa. Que era suposto ter vindo correr contigo e depois aparece esta casa... Eu sei que ela te chamou, também me chamou... Enfim. Eu sei que não esperavas encontrar-me aqui, mas eu também não esperava ter-te na minha vida. Sei que achas estranho estás velas, este cenário cinematográfico, mas minha querida...", "Minha querida?! Ah?! Ele não disse isto e isto não está acontecer, não não não!", repeti vezes sem conta para me convencer. E ele continuava: "... eu queria mostrar-te o quanto me mudas-te! Não acredita que fosse capaz de amar alguém como te amo, e tu já deves saber que não és só a minha amiga, a minha boa amiga, és mais...", "Henrique?! Não! Não sabia! Henrique, eu...", "Por favor... Diz-me, mesmo que me mate!", "Henrique eu amo-te, mas não sabia que tu...". Eu não sabia, juro com todo o meu coração. E se soubesse, meu Deus, não teria chorado tanto, desejado tanto esquecer o meu "bom amigo Henrique".
Ficou um silêncio cortante, o meu coração acelerou e o meu estômago vazio remexeu-se. Ele pegou-me na mão, encaminhou-me até à mesa, puxou uma cadeira e sentou-me lá...


(continua)

«Henrique»


Estava a correr à horas e o Henrique nunca mais chegava para me mandar parar... Vi uma casa ao fundo, muito vaga no meu campo de visão.
A casa tinha um ar assustador, velho mas ao mesmo tempo de conto de fadas. Arrisquei em entrar... A porta rangeu e senti a madeira a estalar. Era fria e branca lá dentro, tinha apenas mais uma porta, uma mesa e uma cadeira de madeira escura e gasta. Aquela porta do outro lado da sala chamava-me...
Estava muito cansada de correr e por isso sentei-me na cadeira velha. Esta fez um barulho estranho como se fosse cair ou partir, mas deixei-me estar. Senti-me sonolenta e os meus músculos começaram a relaxar, apesar de ter medo de adormecer nesta casa estranha, deitei a cabeça na mesa. Os meus olhos ficaram pesados...
Alguém pegou em mim ao colo. Senti um frio mas voltei a dormir.
Quando acordei já estava do outro lado, ou pelo menos parecia ainda estar naquela casa mas noutra sala. Estava deitada numa cama mole, muito mole, sem almofadas e de lençóis brancos, suaves como seda e quentes. Sentia-me bem ali. A cama era única peça de mobiliário e era apenas um estrado. Senti movimento lá fora e pela marcação do passo parecia estar alguém a espera... Talvez a espera que eu acordasse.
Deu-me um aperto no peito, mas foi um bom pressentimento e confirmou-se...
Abri lentamente a porta e o aperto no peito continuou a aumentar ao abri-la. E ao abri-la completamente, e ao abrir os olhos para lá dela, quase ceguei (...)

(continua)

Lovers


"Era um amor à Romeu, vindo de repente numa troca de olhares fatal e deslumbradora, uma dessas paixões que assaltam uma existência, a assolam como um furacão, arrancando a vontade, a razão, os respeitos humanos e empurrando-os de roldão aos abismos" - Eça de Queirós

Always, ever and ever.




«I want your love and
I want your revenge
You and me could write a bad romance
I want your love and
All your lover's revenge
You and me could write a bad romance»

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