Ainda não voltei


E de frente para todas as coisas
A passos largos ou pausados
Deslumbro a minha existência fora de mim
Numa que não sou eu
Assumo a história de todos os que proximamente me rodeiam
Como se eles mesmos não soubessem viver a vida deles
Mas sou eu que não sei viver a minha
E olho para trás em todas as coisas
Não vejo nada senão actos que não foram meus
Escolhas que me são alheias
Quero ir embora, quero ir embora
Sem terra e sem mãe
Quero ser mãe dos meus sonhos
Criá-los como estes passos largos
Vivê-los pausados
Nada disto é meu
Por capricho de não tocar em nada nem tomar nada como meu
Não querer adquirir nada para além de livros e mais sonhos
Resta de mim apenas a roupa preta espalhada pela casa
A sombra do que realmente sou
Estou mal
Sinto-me intrinsecamente mal
Incapaz de olhar para mim própria
Confrontada pelo espelho, sinto-me bem
Mas as pedras da rua
As pedras da rua estão a julgar-me a cada passo que dou
Julgo-me parada
Tropeço nos pássaros que cantam no meu ouvido
De um livro que fala da leveza da alma
Pesada
A pagar para viver numa cidade que não gosto
A fazer o que não quero
Juntei-me a peça teatral dos demais
Perdi-me, confesso
Quero ir embora, quero ir embora
Mudar de nome
Já pensaram em mudar de nome?
Antes disso tenho que acabar de fumar.

Porque podes


"I need you as the one luminous point in my madness."

Sabes que às vezes quero morrer? Não sabes. Até te digo que estou feliz e não precisas de conversar com este monstro. Mas às vezes quero morrer. Estou a mentir-te. Sempre antes de começar um novo dia, antes de fechar os olhos para mais horas a seguir levantar a alma que me pesa. Quero morrer e não tenho vergonha disso. Parece-te vulgar? Achas que estou a ser ingrata? Eu não sou boa pessoa. Não gosto de estar viva e queria acabar já com esta ansiedade de saber que amanhã o dia é igual. Achas que vou acabar por fraquejar e contar-te a verdade, dizer-te que me vejas com olhos surpresos quando te digo que achei que me podias fazer menos sozinha enquanto louca? Não podes. Não sou boa pessoa. No meu íntimo odeio-te, não como odeio toda a gente, mas sou frágil e construída à base de traumas e desculpas estúpidas para mim mesma. Estás a ver a porra de cliché que arranjas para me dizer a toda a hora como conversa inteligente? Pronto. É isso. O teu corpo é isso. Tu és isso. Tão importante como inútil neste momento. Queres morrer? Achei que me fosses perceber. Que te podia esclarecer dúvidas geniais. Que até podia encontrar solução para este pano. Mas volta e meia levanta-se e lá vamos nós ao palco. Não queres morrer. Gostas da vida. Ainda que vulgar. Talvez eu seja só mesmo ingrata. Ou vazia. Ou não sei o que quero. Não quero nada. Já disse aqui, já sei. Já sei que leste esta merda, outras merdas, mil merdas. Não percebeste ainda que eu quero morrer? Talvez, um dia, o faça mesmo. E mate este sonho que vive dentro de mim e que eu não sei sonhar. Não, não preciso que me digas que tenho capacidades, sou espectacular e que vou conseguir. Se eu me quisesse matar, já me tinha matado. Mas tenho medo, tenho medo que no fim queira só estar viva, ter uma casa e o teu ódio sentado do meu lado. Não quero?

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