Estive ausente e estarei ausente por tempo indeterminado, mas parei de fazer as malas para te escrever esta carta. Escrevo sempre no teu destino como se aquilo que sei sobre me expressar tivesse que rimar com o teu nome. Meu amor, vi-te à porta do café. Com uma camisa que eu não gosto, com os mesmos olhos dourados. Pareciam inquietos, talvez porque eu fique sempre inquieta ao cruzar a mesma rua que tu. Meu amor, eu não te toco há tanto tempo, não ouço a tua voz há tanto tempo, não te amo há tanto tempo que agora tenho que aprender tudo de novo. Sem o vício da tua pele, sem as manias do teu cabelo claro, sem os pedaços de mim que eu perdi por contar. Meu amor, disseram-me para te deixar ir e eu deixei. Disseram-me tanta coisa sobre amor e eu continuo a morrer. Sinto falta de quando me protegias da trovoada e tenho saudades da maneira como me davas colo para eu dormir, falta-me tanta coisa como se me faltasse uma casa que eu não tenho para mim, como se todas as cores de que eu pinto o quarto, nenhuma tire o teu ar fino pela casa e as tuas mãos de pianista e as tuas bandas favoritas que agora são famosas na rádio. Os teus sonhos feitos de pássaros, quando choravas porque eu era a única que te podia ver chorar, quando te deixei. Eu sinto que há uma parte de mim que nunca te vai deixar, tenho o teu peito gravado na memória, a forma dos teus braços a apertar-me os ombros, os teus ombros a mexer-me no coração. Sinto que há uma parte de mim, inocente, que morreu no dia em que fui embora, tal como vou agora. E sinto que faça os quilómetros que fizer todas as ruas vão ter o teu nome. Não sei se é suposto dizer-te que não me lembro de ti, que vivo os meus dias sem sequer me lembrar mais de como foi viver contigo. Que não te amo mais. Que não sei se te amei. Mas meu amor, eu sei que a última vez que tive coração e que ele não foi frio, foi contigo. A muralha que há à minha volta não tem medida que eu consiga ver. Estou extremamente cansada. Meu amor, se tu soubesses. Tenho que te deixar ir eu sei, nunca te soube dizer adeus. Nem quando estava contigo, era sempre "até já" porque eu tinha medo que este dia chegasse e ele chegou. Não vou morar mais na rua acima da tua. Não era para eu ter ficado magoada assim, eu devia saber escolher as coisas boas que me deste, mas só agora aprendi que tu eras beleza. Depois de tanta carta que te escrevi, talvez esta seja a última. Eu tenho tanta coisa para me despedir por mudar de cidade, por mudar de vida, porque tu sabes que eu não consigo só fazer uma coisa, mas vou guardar-te no coração. Ensinaste-me tudo sobre amor, é amor que eu vou encontrar, é de amor que será o mundo. Amor como o nosso, como o meu, como a vida. Meu amor não és mais meu e eu não sou demais. Sentei-me em frente ao Universo e vi que não posso mais fugir de mim. Meu amor, nem todas as metáforas do mundo chegavam para expressar esta alma.
Labirinto
"Porque é quando te calas que eu penso..." | A anestesia do quotidiano mascarada de tons mais cor-de-rosa que o habitual ao final do dia e incandescência ainda suportável nas horas de esperar, que não me deixa nem chorar nem escrever, nem sonhar nem querer. O cansaço de andar e ainda que o passo seja sempre em frente, está cansado. Estou cansada. Quero dormir dormindo. Sem sede de acordar melhor, não estou melhor, só pareço mais enquadrada. Estou triste, sem tempo para estar triste. E sinto saudade sem corpo para sentir falta e lágrimas que seco ao pensar em chorar. Quem escreve não pode viver esta normalidade, mediocridade diária sistematizada. Não sou obra nem arte, não sou nem tenho tema, nem mágoa, nem raiva, nem nada para lá de aceitação. E por isso sou pintada, mas não sou arte. Claro que falo momentaneamente, aliás como deverás é unicamente permitido, mas não posso aceitar esta moldura. Estupidez. Estupidez. A desistente que nunca realmente desiste de nada. No peso não da fotografia, mas do papel que envelhece e apodrece, e que se toca mas não se sente porque o tempo é relativo mas não volta atrás. Esta calmaria estúpida. A anestesia esporádica da lembrança de ti, do café com os amigos, dos copos de vinho cheios de conclusões, do pecado que encontro ao lado do perigo, dos riscos que não corro, na paixão que não tenho, na gana que me falta, no foder aleatório, na ausência de perfume, nos gritos vazios, no calar porque andar, andar e andar. A anestesia intrínseca da ambição desmedida, no fugir, no não querer, no abandonar, no adeus. Esta iminência sanguínea de refúgio. - Puta que vos pariu a todos! A falta de coragem, mas puta que vos pariu a todos. A paz, a passividade, a calma, a bonança, o céu azul, o que brilha, o que sorri, o que está bom, o que aconteceu como planeado, o que era desejado, tudo isso é para queimar! A vidinha, a merda da vidinha. A falta de paisagens, a falta de amor, a falta de rebeldia, fazem-me falta. Não quero ter sono, não quero estar comprimida a mim mesma, tenho ansiedade de viver. Lentamente a escassear sonhos, mas é fazer-me o favor de me manter acordada. | "... porque é que não és feito de silêncio".
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