Pude deslumbrar limpidamente a tua imagem, se somos o que dizemos, pude então ser Narciso no casaco de ganga, no pescoço moreno, nos olhos tristes do teu teatro de existir. Não quero com isto dizer nada, nem que sinto a tua falta, mas sinto. Não quero dizer que sinto tanta falta como sentirás de ti mesmo mas esses olhos já são mais vazios que verdes ou de outra cor qualquer que nunca lhes entendo. Com peito de mãos cruzadas sobre ele sem flores entre os dedos e uma terceira mão que é minha e à distância suaviza cada um dos teus caracóis azuis, tens o corpo deitado ao lado do meu. Mesmo que não o tenhas. Não quero parecer piedosa, adequada, boa amiga, sensata. Desejo sentir de forma equável a força do teu peso e a força da minha alma. Quero juntar os vidros feitos de raiva que me rasgam o à vontade e olhar-te de frente com coragem para te dizer tudo e não precisar de dizer nada. Porque não me apetece a aleatoriedade das palavras nem o sentido bipolar das conversas circunstânciais. Não me apetece ganhar nada, por isso não quero jogar, não quero peões, não quero nada no meio do campo aberto que devia ser o que sinto por ti. Não te quero sufocar com pedidos, lamentações, a minha presença, mas não quero também ser tão calculista, tão conveniente, tão senhora de mim. Não sou, não sou, quem me dera ser. Sinto a tua falta com uma longa lembrança que nunca esperamos ver sair dos cantos da mente. Acordo, adormeço. Fazer, agir, falar, contar, ler, escrever, viver tem o teu nome de pano de fundo diariamente. O que farias, o que dirias, o que tenho para te contar tão insignificante. Estou esgotada e acredito que no meu disfarce resida a verdadeira significação para não conseguir reagir sobre o meu cansaço. Achas que morremos e ainda não sabemos? Também achas que me mataram? Que estou incapaz talvez? Não tenho razões para sentir esta angústia tirando que a verdadeira causa da minha angústia é tão simplesmente um velho desejo humano, ou uma mentira universal, ou uma manobra dos deuses, ou uma conspiração do universo, ou o maior produto da história, o velho, tão velho, como eu me sinto, o amor. Ou como lhe chamam, o amor. Ou como eu nunca tenho a certeza, o amor. Não ligo a frases feitas, nunca liguei, acho-lhes piada e comunico facilmente utilizando-as nessas circunstâncias superficiais que descrevi não querer, mas tenho procurado nelas razões para me levantar em metade e noutra metade para desistir. Quero reinventar a vida, a minha, a tua, toda, o mundo, a escrita, a vontade, a rotina. Como se fossemos um conjunto de coisas expostas que têm de ser valorizadas, ainda que sempre sem inflações, opiniões de críticos e sem medo. Quero olhar para ti sem medo. Com a mesma naturalidade que te questionava antes quero responder ao questionamento provocado pela minha alma. O que é isto e quem és tu. Há em mim esta confissão de que me lesses e soubesses, porque sabes só, que é para ti que escrevo. Um dia. Porque tenho imensa pena, terrível medo, coração gelado, alma doente, e não há dia em que não desejasse não ter para te poder falar sem a peça que montamos, a história que achamos que lemos. E seremos um dia, ainda que longe, ainda que nunca tenha realmente feito isto. Espero para ti e nunca por ti, assim como prometo para mim e nunca por mim. Todos os dias são dias em que o teu nome tem arrependimento intrínseco nas letras mentais de o pensar. Como só o tempo sabe ser, invisível. Foi assim que te pude deslumbrar, sem saber quem és mais do que aquilo que já sei, com a certeza que sei mais do que a distância, o espaço, as horas, e a matéria circundante, todos, podem saber. E não estava nem estou drogada de nada, tenho a certeza que não. Esta metamorfose está só para lá do que não podemos imaginar.
És o que faço
Quem és tu homem nu? Ode ao amor, manifesto à vida. Se eu nem sei se me lês, quanto mais se me ouves com vontade, quem és tu? És o que eu faço de ti nos dias em que não te quero dar a mão numa tarde de Inverno porque nós não duramos até à próxima estação. Quem és tu se eu nunca te desenhei, nunca te vi com luz natural? Quem és tu homem vestido da roupa dos outros? Se eu soubesse que não me lês, contava a verdade. Mas talvez tu sejas mais capaz de me ler nas entrelinhas do que eu capacitada para te escrever cartas sinceras. Não consigo não mentir. Não tenho mais imaginação para a realidade, não tenho ferramentas que permitam criar uma e outra vez esta história. É preciso que nos afastemos de todas as coisas que nos arrastam o espírito, nos dão vontade de dormir, nos fazem vestir cores para além de preto. - Meu amor, meu amor, meu amor. Uma merda de amor. - Despi-te de olhos suaves, de olhos brilhantes, de olhos além do essencial. Essencialmente porque és só tu. E eu não sei porque tu não sabes. Quem és, o que fazes, o que me dizes, o que te conto. - Foge, fogo, foge, fogo, miúda. Mata todos os gestos e afectos. Às seis da tarde, às seis da manhã, sê isenta e envia-lhe uma pergunta despojada de cobardia, de jogo, de pensamento. - Quem és tu agora? Que não sabes nada, que usas as minhas palavras, que me cortas a linha mesmo que eu não queira ser silêncio. Que não me conheces, que me julgas insuficiente, que me és limitado demais para ser estranho para mim. E podes até mudar a cada cinco minutos, até tornar os minutos relativos, mas quem és tu meu amor? És um bocadinho aqui, um bocado ali, um bocadinho de nada. Um lapso de memória, uma ausência, uma eventual falta fatal em dias maus, e és isso tudo, menos quando tenho que fingir entusiasmo quando partilho contigo o que não tem partilha possível porque à falta de entusiasmo, ligo os sentidos e um por um todos me dizem quem és tu. Um bocadinho menos, cada vez mais, um bocado do que não quero, um pedaço do que não posso ter, uma parte do que já não sei ser. Todos me dizem para fugir, eu já sei de trás para a frente e em reverso igualmente os muros, as limitações, os sentidos proibidos. É uma pena, sabes? - Claro que sabes. - E não me interessa realmente quem és tu, nu ou não, vestido com a roupa dos outros, ou como os outros, ou de ti ou para ti, porque na verdade, na verdade, isto é uma merda e eu só quero ir, ir, ir, ir, ir, fazer, fazer, fazer, fazer, sonhar, sonhar, sonhar, e nunca, nunca, saber quem és e saber quem sou. Hoje é um dia mau. Pareces-me igual a todos os outros, já não sei, não sei, nunca soube, quem és. Estou enganada e não é a teu respeito, estou enganada porque estou apaixonada. Porque como já te escrevi uma vez, e nunca te disse, não sabes... ser. Tu. De ti. (Ainda). Muito menos meu amor. Calma, muito menos. Quando toco nunca estou quando falo não penso que quando penso sempre sinto e quando sinto sou.
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