Hoje e há uns quantos dias que não sei contar porque acordo de noite e sonho de dia, padeço de um nojo de ti. De um claro afastamento de tudo aquilo que possuas de bom, como se claramente te pusesse um pano negro em cima, cruzado com a minha visão periférica e longínqua de ti. O afastamento. A distância. O discernimento pela razão que nos dá o tempo. A canalização de todos os meus pensamentos para resolver as minhas memórias de ti. São poucas, ou porque não me lembro do teu cheiro, ou porque não sei o tom da tua voz sem ser no meio de uma multidão que rondas a procura do que não tens nem nunca terás, pessoa, ou porque dispenso enfrentar tamanha estupidez. Estupidez, com as letras todas, o sentido completo, o sabor amargo sem reversos e prós. Dispensava no mesmo automatismo da vida que estivesses na minha. Estás seco, fazes parte do todo dos outros, não me dás propósito nem sentidos. Dás-me náuseas, uma revolta no estômago que tendo a confundir com paixão, não me serves para absolutamente nada que já alguém não tenha servido. És cheio de lições de moral vazias, falsas demagogias, utopias sem carne e a tua carne não tem calor. Estás morto, acho que estás morto e fujo de ti como quem foge da vontade de viver. Ensinaste-me a sentir falsamente. A sentir carinho por algo que não gosto, a cultivar a raiva em gestos de amizade, a odiar o que és por me roubares a imagem que tinha de ti. És ladrão de ti mesmo. Das tuas capacidades, que tornas fracas, da tua personalidade, que tornas vulgar, da tua pessoa que desencanta e só sabe desencantar. Já sabia que não gostava de incoerência, contigo aprendi que detesto pessoas que fingem saber sonhar. Isso foi o que mais me magoou em ti, a tua falta de visão, quando no entanto me fizeste acreditar que sabias ver. Hoje e há uns quantos dias gostava de te dizer que estás morto e vou ter sempre saudades de ti e de mim antes de teres morrido. Decomponho-te a alma, a pessoa, os segredos enquanto me vejo claramente a mim, nunca estive realmente contigo e nunca vou querer estar, ao contrário do que eu imaginava. E tenho tanta pena que não saiba só imaginar, porque tenho que te fazer ver que este ódio de ti é meu.
Double Mind Chief
A apatia dos meus dedos para escrever é quase a mesma que me leva a olhar pela noite do outro lado da janela do comboio e imaginar um movimento que não existe, provado pela falta de passagem das coisas que constroem cidades lá fora. Dói-me o peito até à alma com quem eu discuto. Odeio o tempo e é por isto que eu o odeio. Falta-me a segurança para poder dizer que não voltava atrás, mas claramente eu voltaria. Nunca teria saído de casa, nunca teria vivido em primeiro lugar. Farta deste calor que me queima as pernas e me impede de fugir, tenho saudades de quando sentia vento dentro de mim, uma caverna oca de sentimentos, um coração gelado. Não sei respirar em queda, não sei sentir para lá de mim, não sei tocar em ninguém. Enquanto todos procuram felicidade, eu procuro paz num barulho que me cale os pensamentos, que me leve a vulgaridade das coisas, que me afaste a vontade, os sonhos, as utopias que dilaceram a realidade em pedaços que nunca consigo apanhar e juntar. Nas vozes que me assombram a cabeça eu escuto as vozes das músicas que me lembram da minha fragilidade. Evito sentir raiva mas é raiva que eu conheço de perto para sentir. Vou ter saudades. Já tenho saudades de mim mesma até. Desde o início. É confuso perceber que não tenho percepção. Que por mais clara que possa ser nunca o serei suficiente, numa arrogância que não é minha e com a qual não sei lidar, personifico o mal de fazer tudo mal, esperando que tudo se resolva. Às vezes sinto que simplesmente coloquei a mão no meu pescoço e eu apertei, que me coloquei numa caixa e em mil malas que já fiz e viajei para longe de mim mesma, que fiquei perdida em não saber amar achando ter todo o amor do mundo para dar. Tenho diálogos sobre tudo com o nada que está a minha frente e se apresenta com a mesma voz que eu na minha cabeça, lá eu sou duas, confrontadas, em olhar directo uma para a outra, dizendo claramente que não é amor, é ódio o que sentem uma pela outra, que não suportam a maneira como uma parece sempre antecipar os passos da outra, na minha cabeça sou tão divida que vivo em constante administração de duas personalidades, dos seres que são independentes e no entanto não percebem que não vivem sem dar um passo à sombra do outro, trocando e invertendo papéis consoante lhes apetece viver um dia ou dois. Hoje saiu eu, amanhã sais tu. Tenho dias em que elas se separam de mim e me vêem como deus, tenho dias em que as obrigo a falar e me vêem como o diabo. E podiam ser dois seres fáceis mas nenhum aceita realmente o que o outro tem para dizer. Preciso de me colocar em discurso directo também para mim e não consigo. Os dias atropelam-se à minha frente e eu perco-me nas horas entre viver e sonhar, entre sonhar e desistir, entre sonhar e sonhar. Não sei que faça senão sonhar e colocam-me em perigo quando me obrigam a ter acção, antecipação, em praticar os pensamentos, sonhos, sentimentos, sensações, porque para mim são todos os mesmos e não os consigo apresentar como diferentes. Talvez porque já tenho tanta dúvida e duelo para lidar dentro dos meus olhos, tal por isso, talvez apenas, eu não consiga deixar de achar que tudo se vai repetir e eu não sei repetir-me, para mim tudo são versões diferentes porque todos os dias o sinto diferente e por muito que esta história te pareça a mesma de sempre, que já me ouviste falar e já me viste escrever, acredita que não é. Pela primeira vez, nenhuma das que eu sou sabe o que é. Ficava aqui mas tenho que ir. Falava já mas tenho que fazer o amanhã. Gostava mas não sei gostar, não nasci ensinada. Se eu morrer amanhã, isto não tem importância, mas então estar viva podia ser mais fácil e eu todos os dias nasço. Se tu não tivesses aparecido eu não tinha que morrer todos os dias para o fazer. Uma das que sou quer falar contigo mas estão todas desejosas de nunca o fazer. Diz-me onde paro de perguntar e digo-lhes para parar de falar. Porque eu gosto tanto de ti mas elas odeiam-te, eu gosto tanto de ti mas odeio os teus deuses, as minhas são isto que eu não sei explicar. Não sei onde é que aprendi a odiar mas se algum dia souberes como é que se pode ser ao contrário, diz-me. Diz-me onde deixo de parar. Estou à procura de uma ponta de realidade e não consigo.
Não confundir
Vou acreditar que as cartas sem destinatário, algures no caos que é o universo, de alguma forma, chegam onde devem chegar. Dá-me alento para as palavras que ficaram perdidas ao chegar até ti. Gostava de conversar contigo enquanto dava conta de um maço e de uns copos de vinho tinto, fico-me por um ou dois cigarros e resto da minha natural inconsciência, de forma escrita. Penso em ti ao final do dia sempre como uma incongruência de seres mais uma das coisas que deixei por fazer, castigo de seres mais uma coisa que quase fiz. Fazer-te é o verbo correcto quando sinto esta saudade, ridícula perante o facto de nunca ter vivido verdadeiramente na tua presença, correcta porque te imagino. As minhas palavras são simples de perceber, dão facilmente a entender que me sinto petrificada nas tuas respostas, muito mais na ausência delas. Por isso, não te falo. Não sei como encarar a clareza com atacas os meus desejos, tudo o que reprimo em mim como errado e para o qual tu tens sempre ou compreensão ou uma falta tão grande de sanidade como eu. Sempre fui sincera no meu egoísmo, egocentrismo, no sentido de me sentir especial e ainda assim tão normal no que toca ao teu nome. O teu nome que devia ter iniciado tantas cartas e que não o fez precisamente porque ainda me acho no direito de não ter a primeira palavra. É por medo, confesso. Com medo de me afogar, com medo de me prender mais uma vez na maneira como sabes cantar aos segredos da minha mente. Acho que me tornas mais louca, agindo como uma provocação ao que eu acho que não devo fazer. Desafias-me e é impressionante como apesar de não me fazer falta o jogo que me apresentas, eu deixo sempre desafiar-me. Talvez devesse ser grata por me fazeres sair de uns quantos princípios que eu sempre tive como correctos, e ainda que distante, sinto que acompanhas os meus passos quando tomo um primeiro ou quando corro o risco. Tens uma premeditação qualquer para aparecer, para existir, quando eu já quase te esqueci. Parece que adivinhas quando vou e vais-me sempre deixando ficar. Ou não. Não porque eu estou aqui e tu aí e não há contacto. Não somos humanos nem perto de pessoas quando nos escondemos um do outro. Quase que gostava de tudo em ti e só tenho pena que não queiras ser tudo o que podias ser, preso aos teus medos como eu aos meus. Eu também te escapo pelas mãos eu sei, mas sabes porque não foi mais e porque não foi melhor? Porque nunca tivemos a mesma morada, porque nunca quisemos os mesmos lugares, porque nunca quisemos as mesmas pessoas e por fim porque nem eu nem tu quisemos estar um com o outro. É complicado demais de tão simples que é, encontrei-te e desejei sempre encontrar alguém como tu, tive medo e por hoje e por amanhã cansei-me de te escrever para apagar, porque foste tu que nunca, em primeiro lugar, tiveste disponível para aceitar os erros com que escrevo. E eu culpo-te por isso, quero que saibas que te culpo por isso. Por isso não volto a gostar de ti, ficas aqui. Nas cartas e nas memórias que eu nunca tive contigo. Ah, isso e porque tu que me dás nojo.
Podia chamar-te ódio
Eu não sei porque te amo tanto. Dás-me a volta ao estômago como se amar-te me fosse proibido por cada célula do meu corpo, como se o sentimento que sinto por ti fosse uma doença que me corre no sangue e sempre sem cura. Nem sei porque te amo tanto porque tu nunca me mostraste amor, enquanto pregas o quanto gostas de mim aos outros mas em casa nunca soubeste louvar os meus beijos. Nem os meus feitos, que por muito que fossem pequenos, e não foram, eram todos para tu me veres com orgulho. Não sei de que me vale ser boa, má, simples ou complicada ao teu lado, tu nunca me vês. Quando te defendi com uma pequena mão enquanto o via com a camisa cheia de sangue pronto a matar-te, senti-me tão igualmente inocente e corajosa como agora enquanto me perguntas que mal me fizeste. Nenhum. Só não me ensinaste a estar viva. Não me ensinaste a ter que ouvir as tuas palavras que me reduziam e parar de te admirar. Tenho uma pedra no lugar do coração, sou dura e todos aqueles que me passarem na vida não me vão chegar porque tu nunca me ensinaste o que era amor. Porque tu nunca correspondeste. Sempre me disseste que eu era bonita mas nunca me disseste que eu era capaz, sempre me disseste para fazer as coisas mas nunca para o fazer por mim e é por isso que eu sempre fiz o que quis. Porque me lembro de cada tom com que me ofendeste e de cada dia que me fizeste sentir mal por ser como sou. Vivo um inferno contigo para te provar que está tudo errado. Que por muito que me pudesses dar agora, nada me tiraria esta vontade de fugir. Infelizmente tanto de ti como dos outros lembro-me de todos os pormenores e quando a hora chegar, porque ela vai chegar, eu vou falar. Tu destróis tudo o que há de bom em mim. Só sou má na tua presença, só cultivo ódio aos teus olhos, só tenho vontade de matar porque nem isso me ensinaste a condenar. Não consigo comer há dois dias e estou a matar-me aos poucos, deitada na cama a imaginar o que seria não estar aqui. Nunca ter nascido desse amor pelo demónio que tu tens. Reduzes toda a minha vontade de existir, estou doente e mais uma vez estou por tua causa. Agora que reparo todos os meus desgostos foram reservados para ti. Devo por isso deixar de te amar e talvez não consiga mas devo deixar de praticar este amor. Eu não escolhi estar aqui, por isso não me faças a vida negra. Não me tornes em mais uma vitima do teu coração que não foi amado, que viu a morte de perto, que perdoou a morte porque o amor é cego. Eu não quero ser como tu, deixa-me viver. Por favor, deixa-me ir embora. Por favor, eu gosto do tu fizeste comigo, daquilo em que tu me tornaste mas não me faças odiar-te agora que sempre aceitei amar-te. Deixa-me ir em paz. Não mates este amor também, porque apesar de não saber porque te amo tanto e de este amor me destruir, é o único que tenho e que sempre tive. Ensinaste-me a escolher o amor e estou cansada do nosso. Não há nada que nos torne piores do que aprender a sobreviver. Podia chamar-te ódio, mas escolho chamar-te de amor.
Witchcraft
Não sei se te limpe o sangue da cara, das mãos ou da alma. Tens a roupa encharcada e não sei se te ajude a escondê-la. Tenho provas que te incriminariam o resto da vida e hoje não sei se não as conto em anónimo. Não existe nem cura nem pena de morte para ti. És o pior animal que já conheci e não evito sentir uma compaixão pelo que fazes, mas não sei se é pena ou se acho que o teu charme está apenas em ti quando tens o cadastro prestes a ficar estragado, e sais sempre ileso. Eu só quero fugir e fico sempre à espera que queiras partir comigo. Enquanto enches a banheira, quem mergulha em dúvidas é a minha cabeça. E não sei se fique contigo ou não, escondido em segredo, à noite. Fumas um cigarro à janela do quarto, outro na varanda da sala, outro ao mesmo tempo que me vês perdida pela casa a arrumar a tua vida. Apetece-me ir ao terraço e gritar a besta que és, não aguento este peso de te guardar os corpos. Limpo-te as mãos primeiro para que me possas tocar sem eu me sentir ainda mais fora do bom senso, lavo-te a cara com o mesmo carinho que embrulho as tuas vitimas nos meus piores cobertores, e por fim, por mais que tente, só consigo tornar a tua alma mais suja, como um azulejo branco onde não tenho hipótese de vir a fazer um bom trabalho. É frustrante estar contigo e ver a merda que fazes, quando eu sou pior, neste caso melhor, que tu. Hoje estou cansada, além de frustrada, tiras-me do sério e atiro-te com a merda da tua toalha favorita à cara, estou farta de a lavar todos os dias na esperança que um dia as manchas que deixaste da tua primeira vez a matar saiam. Não tens classe nenhuma, já te disse não já? Estou cansada de olhar para a tua cara de falsa felicidade que nem uma semana dura até teres que matar outra vez. Estou cansada de olhar para as tuas mãos e sentir que existem átomos e nunca realmente me tocaste. Já não me fazes esquecer os paradigmas da vida, os mistérios de estar viva, pões-me ainda mais doente do que aquilo que eu estava quando te conheci. Estou revoltada com a tua aptidão para ver televisão, ler jornais, ficar aí satisfeito com o pouco que é poderes escapar sempre. Tento mostrar-te que há gente a matar melhor que tu e tu és só sempre a mesma merda que me traz raparigas fáceis para casa. Fico-me pelos bastidores do que és lá fora porque estou à espera de quem me faça sair de ti. Mas hoje cansei-me de esperar e tenho imensa pena que não possas ver isto. És uma espécie de imortal ao meu coração. Um tipo de falso vidente dos meus pensamentos. Tratas-me como a tua vítima que conseguiu fugir e nunca consegues matar, porque faço olhos castanhos, porque te sorrio doce, porque te ajudo sempre que posso. És na verdade tão simples de encantar por mim que me fazes acreditar que não tenho encantamento nenhum. Bate-me um vizinho à porta a queixar-se dos teus gritos, eu resolvo. Estou sempre sozinha, ninguém te conhece, ninguém sabe que moras pela calada nas paredes da minha casa. Talvez e afinal tenhamos os papéis invertidos porque hoje matei melhor que tu e tu terás que fugir. Liguei para te virem buscar, desculpa, pus o teu nome no meu crime, não sei se fiz bem porque se calhar e porque gosto de ti és sempre tu que me fazes falta, mas eu preciso de sair daqui e contigo a viver comigo, revolto-me demais e peco a menos. Vou recordar-te com a saudade de quem me ensinou a voar e tenho uma pena enorme que não possas vir comigo, porque já estou arrependida mas estou arrependida desde o dia em que te conheci, porque também, meu amor, eu não consigo viver contigo como nunca consegui viver comigo. Dar de caras com os teus segredos foi dar de caras com o que há de mais íntimo em mim.
O sujeito que eu escondi
O sujeito que escondi és tu. Depois de te matar no quarto, te embrulhar em lençóis e atirar-te pela janela do teu nono andar. Vou tratar-te por Guilherme porque se fosses um homem era esse nome que gostavas de ter e muitas vezes já o quiseste ser porque te incomoda a maneira como o mundo vê a mulher ou como a mulher se quer ver perante o mundo. És filho de dois loucos, um que não sabe amar porque não sente e outro que não ama porque o faz demais. Odeias vítimas por causa disso. Causa-te impressão as pessoas que choram sem amanhã, que caem sobre si mesmas, que se julgam em sofrimento, talvez porque tenhas uma certa inveja. Essa força que te deram, ou te ensinaram, é muito tua, como o último pilar de uma casa em ruínas. Estás intrinsecamente convencido de que não sentes dor mas estás muito enganado, eu provo-te. A morte não te faz vomitar e só sabes que amas alguém quando a consegues ver fora da tua vida, talvez fora do mundo. Porque não gostas de meios termos, não consegues imaginar ter alguém ao teu lado, achas que todos vão acabar por te magoar, quando na verdade és tu que não serias capaz de ser de alguém. Queres o que não tens e quando não tens gostavas de saber como era afinal ser de alguém. O amor é o teu maior sonho. Apaixonaste facilmente achando poder ver a verdade em tudo porque tudo a tem mas esqueceste dos pormenores humanos. Aliás, tu próprio te afastas de sentir, tu próprio não te queres encaixar na humanidade que és tu. No entanto, toda a gente vê uma certa malícia ou maldade em ti. És ambíguo, provocas desconforto nos outros, gostas do "contra" e do "anti" ditos em verdade porque a verdade é uma ofensa. Induzes os outros em erro, não te sabem amar como tu não te sabes também, porque às vezes mostras querer ficar mas na tua cabeça estás sempre a ir. Já ouviste tantas vezes que não és bonito e que não consegues. Ouves e acenas com a cabeça mas não é fácil ser a tal que te anula a cabeça e diz "escuta". Por isso nada te abala, és senhor de ti. Talvez se falasses mais, se abandonasses essa timidez inicial cada vez que conheces alguém que se transforma em sede de saber logo a seguir, se gostasses menos de ouvir, se fosses por uma vez aquele que só fala, talvez aí, pudesses perceber que à tua frente estão pessoas. Mas tu não gostas de pessoas e adoras Pessoa. Não sei de onde vem esta relação que tens com os duelos, com os dúbios, com o mistério. A vontade de permanecer faz-te tantas vezes ficar afastado de ti. Porque vais e vens, vais e vens, e voltas sempre a ser um solitário. Desconheço do que tens medo afinal, sendo que aposto que tens medo de ti. Do que poderias ser se fosses mais. Ou menos, porque estás perdido. E é por isso que eu tenho um pedido para te fazer. Escrevo-te uma carta porque sei que adoras ler mas não o tens feito muito, mas sendo um curioso como és, terás que ler isto. É um favor que te faço e gostava que aprendesses a aceitar favores. Não estás sozinho. Eu estou aqui. Não me fui embora, não deixei de ser artista, apenas tenho muitos quadros para pintar, não deixei de te escrever, apenas quis que esperasses por mim mais tempo. Sou vaidosa, gosto de ser cobiçada. Não estou perto, eu sei, mas estou a chegar. Talvez queiras acender um cigarro enquanto esperas que eu chegue, por isso te matei à partida. Faz-me impressão que queiras morrer devagar, enquanto te sufocam o ar, mas faço-te a surpresa às vezes. Esse coração já foi tão rebatido, agitado, atirado, pisado, tantas vezes que sempre irei admirar como ainda consegues desvalorizar o teu passado e seguir em frente. És tu mesmo um louco e hoje gostava de te pedir que o fosses sempre, que mantivesses essa loucura, quando te vês como orfão, te sentes sem terra, sem ideal politico, quando gostavas que o mundo voltasse à anarquia e és anárquico a sentir. Não deves nem temes, admiras sem fé os que te inspiram, que falam com paixão, quando amas os teus amigos como se fossem a tua fonte de vida e de conhecimento, quando adoras pessoas e viajas, quando detestas pessoas e te revoltas. Tu és admirável, no entanto tenho medo de ti. Matei-te porque tive medo que me matasses primeiro, que ficasses cego, demasiado embriagado ou num trance qualquer. Afastei-me porque não suportaria que te afastasses. És alegre quando estás a ir, a tua felicidade é olhar de longe e com carinho o que abandonaste, afinal aquilo que sabes sempre é que não estás satisfeito como tu querias. Poderias ser sempre mais e fazes tão pouco. Porque é que fumas? Não fumes. E as drogas? Sim, eu sei que as portas da mente não se acabam de abrir mas olha para ti. Os teus limites distorcidos por uma mente demasiado aberta, a tua crença na bondade e fé extraordinária de que o teu país, o teu mundo, tu mesmo, têm à espera um dia de glória. Mas as tuas glórias mudam porque sonhas para lá de ti. És muito os outros, mas arrogante. Simpático, mas observador. Correcto, mas agressivo. Dócil, mas com o coração partido. Pela sociedade que te apontou o dedo pela maneira estranha de vestir, notas ou falta de beleza. Eu sei que ainda não te achas bonito, que não acreditas quem alguém se pode apaixonar por ti, que já amaste e acreditaste tanto que era possível e nem reparaste como não foi realmente. E como amaste sem medida e te puseram regras. Como ouviste dizer como era não amar-te ou como era não gostar do que eras. Mas tu deixas de ser, deixas de ser quando te magoam e deixaste de ser tantas vezes que o teu coração desapareceu e é disso que agora estás à procura. Longe de mim, mas comigo a chegar. Morto por mim, mas com a vida que quiseste. Vai ficar tudo bem, escuta, tu consegues. Consegues fugir de mim mas vais escolher ficar, porque somos todos diferentes. Continua a gostar de música sem saber tocar, continua a ser louco por cinema, continua a adorar praias num dia de inverno, continua a adorar cafés de conversas vulgares e mocas de conversas fantásticas, continua a gostar do que tu gostas com vontade e verás que não vais gostar de parar de gostar. Tenho a convicção de que és convicto do que queres, do que não queres e do processo de descobrir tudo isso. És louco, como eu disse, mas a tua loucura é muito bonita. Gostas do jogo e dos jogadores, do mundo e dos que sabem vê-lo sem palas nos olhos. Tenho a certeza que tu estás correcto até tu mesmo te proves o contrário. Tens que aprender a ser tu, é isso que te quero pedir. Como te posso matar, se mudas a toda a hora? Estou a escrever que és e já não és. Como podes ser o sujeito que eu escondi? Ninguém se consegue esconder. Tudo tem uma razão e tudo está ligado por partículas de átomos e é tudo um caos. Como podes ser o sujeito que eu escondi? Porque percebeste isso e porque sou eu, que gostava de esconder um sujeito como tu.
Estupidez
Não sei quando é que percebo. Estou a cinco minutos de te apanhar e tu foges. Divides os pedaços de ti em partes mais ínfimas ainda, à espera que eu saiba decifrar o que tu és, mas eu nem sei o que sou. Encontro-me sempre nos outros mas quando converso contigo só fico com mais dúvidas de se isto que eu vivo é realmente uma vida. És tu que me mostras o lado negro da lua. É sobre ti que falo quando descrevo um lado lunar numa noite escura com as drogas de amor. As viagens todas e os comboios sem fim, os três e oito com que escrevo o teu nome e tu vês sempre as minhas costas, às vezes em curva, outras vezes só longe. Recordo uma noite em que me estou a rir, deitada desconfortavelmente na cama, tantas vezes a olhar para ti por entre palavras ao lado e discursos vulgares sobre a ordem do mundo, que me esqueço de ver o quanto consegues ser bonito por entre o bigode desalinhado e os olhos fugitivos. Não te acho piada, nunca achei verdadeiramente, gostava de ser sincera nesse aspecto, mas sabes fluir conversas que me tocam na vontade de falar e eu nunca desejo exprimir a minha alma. Talvez por teres percebido tão bem a deslocação do meu espírito, do corpo que abandono e das casas que não tenho, consegues falar para o meu lado obscuro em discurso directo. Não faria mal por ti e percebo-te minimamente, mas perfeitamente não consigo entender qual é este meu mal desresponsabilizador, esta doença reflectida em ti, esta vontade de ser todos os lados de mim publicamente. Não sei quando é que percebo que isto não me leva a lugar nenhum, a não ser escrever. E desabituei-me de viver no papel porque já não gosto do que é palpável. Estou a cinco minutos de te perder e tu vens. Afinal,"como é que podes gostar de um homem que não te fode?".
Coragem
Por um dia gostava de aterrar na tua terra. Superar as dificuldades da auto-estrada cheia de curvas perigosas. Saber o que é sentir as tuas palavras quando são as minhas que ouves, porque não as ouves há muito tempo. Não queria calçar os teus sapatos, só queria saber quanto tempo demoras a calçar-te de manhã. Se tens preguiça de sair de casa ou se apenas não sabes escolher que cor usar num dia nublado. Não escolhi um dia de sol porque acho que os teus dias são mais bonitos quando estás perdido. Às vezes, gostava de colocar um cartão ao alto, escrito com uma frase bonita qualquer que me levasse directamente ao teu destino. Se tivesses o teu destino como teu. Mas não passo perto da tua terra nas minhas viagens, não sei se tenho medo de não querer voltar ou se apenas tenho a mesma preguiça matinal. O nosso amanhecer acontece da mesma forma e nunca te visitei porque temo que nada seria diferente do que já foi. Não gosto de tocar no passado, as pessoas partem e perdem expressão. Mas gosto de falar dele e hoje apetecia-me falar com ele. Gostava de sentir as paisagens como sentes, velhas, e dar-te a minha esperança, nova. Mesmo que de passagem gostava mesmo de estar na tua terra. O espaço, o tempo, as horas dos pés em contacto com o chão de sempre, mas ando sempre, também, com a cabeça no ar. Como um produto da minha imaginação, és mais um habitante de um universo paralelo que me bateu à porta perdido na quarta dimensão de te sentir. Se eu me encontrasse na maneira simples de nunca ficar muito tempo num lugar, se eu deixasse de ter responsabilidade de estar, se eu fosse, talvez te batesse eu mesma à porta. Não sei se pedia desculpa pelas palavras sem sentido porque nenhuma que eu diga tem realmente uma verdade, mas ouvia-te. Podias contar-me as histórias que quisesses, eu também sou boa a fazê-lo. Por um dia gostava que esta fosse a minha história, sem precisar de ser escrita porque a vivi. A primeira vez que vives selvagem reparas que há muitas terras onde devias ter ficado por mais tempo, mas quem tem liberdade de pensamento foge a toda a hora. E eu ainda não me cansei de andar, simplesmente andar.
Não estás?
Às vezes assombras-me. Como uma rapariga vestida de tons pastel, a dançar pela casa, de cabelo cheio de cores e mal cortado porque insiste que sabe usar uma tesoura. Nem um papel sabes cortar direito. Fumas como quem se mata conscientemente e com vontade. Com constantes dúvidas sobre a identidade de si própria, como se fosses separada do teu próprio corpo. Ficas na cama e metes a mão no teu pescoço e ameaças parar de respirar. Às vezes apetece-me matar-te. Porque acendes os teus cigarros com fósforos seguidos um do outro? Acho que queres pegar fogo a esta casa. Talvez queiras mesmo. A loucura das tuas peças e representações aponta isso. Vais vagueando pela casa, pelo meu tecto branco, pelos meus lençóis amarrotados, pela sujidade das minhas carpetes, pelo sol da janela da minha sala, pelo verde da minha vista. Estás aqui mas aposto que estás longe. Não me deixas beijar-te porque achas que o toque perde sentido ao tocar. Às vezes enlouqueces-me. Vais mudando a disposição da casa à medida que tenho uma imagem mais clara de ti. Ouves músicas sem sentido enquanto o fazes e simultaneamente a um pensamento de mim. Desejavas que tivesse mais longe ainda, eu sei, mas eu ando sempre ao teu lado. Às vezes, ainda assim, tenho saudades tuas. Apetece-me escrever-te, mas sei que estás mais feliz assim. Fora do que ainda vais ser.
Muito, particularmente
Varrer a memória é bem fácil, quando não encontras perdão para nada. A clareza das minhas palavras vai simplesmente como a sinceridade que me rodeia. Ataques de pânico num canto longe e tirando isso, quero que tudo se foda. Tenho o diabo no corpo porque o chamei, não porque alguém me ensinou. Ninguém me ensina merda nenhuma. Chamadas de consolo num canto perto e tirando isso, outra vez, quero que todos desapareçam. Não tenho coração para partir. Não tenho dor para sentir. E estou a mentir-te, eu sei, eu sei. Perdoa-me que é para teu bem. Tu não sabes onde eu me meti, o que eu fiz de mim, não sabes ver no escuro. Fodidos da cabeça, como eu nunca vi e já vi tantos e nenhum como nós. Tirei o plural ao mesmo e o mesmo a isto. Era bem capaz de te matar. Olho-me ao espelho e repito fracturas de ti, estás longe de ser o diabo. Já podes chorar, o inferno não tem lugar para ti. Não há casa que te tenha, lugar que te sustente, alma que te retenha. Joga à sorte, um dia vais lá chegar, não é isso que te interessa. Este mundo nunca viveu em ti e vais sempre viver no canto mais longe e no canto mais perto que este tiver. Tu queres. Espera. Tu não queres. Esperar. Eu só quero que morras daquela morte que se tem a pagar, sem eu ter que gastar nada. No fundo, só se te fosses realmente foder é que eu ficava mais aliviada. Peço desculpa por viver a dor dos outros, nunca confessei que às vezes me dá para rir, mas agora ficas a saber. Nada me poderá vir a prender. Afinal é cada vez mais complicado.
Quase quatro
Há um esgotamento na minha vida. Faltam-me palavras, actos, tudo o que demais demonstre movimento. Há uma vontade de estar morta. Seria tão mais fácil. Eu continuo sem saber onde foi que me perdi. Há tanto tempo que não me dedico a nada ou a alguém que acho que perdi a capacidade de amar, se é que alguma vez a tive. Estou sozinha e gozo da minha solidão com uma vontade extraordinária. Eu não quero nada que esteja aqui, só que eu não quero perder o pouco que tenho. Tenho uma disposição momentânea para fazer algo e logo me passa. Tento aproveitar cada segundo de cada pessoa como se me fossem escapar pelos dedos e agora que realmente posso contar por estes aqueles que me fazem ficar, só tenho vontade de ir. Não me sinto bem em porra de lugar nenhum. Nem na minha casa, na minha cidade, em todos os locais onde podia estar agora realmente, sem sonhos ou aventuras, eu não quero estar. Não estou pronta para sair daqui no entanto nada me faria mais feliz. Já tentei recuperar o que perdi, construir tudo, fazer filmes, livros, histórias intermináveis disto e não consigo. Tudo me foge neste sítio e eu só sei fugir daqui. Sinto-me profundamente no caminho certo e tão perdida. Tão encontrada em conhecer-me e tão desencontrada no tempo. Dizem que a loucura pode ser só a vontade de nunca crescer e não me apetece realmente que o tempo passe. Eu não sei do que gosto, só sei que é fácil eu gostar do que eu quiser. Nada do que sinto é natural, mas a escolha não é minha. Se a escolha fosse minha, eu saberia o que fazer. Junto um mais um e estou apaixonada. Quantas vezes já não estive e quantas dessas vezes concluí que sou incapaz de levar seja o que for comigo a não ser um arrependimento sem medida por ter começado seja o que for à partida. Estou tão farta de sonhar, tão cansada de pensar, tão esgotada de estar acordada. Tenho pesadelos constantes dos males que me restam na memória. Quando foi que eu me tornei na personificação do mal, é outra coisa que eu não sei. Não tenho limites e tudo entra em velocidade de queda quando se trata dos outros. É sempre uma constante extravagância, uma determinada euforia que me chama e me assusta. Talvez esteja mal rodeada e talvez tenha esta disposição natural para me castrar de capacidades ou talvez eu não queira só fazer tudo correcto, e muito provavelmente é esta minha tendência natural para o caos e para a desordem que me leva a fazer o que eu quero. Vivo num profundo engano quando me considero estável, a minha inteligência mata-me sempre a alegria, tenho um nojo tão entranhado pelos meus pensamentos, tanto que penso momentaneamente enquanto falo. Se me perguntarem, duas vezes, eu não sei, mas sou tão boa a construir frases que não interessa o conteúdo do que digo. Nunca interessou. Interessa a transformação provocada nos outros e interessa que eu não perca a fé de que mais dia menos dia algo me aconteça, alguém me alcance e eu aprenda a sentir e a viver. Precisava de aprender algumas coisas sobre vergonha, sobre sinceridade, sobre falar para os outros o que realmente sou, precisava de sair deste lugar cheio de máscaras. Mas não consigo. Há um alheamento dos outros que me traz paz e uma paz que se perde por perder os outros. Uma paixão por todos e por um em particular que me rouba a alegria e me traz revolução, porque no fim estar apaixonado é só a omnipresença do pensamento que me distrai de mim mesma. E quantas revoluções se passam afinal? Sinto-me estupidamente e maravilhosamente sozinha. Felizmente comigo, infelizmente a sós. Totalmente fora do que sou, totalmente consciente da minha natureza. Mas não seria possível falar desta, correndo o risco de ficar sem marionetas, sem dados, sem coisas que me adormeçam os sentidos. Este meu problema em estar viva será constante, sinto-me desde cedo perdida nas três dimensões que por enquanto são possíveis de realizar. Ou eu nunca deixei de ser criança e nunca perdi a birra perante a vida, ou sempre percebi os adultos e já não tem piada nenhuma andar aqui a saber. Procurei sempre a resistência do que me rodeia ao tempo enquanto me permitia a sair dos locais, enquanto provocasse saudade e memória, desgosto e raiva, estaria bem. Agora que percebi que o vazio, impossível de quantificar, é a maior eternidade de todas, sinto-me a acabar. Quero, antes de tudo isto, estar viva, porque é tudo uma apatia. Uma paixão desmedida sem medida para ter.
Repete por favor
Isto de querer perceber é uma morte antecipada das coisas. Ninguém percebe nada. Tudo é um constante mistério para a percepção vazia de significados diária. No fundo toda a gente percebe tudo e como se no fundo alguns desses quisessem estar, há quem procure as profundezas das coisas. Se calhar somos corajosos e andamos a querer cumprir à risca o conceito de "atirar de cabeça" quando às tantas somos todos uma merda que ficamos a meio do caminho. No meio de perceber as coisas percebes tudo menos aquilo que andavas à procura, e, não te assustes, acabas sempre por saber mais de ti do que esperavas. Mas eu escrevo o teu nome nas minhas costas, enquanto passo
a mão na pele seca e desnutrida do meu peito. Numa cama sem lembranças, eu lembro o vazio de te ter na minha vida. A falta de presença e como se eu já soubesse tudo, tudo é esperado e previsível. Não sei o que é isto. Das raras vezes em que entendi sem querer entender, perdi-me. Do propósito das particularidades, do objectivo das minhas intenções. Gostava de estar perdida de amores por alguma coisa que eu não conhecesse, a estupidez disto é esta. Não quero nada fora de mim, tudo me morre à partida. A segurança é uma sensação feia e as casas são o pior lugar do mundo para se estar. Batalhas em causas perdidas. Mas onde e como é que me tornei humana o suficiente para me apaixonar por ti e por estas adversidades ao meu ego, é que eu não percebo. Não estou pronta e nunca vou estar, para me entender. Consequentemente, eu posso até querer decifrar o próximo mundo que me aparecer a frente, nada me sobrará para resumir porque percebo de olhos fechados, virada tão para dentro, proibindo-me de sair da casa que são os meus medos. Faço perguntas como quem prepara armas. O fascínio no desconhecido é fácil e egocêntrico porque te deixa imaginar as coisas como queres, eu não gosto de facilidade. Há uma tendência para criar tempestades para mim mesma e não gosto de tanta coisa só porque não gosto. E no meio dessa falta de razão eu fui gostar da única coisa que eu nunca gostei. Escrevo o meu nome em toda a parte. É provável que não tenha escolhido isto, não queira perceber nada ou perceber menos, só porque não gosto de ti como às vezes não gosto dessas coisas todas. Percebo tudo, não aprendo nada. Sei lá quando te devo acabar. Não te ouvi muito bem e tu não disseste nada. Naturalmente.
a mão na pele seca e desnutrida do meu peito. Numa cama sem lembranças, eu lembro o vazio de te ter na minha vida. A falta de presença e como se eu já soubesse tudo, tudo é esperado e previsível. Não sei o que é isto. Das raras vezes em que entendi sem querer entender, perdi-me. Do propósito das particularidades, do objectivo das minhas intenções. Gostava de estar perdida de amores por alguma coisa que eu não conhecesse, a estupidez disto é esta. Não quero nada fora de mim, tudo me morre à partida. A segurança é uma sensação feia e as casas são o pior lugar do mundo para se estar. Batalhas em causas perdidas. Mas onde e como é que me tornei humana o suficiente para me apaixonar por ti e por estas adversidades ao meu ego, é que eu não percebo. Não estou pronta e nunca vou estar, para me entender. Consequentemente, eu posso até querer decifrar o próximo mundo que me aparecer a frente, nada me sobrará para resumir porque percebo de olhos fechados, virada tão para dentro, proibindo-me de sair da casa que são os meus medos. Faço perguntas como quem prepara armas. O fascínio no desconhecido é fácil e egocêntrico porque te deixa imaginar as coisas como queres, eu não gosto de facilidade. Há uma tendência para criar tempestades para mim mesma e não gosto de tanta coisa só porque não gosto. E no meio dessa falta de razão eu fui gostar da única coisa que eu nunca gostei. Escrevo o meu nome em toda a parte. É provável que não tenha escolhido isto, não queira perceber nada ou perceber menos, só porque não gosto de ti como às vezes não gosto dessas coisas todas. Percebo tudo, não aprendo nada. Sei lá quando te devo acabar. Não te ouvi muito bem e tu não disseste nada. Naturalmente. Todos os meses
Hoje são sete anos. Lá fora é 1 de Maio como sempre. Há manifestações, há revolta acumulada, há falsa democracia. Para mim, há isso tudo e tudo ainda mais dentro de mim. São sete anos e há sete anos eu abri portas para mim mesma que disse que não ia abrir. Hoje eu faço o mesmo. Não sei descrever a sensação de fazer isto sozinha, talvez como sempre fiz, mas com a perfeita consciência da minha perda. Da tua perda. Da perda de mim mesma. Quando te conheci neste dia, pela primeira vez, senti-me mais ou menos em casa. Eu sei que te dizia com a certeza completa que eras um lar, mas não podes ser quando hoje eu sinto-me sem lugar. Tenho inúmeras revoltas, o mundo à minha volta não condiz com o que tenho de sensível. Não tenho acerto nas palavras - estou a escrever mal estas linhas todas - e não tenho atitude certa com o mundo. Não te sei dizer se há equilíbrio entre mim e o que há lá fora. Alimenta-me a falta de pessoas. E tu és a pessoa que sempre me fará mais falta. A tua inércia que me provocou tantos estragos, tem calma que agora me fazia bem. És a única para lá de mim e do que nasceu comigo, que eu amei. No verdadeiro sentido do amor mesmo quando eu te deixei ir. A tua dor em mim não passou e não te tenho há tanto tempo que já nem me lembro da tua voz. Mas o tom moreno e o teu calor de verão infinito faz-me tanta falta na pele que não conheço este corpo. Não me conheço e se te encontrasse agora talvez ainda me soubesses relembrar do que eu sou, do que eu sei que sou e não consigo ser. Tenho bloqueios na mente mas sei que me fazias melhor, talvez não eu, mas melhor e hoje não sei se estou no meu pior ou a perceber o mundo. Perdi o bem quando te perdi a ti e sou muito provavelmente o cliché de ter perdido a única coisa que me fez sair de mim. Não me fazes falta e ninguém faz hoje e se calhar é isso que me está a falhar. É nisso que estou a falhar. Mas tanto fugi que tanto quis. Tanto cheguei que consegui ir tão longe. Hoje estou longe de ti e de todos, como se tivesses levado um pedaço de cada pessoa que eu conheço e como se tivesses em todos eles. Mas tu és o que eu fiz de ti e se calhar, fui eu tirei um bocado a todos enquanto me tornei demasiado nos outros. Somos como os outros, como toda a gente, eu também, mas não há ninguém, tanto como tu, que eu queira agora para me dizer que posso voltar atrás no tempo, mesmo sabendo que não há volta a dar. Ias me dizer o que eu já sei, mas este dia é teu. São todos. Tu que és eu, sempre. Já sei tudo e, muito sinceramente, não quero saber nada. Nem nada de mim. Hoje a falsidade é só minha e guardo-a para uns dias. Sou como toda a gente, eu.
Liberta-te
Aos que não sabem nada e aos que acreditam em tudo. Aos que vivem na violência da ignorância e aos que se perdem fora de si mesmos. Nada se alimenta inteiramente do bem, nada sobrevive às custas do mal. A inocência tem quase idade marcada, para lá disso, quando queremos mais do que já temos, quando temos sonhos, quando fazemos esforços, para lá de nós mesmos, tudo implica contra-ordenações. Tudo se escreve por linhas tortas. As questões do correcto ainda se colocam, mas as questões da liberdade ainda terminam no próximo. Ainda não achamos que vivemos sozinhos, mas sabemos que ainda não controlamos o tempo. Quanto da inocência nos restar, será esperança. Nunca por um momento tenhas a convicção de que alguém te quer bem, só as mães são nossas mães. Mas nunca penses que todo o mundo te quer mal, não és importante. Não somos importantes. Somos um bocado daqueles que trazemos connosco e no entanto ninguém é capaz de se responsabilizar pelos teus erros. Eu sei. Tu és tu, na mais ínfima possibilidade de não seres tu, nunca o deixarás de ser. Quando julgado, quando te for apontado o dedo, saberás explicar as tuas razões. Quando fizeres asneiras, não precisas de ficar no choro. Se eras a criança que gritava, se eras a criança fora da idade, se eras a criança para lá da infância, não precisas de chorar. Se eras a criança que desconstruiu tudo o que lhe deram, parte agora. Mas se quiseres chorar, chora por nos terem ensinado que podíamos estragar tudo na possibilidade de nos ser dado de novo o que achávamos que queríamos, é um problema da nossa geração. Mas nunca te descartes. Nunca te metas um rótulo de bondade e nunca igualmente te aches a pior pessoa do mundo. A revolução ainda está nas cabeças. A necessidade de mudança ainda está em cada um. Não se pode proclamar liberdade a par das nossas acções diárias, podemos perceber que somos uma contradição. No entanto, "também somos aquilo que os outros nos autorizam", por isso hoje não fiques a achar que a tua liberdade acaba onde começa a dos outros, como sempre te disseram. Hoje e daqui em diante a tua liberdade tem que ser a do outro. Se fores capaz, não queiras saber tudo, acredita que não há nada para lá de nós. (Porque me deram a liberdade de escrever).
Não te sei gritar
Eu encosto a cabeça no meu sufoco, na cabeceira da minha cama, e sinto as lágrimas no meu pescoço, que me incomodam, que me prendem a pele e deixo-as estar. Todos os esforços que faço são nulos, nada haverá que me possa prender. Esta falsa cumplicidade, esta hipócrita confiança nos outros. Não sei de onde vem esta dor, que dura sempre, não me consigo abstrair do eco, sinto tudo como se fosse roubar de mim mesma. E nada me atravessa. Estou a ficar doida com esta minha sensibilidade. Expulso a dor e não quero sentir porque não sei sentir pouco quando não sinto nada. Não sou, nunca fui, nunca serei, feliz aqui. Tenho anos presos de não pertencer a este lugar e todas as pessoas que passaram por mim fizeram-no por fazer. Eu quero parar. Quero saber como é quando alguém se sente em casa mas duvido que tenha uma. Porque é que as pessoas ficam umas com as outras? Porque é que as pessoas têm outras pessoas? Onde é que isso é amor? Onde é que amor pode transformar-se em palavras, quando as palavras só servem para magoar? Tenho uma inércia que me pesa o corpo tão grande que se tornou na força gravitacional dos meus sonhos. O que entendo por universo estendeu-se tanto que sonho com a lua e nos meus sonhos a dormir tenho pesadelos sempre a fugir de alguém que eu nem sei quem é. Alguma ideia quer que eu fique aqui e eu não fico. Fico rebelde perante o meu espelho. A minha dor é sozinha e não posso contar a ninguém que sei sentir, porque ninguém sabe o que é sentir nada e sentir tudo. Ninguém sabe como é querer ser e não querer parecer. E eu dava as minhas vontades por poder contar isto a alguém que me percebesse. A felicidade e os desgostos são tão fáceis para os outros que choram e se manifestam em público, cheios de gritos, dores e tristezas. Para mim, que nunca expresso a expressão de querer fraquejar torna-se tudo uma asfixia. Onde é que deixo a força, os desejos, o querer saber? Onde é que paro? Quero ser como vocês todos e no entanto não vos quero para nada porque nada do que me dão, me serve. Sinto falta do inebriante sentido de limbo. Da revolta das coisas por fazer. Os meus conflitos são velhos e tomam a cada dia um sentido novo. Sinto-me sem travão, pronta a arruinar tudo, pronta a mandar tudo e todos embora, como se o meu processo de despedida tivesse agora começado. E não há ninguém que me pare. Não quero ouvir ninguém, ninguém me é sincero o suficiente. Estou para lá do egoísmo, do egocentrismo. Já nada me toca, já não me incomoda o que faço aos outros. A minha dor na falta de dor, voltou. E a única que não tem regresso sou eu porque não existe passado, nunca existiu. E tudo o que demais existe sou eu, a minha genialidade, e esta vontade de sair daqui. Preciso de parar. Preciso que me parem. Mas como sempre, não. Não vai deixar de ser assim.
Ultrapassa-me
"E depois existem pessoas como tu em que uma pessoa se perde por tempo indefinido. Presa numa contemplação de algo superior."
Não. Eu desisto. Daquilo que eu considero transcendente. Daquilo que me afecta a alma. Não tenho uma. Porque me secou aquilo que me ultrapassa. Estes actos de transpor qualquer coisa não são meus. Estes desafios não são o meu jogo. O meu jogo nem pertence aqui. Não vou ficar porque aquilo que eu quero é pertencer. Não vou ter porque aquilo que eu quero não te pertence. Queria voltar atrás e não há voltas no mundo a não ser todas as que podemos dar. Eu não desisto. De ter uma alma. De um dia amar algo ou alguém. Mas não aqui, não agora. Não posso. Nem há maus caminhos ou destinos errados, é só que eu tenho medo. Dos gestos desmedidos. De te dizer o que já toda a gente te disse. De te mostrar o que não tem alguma coisa para ver. Não vejo nada. Nada. Só me vejo a mim. Entendes porque não tenho necessariamente algo que me possui. Algo que eu possua. Mas nem necessariamente nem para lá do que é palpável, não há nada que ultrapasse isto. Isto que não é isto. Isto que sou eu. Vejo-te pelo espelho. E não. Não vou ficar. Considero-me totalmente descrente de tudo e coloco-me de maneira aleatória na vida dos outros. Se fui ficando com alguém e se alguém ainda me tem na sua vida foi um golpe de sorte. "Sorte". Mas agora que ninguém sabe nada, agora que os meus segredos não são partilhados, neste momento em que ninguém me conhece, eu posso ir. E não tenho lugar para ir ou para ficar. Imagino-me em campo de guerra aberto e todos morrem à minha volta. Eu não fico de pé nem fujo. Eu não enfrento nem me derroto. Nem me mato nem deixo que me firam. Corro e fujo porque não quero morrer. Não posso ficar. Não há medo maior do que este. Não vou ficar. Há quem te possa contemplar por mim, dar-te batalhas melhores, eu sou só eu e eu não estou nem quero estar aqui. Não posso gostar. Tão simples e tão complicado como isso.
Não. Eu desisto. Daquilo que eu considero transcendente. Daquilo que me afecta a alma. Não tenho uma. Porque me secou aquilo que me ultrapassa. Estes actos de transpor qualquer coisa não são meus. Estes desafios não são o meu jogo. O meu jogo nem pertence aqui. Não vou ficar porque aquilo que eu quero é pertencer. Não vou ter porque aquilo que eu quero não te pertence. Queria voltar atrás e não há voltas no mundo a não ser todas as que podemos dar. Eu não desisto. De ter uma alma. De um dia amar algo ou alguém. Mas não aqui, não agora. Não posso. Nem há maus caminhos ou destinos errados, é só que eu tenho medo. Dos gestos desmedidos. De te dizer o que já toda a gente te disse. De te mostrar o que não tem alguma coisa para ver. Não vejo nada. Nada. Só me vejo a mim. Entendes porque não tenho necessariamente algo que me possui. Algo que eu possua. Mas nem necessariamente nem para lá do que é palpável, não há nada que ultrapasse isto. Isto que não é isto. Isto que sou eu. Vejo-te pelo espelho. E não. Não vou ficar. Considero-me totalmente descrente de tudo e coloco-me de maneira aleatória na vida dos outros. Se fui ficando com alguém e se alguém ainda me tem na sua vida foi um golpe de sorte. "Sorte". Mas agora que ninguém sabe nada, agora que os meus segredos não são partilhados, neste momento em que ninguém me conhece, eu posso ir. E não tenho lugar para ir ou para ficar. Imagino-me em campo de guerra aberto e todos morrem à minha volta. Eu não fico de pé nem fujo. Eu não enfrento nem me derroto. Nem me mato nem deixo que me firam. Corro e fujo porque não quero morrer. Não posso ficar. Não há medo maior do que este. Não vou ficar. Há quem te possa contemplar por mim, dar-te batalhas melhores, eu sou só eu e eu não estou nem quero estar aqui. Não posso gostar. Tão simples e tão complicado como isso.
Improvavelmente
A natureza das pessoas é curiosa. O homem que mais souber não ser ele mesmo será aquele mais humano. Ser pessoa passa por não nos recusarmos à naturalidade de querer assumir papéis. Estou perdida, não sei qual é o meu. Será sentir, o que sinto perante um papel? É por isso que não crio laços. Tudo o que sinto é fingido e estou cansada de não ser o nada daqueles que não fingem e por isso nada são. Não quero ser merda nenhuma. Revolta-me a existência do homem, das pessoas, tantas, que se perdem em sentir tudo desmesuradamente. Dou liberdade e abro aspas para mim. Sentir não me pertencer e sei que todas as coisas que não me pertencem residem em dor. Se nada queres, nada podes ter. Se tudo tens, há espaço para seres. Não sei o que quero. Na verdade, nunca soube. Agora que sei, já nada sei. A fonte está nas histórias. Fecho aspas. É o que tu, talvez todos, precisem. O papel é uma necessidade e somos todos humanos. Resumindo isto a nada.
Sem nada
Há no facto das coisas serem visíveis tanta invisibilidade. Imaginando o diafragma das coisas, quantos segredos cabem nas pessoas. Se todas as coisas dependem de uma ou outra perspectiva, poderá nunca haver verdade. Ou serão muitas? Não sei em que ponto é que deixas de acreditar em ti e não sei em que linha passas a acreditar nos outros com uma fé absurda. Quando o equilíbrio passa pela perda de graça, pela conformação, não sei também em que ponto a tua verdade alinha na de outra pessoa. Somos todos um bocado mentirosos ou verdadeiros demais, e vendemos o nosso ponto de vista. Os nossos pormenores são tão mais elaborados quanto maior for a vontade. Sempre achei que a vontade fazia as melhores pessoas, piores certamente à vista dos outros, e preciso de ter um tremendo cuidado quando vejo pessoas de vontade desmedida, a loucura
sempre me apaixonou demais. Ou então a medida em todas as partes que o mundo pode ter. Se algum dia eu olhasse para alguém e me visse a mim, eu ficaria. É delicioso perceberes os mundos que não são os teus e gostares das mais particulares pessoas, mas se eu gostasse de alguém que visse o mundo nas singularidades todas que eu vejo, eu poderia ficar. Só que eu não quero ficar. Imagina que sempre que pegas na tua caneca favorita para tomar o pequeno-almoço, nunca sabes o material de que é feita e quando dás um beijo à tua mãe de boa viagem, sabe-te sempre como se fosses embora, sem regresso. Pensa que os lençóis sujos não te incomodam, o teu sono sabe-te sempre a refugio, e quando acordas não te importas das horas porque achas que estás cheio de tempo para viver. E se agora o tempo não te chegar? E se a tua cama e as tuas canecas já não forem tuas e a tua mãe olha para ti como se fosses tanto dela que vês dor sempre que ela te olha? E se as coisas não são tuas e se o tempo não te chega e se não queres ter mãe? E se só queres algo novo? E se não queres nada? Há tanta coisa invisível. Imagina as pessoas como se elas tivessem fora do teu alcance, noutra sintonia. Imagina um mundo paralelo e em quantos mundos paralelos querias estar sozinho? Em quantos mundos não tens mundo e quantos mundos cabem em ti? Sabes que aquilo que guardamos não é visível aos outros e quando tentamos mostrar alguma coisa todos os dados subentendidos aparecem, não sabes? Os meus meios que não mostro cruzam nas alternativas de verdade de toda a gente e as minhas invisibilidades tornam-se cada vez mais maiores. Não sei como é que os outros podem aceitar que eu goste de ver o que não existe ou que perceba que existe mais do que aquilo que se mostra. A minha sensibilidade crua, a minha análise exagerada, a minha falta de compaixão na falta de realidade dos outros interfere na minha falta de sentir. Eu gostava de ver e sentir. Em simultâneo, e não dissecar comportamentos, nem sentidos, nem razões, só porque sei que não existem razões singulares mas não consigo não me contradizer. Não sei vários pontos e não sei em que ponto é que eu comecei a ver bem demais, porque é quando começas a ver as coisas, a perceber as pessoas, a tornar visível o mundo que tu queres, que corres o risco de te tornar invisível e eu não sei se quero perceber ou ser percebida. Se houverem mil verdades, eu não sinto encaixar-me em nenhuma. E é isso que me incomoda, está tudo a tornar-se visível demais para mim. Já nada nem ninguém me apaixona. Ou tudo, não sei. E não me chega. Chega-te?
sempre me apaixonou demais. Ou então a medida em todas as partes que o mundo pode ter. Se algum dia eu olhasse para alguém e me visse a mim, eu ficaria. É delicioso perceberes os mundos que não são os teus e gostares das mais particulares pessoas, mas se eu gostasse de alguém que visse o mundo nas singularidades todas que eu vejo, eu poderia ficar. Só que eu não quero ficar. Imagina que sempre que pegas na tua caneca favorita para tomar o pequeno-almoço, nunca sabes o material de que é feita e quando dás um beijo à tua mãe de boa viagem, sabe-te sempre como se fosses embora, sem regresso. Pensa que os lençóis sujos não te incomodam, o teu sono sabe-te sempre a refugio, e quando acordas não te importas das horas porque achas que estás cheio de tempo para viver. E se agora o tempo não te chegar? E se a tua cama e as tuas canecas já não forem tuas e a tua mãe olha para ti como se fosses tanto dela que vês dor sempre que ela te olha? E se as coisas não são tuas e se o tempo não te chega e se não queres ter mãe? E se só queres algo novo? E se não queres nada? Há tanta coisa invisível. Imagina as pessoas como se elas tivessem fora do teu alcance, noutra sintonia. Imagina um mundo paralelo e em quantos mundos paralelos querias estar sozinho? Em quantos mundos não tens mundo e quantos mundos cabem em ti? Sabes que aquilo que guardamos não é visível aos outros e quando tentamos mostrar alguma coisa todos os dados subentendidos aparecem, não sabes? Os meus meios que não mostro cruzam nas alternativas de verdade de toda a gente e as minhas invisibilidades tornam-se cada vez mais maiores. Não sei como é que os outros podem aceitar que eu goste de ver o que não existe ou que perceba que existe mais do que aquilo que se mostra. A minha sensibilidade crua, a minha análise exagerada, a minha falta de compaixão na falta de realidade dos outros interfere na minha falta de sentir. Eu gostava de ver e sentir. Em simultâneo, e não dissecar comportamentos, nem sentidos, nem razões, só porque sei que não existem razões singulares mas não consigo não me contradizer. Não sei vários pontos e não sei em que ponto é que eu comecei a ver bem demais, porque é quando começas a ver as coisas, a perceber as pessoas, a tornar visível o mundo que tu queres, que corres o risco de te tornar invisível e eu não sei se quero perceber ou ser percebida. Se houverem mil verdades, eu não sinto encaixar-me em nenhuma. E é isso que me incomoda, está tudo a tornar-se visível demais para mim. Já nada nem ninguém me apaixona. Ou tudo, não sei. E não me chega. Chega-te?"Já nasceste cansada"
Não tenho diário possível para a minha relação com os outros. Não tenho papel que me chegue para dissertar acerca do poder dos outros em mim. A minha independência é uma máscara tão grande que às tantas até me ofende que os outros vejam alguma força em mim. Eu sempre tive este propósito muito vulgar de querer mudar a vida dos outros. Gosto de ouvir e embora as minhas criticas pareçam vazias, são cheias de detalhes que não me cabem nos olhos. São cheias de pormenores que observei e me saem pela boca à velocidade suficiente para me esquecer que nem todos estão dispostos a ouvir. Os outros esquecem-se dos outros. E no entanto nem sei se os outros se esqueceram foi deles mesmos. Eu sofro deste mal de achar que não sou ninguém senão um bocadinho de todos e do mundo inteiro. Conferem-me tantos dados só meus, dão-me adjectivos à personalidade como se eu fosse muito eu. Dão-me factos de uma vida difícil e metem-me no papel de vilã porque tenho razões de sobra para julgar a vida e eu, eu muito simplesmente, acho que não tenho nada. Eu nunca senti dor nos problemas da vida e simultaneamente nunca esqueci nada do que me aconteceu. Estou sempre a esperar a onda que virará a minha vida do avesso e tenho medo de me perder no mar calmo que não leva a lado nenhum. O meu coração não é conciso a sentir e a minha mente é mais próxima de uma tempestade. Porque eu choro pelo sofrimento dos outros, eu questiono-me como é que os outros aguentam, eu apodero-me do vício que os outros têm, sorrio do gosto dos outros e a minha felicidade não depende de mim, mas perco-me em mim e tomo-me de certa em tudo, quero saber tudo e tomo tudo como meu. Eu não sofro porque relativizo a dor e acabo por me magoar quando a dor chega na televisão, na música, no cinema. É estranho escrever alto como é que alguém está assim sozinho. Como eu acho que estou perdida em mim. Como eu quero sair daqui. Eu não tenho lugar, eu não gosto de cidades, eu não gosto de sítios onde possa ficar muito tempo, eu não tenho uma boa relação com o tempo. O tempo leva as pessoas e quando não leva, eu vou à procura de horas no relógio que saibam melhor. Eu amo pessoas. Eu queria conhecer toda a gente no mundo, porque se eu pudesse tocar todos, ninguém me tocaria. Eu não amo ninguém. Toda a gente me encanta e toda a gente me apaixona quando falam com paixão. As pessoas cheias de loucura, cheias de sede, cheias de tudo na cabeça, apaixonam-me, e é difícil quando só gostas de loucos porque não encontras remédios, só encontras perguntas. Eu perco-me na normalidade, na falta de excitação, na falta de gosto de ver excitação nas coisas simples. Eu perco-me nos dias iguais, nas velhas amizades, nos grandes gestos, nas histórias tão boas de contar. Canso-me. E eu estou muito cansada. Há muitos dias que estou. Eu preciso muito proximamente de ficar sozinha no mundo, porque se eu sou os outros, talvez se eu não for ninguém, possa finalmente ser eu. Outra vez. E mais uma vez. E outras tantas. Cansada. Mesmo quando foi um amigo que me disse: "a nossa mutualidade individual é criada socialmente".
Do outro lado
Vou começar por te contar que a possibilidade do amor está em ser impossível. Embora haja muito de poético e soberbo em querer, o sistema de possuir algo para além das barreiras do corpo que é realmente nosso e de cada um perde-se no toque. É como se a pele estivesse equipada de hormonas e tolhida de sentimentos. A cada vez que tocas alguém perdes um pouco de euforia. As pessoas são como as cidades natal, os velhos amigos, os sonhos dos teus pais para ti. Sabem-te bem mas não podes deixar de pensar noutros sabores. Isto é querer o que é dos outros e não te estou a falar daqueles que já pertencem a uma relação que tens a pertença de estragar, porque cada um pertence só a si mesmo. A nobreza está em ti e no que fazes todos os dias num mundo onde toda a gente corre para se amar e ninguém corre para mover o mundo, ninguém corre em prol de si mesmo e toda a gente corre a espera das palavras vazias de consolo dos outros. Mas eu não sei o que me liga aos outros. Não me encontro no amor que me dão e não encontro amor para dar aos outros. Os outros não correm para lado nenhum e eu estou a precisar de um motivo para a insanidade definitiva de querer ir para lugares onde nunca estive. Não sei o que é querer. Entrei num ciclo vicioso de querer todos os meus lados agudos de possessão por tudo. Pelo mundo. Entrei em fugas, em caminhos de perda que me encontram nos maravilhosas singularidades de cada um. Os jeitos do teu cabelo. Os lábios rasgados dos bêbedos sociais. A cor dos cigarros nos dedos. Os olhos apaixonados e a sinceridade do olhar quando falas do que gostas. Porque gostas de ser verdadeiro quando és e eu tenho um carinho especial por aqueles que acham a verdade a coisa mais impossível do mundo. Só que eu quero isso tudo para mim, porque me quero melhor. E foi isso que te expliquei sobre o amor. Saramago disse que a pior maneira de gostar era ter e ele, como sempre, estava certo. Na possibilidade de te ter penso escolher a possibilidade de te amar. Eu gosto de amar, como se me amasse.
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