Nunca dou espaços

Não sei se quero escrever, porque por ventura escrever acaba sempre por ser uma maneira de voltar a mim e, de resto, eu sinto-me cansada das minhas próprias histórias. E conto-as, conto-vos com entusiasmo. Mas a vida não consegue ser muito mais que isto pois não? Pelo menos para nós que escrevemos.
Deparo-me com a verdade suposta de que a existência das vidas que se cruzaram com a minha têm pouco para me oferecer já. Estarei eu a descartar o bom livro? À semelhança dos outros, vou-me fartando do amor. Que por mais livre e simples que seja, exige sempre uma parte de mim que nem para mim tenho agora. Sinto-me a romper. A escavar peças de mim que já conheço tão bem e tão bem sei como destruir. Uma dor invade-me. E o metro passa e eu quero que ele passe por cima de mim. Mas entro. Se esta metáfora é possível para descrever o que sinto, eu sinto que deixo estas pequenas dores a formarem-se num caminho que me atropela e do qual eu não sei sair. De todas as vezes que mantive um coração coeso e duro, foram todas as vezes que a minha mente acabou furada. E eu não sei sair daqui. E despeço-me sempre. E acabo sempre por fugir. Desta vez, fujo para dentro de mim. Não me pretendo mover, pretendo apenas... Não sei o que pretendo. Cansados valemos muito pouco.

Não consigo escrever. Não consigo de tão dentro de mim, sair para vos contar esta história. De como acabei por sofrer. E acabando por sofrer como acabei por perceber que cometi o erro de nunca o ter feito até agora. Há algum tempo que tomo opções das quais nunca achei ser capaz. Quanto maior o desafio, maior o perigo, mas devo multiplicar isto por cem quando erro após erro, a sorte me cresce? Mas eu sinto que a minha sorte parou e sinto que perdi os pássaros no meu ombro.

E tenho saudades tuas.

Talvez devesse ter dito que te amava, realmente. Que sinto que se há alma foi só porque te beijei numa noite de luzes mais brilhantes, mais dança, mais coragem, mais global. Mas porque raio (me) fui eu ouvir-te quando me disseste para ser mais, mais, mais, mais... Mantenho-me em silêncio. Não consigo explicar a dor. Ninguém consegue, se alguém conseguisse talvez o mundo não tivesse mais livros para ler nem filmes para ver.
Na verdade não sou mais que a história onde não disse o que sentia (o mundo em guerra por causa disto) e acabei por perceber que era só mais um coração coeso e duro mas partido, como todos os outros. E as conversas à minha volta giram à volta disto. De como estamos todos tristes. Mantenho-me em silêncio mais uma vez sobre a minha própria tristeza. Mas não convenço ninguém nem me convenço a mim que isto vai passar porque sinto que de cada vez que passar por ti na rua me vai voltar o choro à garganta (ainda não podes dizer nada que eu já não saiba escrever).
Sinto muito a tua falta, mais ainda sinto a minha. E eu prometi a mim mesma sair disto mas já são dez da noite e isto é tão merda que se torna num alívio por ainda estar viva para escrever.

Descalça, estou descalça, mas ando.
Quero transformar a dor dentro de mim (em arte).

Estava nos rascunhos

Presenteio-vos com o que menos gosto, desculpem, apresento-vos a minha incoerência. Atropelei-me para cá chegar, e vim atrasada. Vim atrasada numa transposição de mim mesma. Devo ter dito para ir à frente enquanto me tentava apanhar. "Já te apanho". Com certeza, apresento-vos a incoerência de mim mesma. Abri a porta do quarto e sentei-me na cama. Cheira a tabaco nos lençóis, creio até ser capaz de fumar directamente da fronha, tenho a alma encardida e amarrotada e não faço a cama onde me deito. Não me quero desculpar, é claro, mas abri a porta do quarto sem ter em atenção a falta de educação de uma sala cheia de gente. Por favor não finjam que reparam que me ausentei, tenho a alma por mudar há semanas. É preciso saber sair. Devagar, ainda que repentinamente. Levantando o corpo num só gesto, como se fosse breve a ausência, é precisar sair dos lugares. Penso que se passa o mesmo com a vida das pessoas. Não quero enganar ninguém com metáforas, gostava de ser concisa como nos cafés em que falo com aqueles que falam a minha linguagem, mas tenho um problema com a materialidade das relações. Sou prática porque me levanto num só gesto e não me despeço, mas prefiro um quarto sujo com um livro desassossegado a uma sala cheia de gente. Venho a aperceber-me da minha necessidade de isolamento e não sei porque me debato tanto em processo de abandono. Não é sobre isto que eu quero escrever. Na verdade, a maneira como eu me canso ordinariamente das pessoas e as descarto e me estou a desculpar com feitios e feitos é já um pensamento secundário. Reparando que sendo tantas vezes um problema na verdade deixou de o ser. Ou a normalidade. A banalidade da existência que não consigo captar em ninguém da forma que eu sinto acaba por ser impressa nesta ausência. Neste bloqueio. Tenho um plano gráfico da minha emoção sempre mentalmente claro e exposto na cara de cada um que me fala. É mais do que evidente para mim que tenho um problema em ouvir neste momento. Como um quadro torto no meio da sala que ajeitas sempre que passas, não sei se me sinto como a pintura que já é anónima ou se me sinto com a força da madeira e do metal para firmemente te dizer que tenho um lugar. Ainda que esta última opção não me agrade de maneira nenhuma. Tenho um problema em ouvir-te e por isso olho-te de frente. 
Também não é sobre isto que eu quero escrever, não quero escrever sobre como tenho sido egoísta, fechada e desonesta no tratamento dos outros. Tenho um enorme carinho, quero acreditar, mas não tenho paciência. Sou até apenas desonesta porque não sabeis vós mas eu não tenho paciência para nenhum. E nem me lembro de ter escrito isto.

Reflexo

"The longer She is dead the more blissfully She remains"

Falei-te ao ouvido, baixinho para ninguém ouvir. Pedi-te com carinho que fosses desenhado a preto e vermelho e de braços grandes e de ombros fortes, mesmo que fosses só um menino. - Vai embora. 
Não queres ir, tens medo, como eu, de voar? Falo de ti, eu sei. Ao teu ouvido digo-te baixinho, perto, a falar e a respirar, com uma mão nos teus cabelos e outra no teu olhar, que gosto de ti. Que sou como tu. Que sinto o mesmo. Que me sei rir do mal e chorar ao imaginar que vais deixar de ser menino. - Não vás embora. - Mesmo assim, não sei dizer que te amo. Porque não te amo. Que te quero, porque não te quero. Era capaz. Colocaria todo o meu coração no teu peito. Seria mesmo como tu. Seria tanto à tua imagem, que podias ficar. Porque te olhas. Porque te olharias. Porque eu sei que gosto de ti. Como tu és. Desenhado com mais cores e defeitos. Serias falível, já sabes que não posso fazer mais que mentir-te ao ouvido. Mas como tu és, mais ninguém seria. Então diz-me porque ficas quando eu não te amo e não te quero? Porque te assombro. Como uma sombra no canto da mente que aparece nas luzes fortes da noite. Um assobio. No ouvido. Escuta, que o que sabemos fazer melhor é falar. Gosto de ti, daqui a dez anos, mais cansado, daqui a cinquenta, mais feio. Dou-te uma cadeira na minha varanda e não te esqueças que ela não é tua. Nem eu. Nem tu. Nem nós. Nunca existimos. Fecha os olhos, pisca devagar a saber que os estás a fazer, e quando abrires os olhos pensa que me esqueceste. Que fui tão rápida a sair como a entrar. Não sabemos por que janela me viste passar, não sei por que porta me vi sair. Disseste-me que o mundo tinha mais que uma janela e que eu era capaz de saltar. Só estou a fazer o que me ensinaste. Julgaste-me incapaz de saltar para dentro das portas da tua percepção. - Olá. Adeus. Até já. Vejo-te em breve. - Não me fales ao ouvido da próxima vez que me encontrares. 

Se me encontrar

Relembraram-me que o jogo só é bonito no inicio quando o coração não tem memória. Estranho não me lembrar das minhas palavras sóbrias tão bem como me lembro das perdidas durante a noite. Se eu fizer isto de forma errada, podes entender como correcto, por favor? Porque eu não sei agir no suposto, muito menos em direcção a ti. Dói mais deixar-te do que perder-te. Dói-me do lado esquerdo do peito o lado direito da cara que recebe beijos que não são teus. Dói-me as mãos que me tocam e nenhuma delas é a tua. Dói-me o afastamento que vivo de mim por me querer afastar de ti. A cada passo que dou sem olhar para trás, estás tu ao meu lado a perguntar todas as razões do mundo que consiga inventar rapidamente sem que percebas que eu não tenho respostas nem certezas, nunca. Que tanto quero e tanto rejeito, como em quase tudo o que se assemelha à vida que sonho. A sombra da tua cara debaixo dos lençóis às oito e meia da manhã, a minha sombra a esconder-me os destinos que sei puderem ser meus. O fumo pelo quarto e o nevoeiro em que tudo se vai tornando. Nem tenho saudades tuas. Não tenho mais saudades tuas do que aquelas que já tive quando as tive mais. Não tenho saudades. De nada. O meu coração não tem mais memória, nem espaço. Estranho. Podemos voltar a ser? Prometo perder-te desta vez.

Ainda não voltei


E de frente para todas as coisas
A passos largos ou pausados
Deslumbro a minha existência fora de mim
Numa que não sou eu
Assumo a história de todos os que proximamente me rodeiam
Como se eles mesmos não soubessem viver a vida deles
Mas sou eu que não sei viver a minha
E olho para trás em todas as coisas
Não vejo nada senão actos que não foram meus
Escolhas que me são alheias
Quero ir embora, quero ir embora
Sem terra e sem mãe
Quero ser mãe dos meus sonhos
Criá-los como estes passos largos
Vivê-los pausados
Nada disto é meu
Por capricho de não tocar em nada nem tomar nada como meu
Não querer adquirir nada para além de livros e mais sonhos
Resta de mim apenas a roupa preta espalhada pela casa
A sombra do que realmente sou
Estou mal
Sinto-me intrinsecamente mal
Incapaz de olhar para mim própria
Confrontada pelo espelho, sinto-me bem
Mas as pedras da rua
As pedras da rua estão a julgar-me a cada passo que dou
Julgo-me parada
Tropeço nos pássaros que cantam no meu ouvido
De um livro que fala da leveza da alma
Pesada
A pagar para viver numa cidade que não gosto
A fazer o que não quero
Juntei-me a peça teatral dos demais
Perdi-me, confesso
Quero ir embora, quero ir embora
Mudar de nome
Já pensaram em mudar de nome?
Antes disso tenho que acabar de fumar.

Porque podes


"I need you as the one luminous point in my madness."

Sabes que às vezes quero morrer? Não sabes. Até te digo que estou feliz e não precisas de conversar com este monstro. Mas às vezes quero morrer. Estou a mentir-te. Sempre antes de começar um novo dia, antes de fechar os olhos para mais horas a seguir levantar a alma que me pesa. Quero morrer e não tenho vergonha disso. Parece-te vulgar? Achas que estou a ser ingrata? Eu não sou boa pessoa. Não gosto de estar viva e queria acabar já com esta ansiedade de saber que amanhã o dia é igual. Achas que vou acabar por fraquejar e contar-te a verdade, dizer-te que me vejas com olhos surpresos quando te digo que achei que me podias fazer menos sozinha enquanto louca? Não podes. Não sou boa pessoa. No meu íntimo odeio-te, não como odeio toda a gente, mas sou frágil e construída à base de traumas e desculpas estúpidas para mim mesma. Estás a ver a porra de cliché que arranjas para me dizer a toda a hora como conversa inteligente? Pronto. É isso. O teu corpo é isso. Tu és isso. Tão importante como inútil neste momento. Queres morrer? Achei que me fosses perceber. Que te podia esclarecer dúvidas geniais. Que até podia encontrar solução para este pano. Mas volta e meia levanta-se e lá vamos nós ao palco. Não queres morrer. Gostas da vida. Ainda que vulgar. Talvez eu seja só mesmo ingrata. Ou vazia. Ou não sei o que quero. Não quero nada. Já disse aqui, já sei. Já sei que leste esta merda, outras merdas, mil merdas. Não percebeste ainda que eu quero morrer? Talvez, um dia, o faça mesmo. E mate este sonho que vive dentro de mim e que eu não sei sonhar. Não, não preciso que me digas que tenho capacidades, sou espectacular e que vou conseguir. Se eu me quisesse matar, já me tinha matado. Mas tenho medo, tenho medo que no fim queira só estar viva, ter uma casa e o teu ódio sentado do meu lado. Não quero?

Sem nome

Estive ausente e estarei ausente por tempo indeterminado, mas parei de fazer as malas para te escrever esta carta. Escrevo sempre no teu destino como se aquilo que sei sobre me expressar tivesse que rimar com o teu nome. Meu amor, vi-te à porta do café. Com uma camisa que eu não gosto, com os mesmos olhos dourados. Pareciam inquietos, talvez porque eu fique sempre inquieta ao cruzar a mesma rua que tu. Meu amor, eu não te toco há tanto tempo, não ouço a tua voz há tanto tempo, não te amo há tanto tempo que agora tenho que aprender tudo de novo. Sem o vício da tua pele, sem as manias do teu cabelo claro, sem os pedaços de mim que eu perdi por contar. Meu amor, disseram-me para te deixar ir e eu deixei. Disseram-me tanta coisa sobre amor e eu continuo a morrer. Sinto falta de quando me protegias da trovoada e tenho saudades da maneira como me davas colo para eu dormir, falta-me tanta coisa como se me faltasse uma casa que eu não tenho para mim, como se todas as cores de que eu pinto o quarto, nenhuma tire o teu ar fino pela casa e as tuas mãos de pianista e as tuas bandas favoritas que agora são famosas na rádio. Os teus sonhos feitos de pássaros, quando choravas porque eu era a única que te podia ver chorar, quando te deixei. Eu sinto que há uma parte de mim que nunca te vai deixar, tenho o teu peito gravado na memória, a forma dos teus braços a apertar-me os ombros, os teus ombros a mexer-me no coração. Sinto que há uma parte de mim, inocente, que morreu no dia em que fui embora, tal como vou agora. E sinto que faça os quilómetros que fizer todas as ruas vão ter o teu nome. Não sei se é suposto dizer-te que não me lembro de ti, que vivo os meus dias sem sequer me lembrar mais de como foi viver contigo. Que não te amo mais. Que não sei se te amei. Mas meu amor, eu sei que a última vez que tive coração e que ele não foi frio, foi contigo. A muralha que há à minha volta não tem medida que eu consiga ver. Estou extremamente cansada. Meu amor, se tu soubesses. Tenho que te deixar ir eu sei, nunca te soube dizer adeus. Nem quando estava contigo, era sempre "até já" porque eu tinha medo que este dia chegasse e ele chegou. Não vou morar mais na rua acima da tua. Não era para eu ter ficado magoada assim, eu devia saber escolher as coisas boas que me deste, mas só agora aprendi que tu eras beleza. Depois de tanta carta que te escrevi, talvez esta seja a última. Eu tenho tanta coisa para me despedir por mudar de cidade, por mudar de vida, porque tu sabes que eu não consigo só fazer uma coisa, mas vou guardar-te no coração. Ensinaste-me tudo sobre amor, é amor que eu vou encontrar, é de amor que será o mundo. Amor como o nosso, como o meu, como a vida. Meu amor não és mais meu e eu não sou demais. Sentei-me em frente ao Universo e vi que não posso mais fugir de mim. Meu amor, nem todas as metáforas do mundo chegavam para expressar esta alma.

Labirinto


"Porque é quando te calas que eu penso..." | A anestesia do quotidiano mascarada de tons mais cor-de-rosa que o habitual ao final do dia e incandescência ainda suportável nas horas de esperar, que não me deixa nem chorar nem escrever, nem sonhar nem querer. O cansaço de andar e ainda que o passo seja sempre em frente, está cansado. Estou cansada. Quero dormir dormindo. Sem sede de acordar melhor, não estou melhor, só pareço mais enquadrada. Estou triste, sem tempo para estar triste. E sinto saudade sem corpo para sentir falta e lágrimas que seco ao pensar em chorar. Quem escreve não pode viver esta normalidade, mediocridade diária sistematizada. Não sou obra nem arte, não sou nem tenho tema, nem mágoa, nem raiva, nem nada para lá de aceitação. E por isso sou pintada, mas não sou arte. Claro que falo momentaneamente, aliás como deverás é unicamente permitido, mas não posso aceitar esta moldura. Estupidez. Estupidez. A desistente que nunca realmente desiste de nada. No peso não da fotografia, mas do papel que envelhece e apodrece, e que se toca mas não se sente porque o tempo é relativo mas não volta atrás. Esta calmaria estúpida. A anestesia esporádica da lembrança de ti, do café com os amigos, dos copos de vinho cheios de conclusões, do pecado que encontro ao lado do perigo, dos riscos que não corro, na paixão que não tenho, na gana que me falta, no foder aleatório, na ausência de perfume, nos gritos vazios, no calar porque andar, andar e andar. A anestesia intrínseca da ambição desmedida, no fugir, no não querer, no abandonar, no adeus. Esta iminência sanguínea de refúgio. - Puta que vos pariu a todos! A falta de coragem, mas puta que vos pariu a todos. A paz, a passividade, a calma, a bonança, o céu azul, o que brilha, o que sorri, o que está bom, o que aconteceu como planeado, o que era desejado, tudo isso é para queimar! A vidinha, a merda da vidinha. A falta de paisagens, a falta de amor, a falta de rebeldia, fazem-me falta. Não quero ter sono, não quero estar comprimida a mim mesma, tenho ansiedade de viver. Lentamente a escassear sonhos, mas é fazer-me o favor de me manter acordada. | "... porque é que não és feito de silêncio". 

Não sei sonhar mais


Não interessa realmente quantos tipos de homem consegues ser. É preciso que respeites as vontades de cada um, que escutes o que cada um te fala ao ouvido sobre ti. Não creio que estejam todos correctos e não quero acreditar que é preciso saber o que queres para seres feliz, mas é necessária uma consciencialização de todas as ambições que não tens, os sonhos que nunca podes tomar como teus, os pormenores que não gostas, as matérias que não te cativam. Ainda que não saibas tudo o que queres, é preciso saber aquilo não consta na tua lista de prioridades ou tolerâncias. Especialmente, neste último ponto. Não toleres. Não dês espaço na tua vida para aquilo que não toleras. É tão fácil ver o lado negativo de tudo, mas é tão complicado ser cru. E é de ser cru, é de ser inteiro, é de ser parte após parte o que és, que eu me tenho apercebido que precisas de ser, homem. Minúsculo, sim. É em todas as coisas que vais escondendo, que evitas tocar, das quais tens medo, as quais não queres, que reside tudo o que és. É em cada homem que és para não ser outro, que és mais homem, em cada papel que assumes para não ser mais nada que isso, que és mais um pouco de ti. Só um pouco. E pouco a pouco. Não sei porque insisti, talvez ainda insista, nesta repugnância à mentira, à farsa, ao fingir ser porque quanto mais finjo mais me enquadro. Numa clara oposição como a que te descrevo de seres o que não queres ser, evitando claramente ser tal coisa. Quando tiveres que quantificar quantos consegues ser e tiveres que escolher os que pretendes terminar por aqui, fala-me apenas do que não gostas. Não quero saber o que te faz feliz, não quero saber o que achas que podes fazer, não quero saber as perspectivas de futuro que tens. Quero saber o que te assusta ser, as saudades que tens à noite, o quanto pode ser escuro se nem tudo correr bem, as coisas que não aceitas fazer e fazes todos os dias. Isso fala-me em uníssono, em voz grave de todos os homens que achas que és, em voz rouca de todos os homens que realmente és. Eu escuto o que não é para ser escutado, observo o que não deve ser visto, gosto especialmente de saber o que odeias, não queres e te enoja porque há poucos, como poucos, que não fazem aquilo que não gostam e que não querem, sabendo estar menos. É preciso haver a consciencialização deste processo de ser que passa muito por transformar o que somos, evitando saber o que queremos, humildes, evitando fazer o que não queremos, arrogantes. Calma, devagar, espera. Não o será na tua vida até que não o sejas. 

Mole dura


Escrevo deitada já sem a vista que me fez perder de vista do alto da torre que sou, faço quilómetros para te esquecer e todos eles me pesam. Pesam-me como uma entidade castigadora, e a cada pecado que cometo pesas-me mais. A cada toque que não o teu sinto o estômago mais colado aos ossos que nem tenho, os olhos mais cegos, o coração mais ansioso. Estou ansiosa porque sou estúpida. E escrevo deitada porque tenho frio. Tenho frio nas mãos à medida que desço a rua para te deixar, à medida que não sei o que faço em precipitação de já o estar a fazer. És um arrependimento sem causa, como eu sou rebelde porque tenho de o ser. Não me protejo muito afinal de contas, no meio e perdida em mim mesma, apercebo-me que não posso mudar os contornos das circunstâncias que me evito a escolher. Tenho sede, um vazio no peito e muita sede. E este outro que não és tu. A cada respiração desse nas minhas costas, a cada vez que engulo o veneno da minha saliva, tenho a boca seca de mágoa e água. Beija-me as mãos e quero dizer que não agradeço a fragilidade, não me limpa de todas as vezes que não é o que eu quero tocar. Porque eu queria tocar-me, mover-me, emocionar-me, transformar toda a lembrança em momentos inconvenientes, em ser comigo e não ser o peito onde deito a cabeça a dormir. Porque eu nem durmo muito bem e sobra-me pouco para te falar depois. Fumo por isso o cigarro e fico com a vista que me fez perder a vista e o propósito a bater-me na mais profunda tristeza que já não sabia sentir. Tenho dores no corpo pela maneira como me faz perder a consciência, numa mistura de processos mentais que me fazem sentir a dor de perto, tão de perto que me finjo a tornar tudo isto real, real demais para o que desejo escrever. Fode-me muito mais que a cabeça, e eu tenho de parar decididamente de foder a minha vida. Ainda que seja mole, sou sempre sempre dura porque não sei sentir. Não sou romântica, o amor para mim é sempre de pele e osso, mas por isso acho que desistir dele ou viver nele pode ser como outra doença ou cura qualquer - com tudo o que isso implica. Estou doente e na verdade nunca estive doente de amar até... agora. 

Quarto igual


Pude deslumbrar limpidamente a tua imagem, se somos o que dizemos, pude então ser Narciso no casaco de ganga, no pescoço moreno, nos olhos tristes do teu teatro de existir. Não quero com isto dizer nada, nem que sinto a tua falta, mas sinto. Não quero dizer que sinto tanta falta como sentirás de ti mesmo mas esses olhos já são mais vazios que verdes ou de outra cor qualquer que nunca lhes entendo. Com peito de mãos cruzadas sobre ele sem flores entre os dedos e uma terceira mão que é minha e à distância suaviza cada um dos teus caracóis azuis, tens o corpo deitado ao lado do meu. Mesmo que não o tenhas. Não quero parecer piedosa, adequada, boa amiga, sensata. Desejo sentir de forma equável a força do teu peso e a força da minha alma. Quero juntar os vidros feitos de raiva que me rasgam o à vontade e olhar-te de frente com coragem para te dizer tudo e não precisar de dizer nada. Porque não me apetece a aleatoriedade das palavras nem o sentido bipolar das conversas circunstânciais. Não me apetece ganhar nada, por isso não quero jogar, não quero peões, não quero nada no meio do campo aberto que devia ser o que sinto por ti. Não te quero sufocar com pedidos, lamentações, a minha presença, mas não quero também ser tão calculista, tão conveniente, tão senhora de mim. Não sou, não sou, quem me dera ser. Sinto a tua falta com uma longa lembrança que nunca esperamos ver sair dos cantos da mente. Acordo, adormeço. Fazer, agir, falar, contar, ler, escrever, viver tem o teu nome de pano de fundo diariamente. O que farias, o que dirias, o que tenho para te contar tão insignificante. Estou esgotada e acredito que no meu disfarce resida a verdadeira significação para não conseguir reagir sobre o meu cansaço. Achas que morremos e ainda não sabemos? Também achas que me mataram? Que estou incapaz talvez? Não tenho razões para sentir esta angústia tirando que a verdadeira causa da minha angústia é tão simplesmente um velho desejo humano, ou uma mentira universal, ou uma manobra dos deuses, ou uma conspiração do universo, ou o maior produto da história, o velho, tão velho, como eu me sinto, o amor. Ou como lhe chamam, o amor. Ou como eu nunca tenho a certeza, o amor. Não ligo a frases feitas, nunca liguei, acho-lhes piada e comunico facilmente utilizando-as nessas circunstâncias superficiais que descrevi não querer, mas tenho procurado nelas razões para me levantar em metade e noutra metade para desistir. Quero reinventar a vida, a minha, a tua, toda, o mundo, a escrita, a vontade, a rotina. Como se fossemos um conjunto de coisas expostas que têm de ser valorizadas, ainda que sempre sem inflações, opiniões de críticos e sem medo. Quero olhar para ti sem medo. Com a mesma naturalidade que te questionava antes quero responder ao questionamento provocado pela minha alma. O que é isto e quem és tu. Há em mim esta confissão de que me lesses e soubesses, porque sabes só, que é para ti que escrevo. Um dia. Porque tenho imensa pena, terrível medo, coração gelado, alma doente, e não há dia em que não desejasse não ter para te poder falar sem a peça que montamos, a história que achamos que lemos. E seremos um dia, ainda que longe, ainda que nunca tenha realmente feito isto. Espero para ti e nunca por ti, assim como prometo para mim e nunca por mim. Todos os dias são dias em que o teu nome tem arrependimento intrínseco nas letras mentais de o pensar. Como só o tempo sabe ser, invisível. Foi assim que te pude deslumbrar, sem saber quem és mais do que aquilo que já sei, com a certeza que sei mais do que a distância, o espaço, as horas, e a matéria circundante, todos, podem saber. E não estava nem estou drogada de nada, tenho a certeza que não. Esta metamorfose está só para lá do que não podemos imaginar. 

És o que faço


Quem és tu homem nu? Ode ao amor, manifesto à vida. Se eu nem sei se me lês, quanto mais se me ouves com vontade, quem és tu? És o que eu faço de ti nos dias em que não te quero dar a mão numa tarde de Inverno porque nós não duramos até à próxima estação. Quem és tu se eu nunca te desenhei, nunca te vi com luz natural? Quem és tu homem vestido da roupa dos outros? Se eu soubesse que não me lês, contava a verdade. Mas talvez tu sejas mais capaz de me ler nas entrelinhas do que eu capacitada para te escrever cartas sinceras. Não consigo não mentir. Não tenho mais imaginação para a realidade, não tenho ferramentas que permitam criar uma e outra vez esta história. É preciso que nos afastemos de todas as coisas que nos arrastam o espírito, nos dão vontade de dormir, nos fazem vestir cores para além de preto. - Meu amor, meu amor, meu amor. Uma merda de amor. - Despi-te de olhos suaves, de olhos brilhantes, de olhos além do essencial. Essencialmente porque és só tu. E eu não sei porque tu não sabes. Quem és, o que fazes, o que me dizes, o que te conto. - Foge, fogo, foge, fogo, miúda. Mata todos os gestos e afectos. Às seis da tarde, às seis da manhã, sê isenta e envia-lhe uma pergunta despojada de cobardia, de jogo, de pensamento. - Quem és tu agora? Que não sabes nada, que usas as minhas palavras, que me cortas a linha mesmo que eu não queira ser silêncio. Que não me conheces, que me julgas insuficiente, que me és limitado demais para ser estranho para mim. E podes até mudar a cada cinco minutos, até tornar os minutos relativos, mas quem és tu meu amor? És um bocadinho aqui, um bocado ali, um bocadinho de nada. Um lapso de memória, uma ausência, uma eventual falta fatal em dias maus, e és isso tudo, menos quando tenho que fingir entusiasmo quando partilho contigo o que não tem partilha possível porque à falta de entusiasmo, ligo os sentidos e um por um todos me dizem quem és tu. Um bocadinho menos, cada vez mais, um bocado do que não quero, um pedaço do que não posso ter, uma parte do que já não sei ser. Todos me dizem para fugir, eu já sei de trás para a frente e em reverso igualmente os muros, as limitações, os sentidos proibidos. É uma pena, sabes? - Claro que sabes. - E não me interessa realmente quem és tu, nu ou não, vestido com a roupa dos outros, ou como os outros, ou de ti ou para ti, porque na verdade, na verdade, isto é uma merda e eu só quero ir, ir, ir, ir, ir, fazer, fazer, fazer, fazer, sonhar, sonhar, sonhar, e nunca, nunca, saber quem és e saber quem sou. Hoje é um dia mau. Pareces-me igual a todos os outros, já não sei, não sei, nunca soube, quem és. Estou enganada e não é a teu respeito, estou enganada porque estou apaixonada. Porque como já te escrevi uma vez, e nunca te disse, não sabes... ser. Tu. De ti. (Ainda). Muito menos meu amor. Calma, muito menos. Quando toco nunca estou quando falo não penso que quando penso sempre sinto e quando sinto sou. 

Café curto


- Bem, se calhar, agora percebo que a capacidade estava aqui e nunca me terei apenas lembrado de a focar em direcção a mim mesma, ao meu corpo. Não acredito que seja tão possível para alguém imaginar o toque como eu imagino desde que o perdi. A maioria das pessoas que se sente perdida descreve um vazio dentro do peito, eu própria já o pude sentir. Mas o vazio que sinto agora é estranho, é outro corpo, é novo, é ausente da minha capacidade de recolha e de introspecção. É como se eu mesma me tivesse movido para me sentar ao lado de mim mesma. É o vazio em forma de recordação ou de conhecimento se estiver atenta ao facto de que tudo o que alguém conhece é nada mais, nada menos, que uma conjugação de memórias e relação de factos, ou seja, recordações. Quase que me apercebi agora que não passamos de uma memória repetente do universo, como se as estrelas se tivessem apaixonado e do nascimento do mundo tivessem perdido o amor da sua vida e nós por consequência o amor a vida, condenados a morrer. Assusta-me o facto de não ser realmente merecedora de nada que valha a pena, pois até a materialidade me lembra da dor dos outros.
- Fazes de tudo um poema...
- Por falar em poemas, achas que minha máquina de escrever já escreveu cartas de amor? É o peso das palavras. Porque é que ninguém percebe o peso das palavras? Porque é que ninguém assume a responsabilidade de entender? Como é que ninguém percebe a simplicidade da comunicação. Se eu tocar no material achas que alguma sobra de sentimento me sopra na alma, nas partículas que sobraram das estrelas que já fomos? Como se eu pudesse sentir amor só porque ele existe?
- Tu não me ouves mais do que cinco minutos e falas de comunicação assim com essa certeza? Não sei se podes tocar o amor. Nem sei se sabemos amar.
- É exactamente isso! Desde quando é que temos medo de juntar todas as partículas que as estrelas separaram? Como se o amor que vimos falhar nos roubasse a esperança, como é que não vemos todas as outras formas de comunicar? Confesso que nunca tive disponibilidade para histórias de café e prova do meu afastamento mental à minha pessoa é que me deixei levar por elas. Nunca estaria aqui a conversar contigo.
- Conheces a história da torre de Babel?
- Conheço... Não é tudo um poema afinal? É talvez o pior castigo que o mundo já ouviu falar e se reparares bem é exactamente da torre que nunca construíram, lá de cima, que vemos tudo agora. Afastados.
- Mas se não há torre...
- Por isso é que eu sinto que me sentei ao lado de mim mesma. 

- Raquel, reparei agora que nunca te ouvi pedir um café curto. 

Consciência consistente


Há um distorcer do pragmatismo das coisas que tenho de abandonar. Não viverei tempo suficiente para fazer do pensamento de sonhar um acto, nunca nenhum de nós viverá. E ninguém que foi eterno teve na falta de antecipação a sua glória. Não posso jogar de vidente de mim mesma, fazer previsões às minhas circunstâncias. Já fui focada e tão cega e de tanto querer ver fiquei com um estigmatismo para o movimento da vida. Aquilo que me liga à terra não é isto, não é esta maneira de a ver. Já não a sinto com os pés, não a pinto com as pontas dos dedos. Apoderei-me de uma falta de poder porque não quero nada mais. Perdi a ambiguidade e ganhei a divisão. Onde está a minha fome mascarada de vontade de viver, onde está a minha rebeldia aos clichés e frases feitas, ao facilitismo, ao ficar sentado à espera que aconteça? Todos os alvos destas criticas sou eu agora. Com as melhores dissertações sobre mim mesma, perdida em palavras e já sem sair para apanhar chuva, fechar-me de amor feito de silêncio entre pó e areia que sacudo dos pés, querendo voltar sempre a mim. Tenho medo do que vou encontrar quando ligar para me encontrar. Tenho medo da minha mesma cara de reprovação. Da frontalidade das perguntas que acabam sempre por querer saber o que me aconteceu, que eu não sou eu. Já caiu na inconveniência de não ter nada para dizer, no tédio de mim mesma, no sono profundo sem necessidade de dormir. - Tenho saudades tuas. Gostava de dizer, mas não tenho. E é por isso que tenho receio da cara que olha de frente agora. Eu nunca soube voltar e que farei eu quando a viagem que se faz em retrocesso é o destino que não tem tempo nem espaço nem corpo nem nada mais que alma. O que está dentro de nós e nos fala e não se cala nunca, que não tem descanso, que não tem insónias, que não tem cansaço, que não tem força. Que se apresenta em espírito, mas não tem estado. Preciso de montar o puzzle de mim mesma com a naturalidade de uma criança que apenas junta as peças, que aprecia o resultado porque só ele é prova do esforço, tão leve ainda assim, mas só ele é consistência de nós mesmos. Não me quero tornar na ausência de mim mesma e fazer-me esquecer, tendo ainda assim tanto mais interesse do que aquilo que é dito. Não são capazes de me oferecer mais e eu tenho agora imensa pena de não conseguir imaginar-vos noutro papel. Estou a passos pequenos do horizonte e de encontro ao meu deus, que espera impaciente. A tolerância, a calma, a flexibilidade deverá ter limites para aqueles que acreditam apenas em si mesmos e na relatividade de tudo. E não quero não ser nada, estou pouco cheia de mim. Estou cheia de tudo. Nem farta, nem cansada, cheia de tudo, só. Só. Entrego-me. Tenho que me entregar, devo entregar-me. É comigo que eu não lido bem. - Tenho saudades tuas. Gostava de dizer que não, mas tenho. E não posso esperar. 

Na parede


Não quero abrir essa loja sem livro de reclamações. Não quero escrever, não quero. Quero encontrar um amor que me faça escrever sobre amor. Não quero pegar na caneta correctamente azul e não quero assinar por baixo a preto. Que sejam a lápis e sem borracha, ainda aceito, mas não quero. Não quero voltar a abrir a boca, não quero voltar a pensar. Não quero entrar neste processo entediante. Não quero a futilidade do café, ser uma velha na esplanada de uma nacional paralela a uma auto-estrada de ver a vida a passar-me à frente. Não quero cigarros, não quero mais cigarros. Não quero mais dedos para contar, bastava-me uma mão, não sei onde perdi a capacidade para a fechar. Para não a dar. Não quero dar afecto banhado a meias gargalhadas, meios olhares reprovadores, tudo a meio. Não quero nada a meio. Quero rasgar os livros, as folhas pautadas, os cadernos com argolas fáceis de abrir. Quero ser escritora. Quero encontrar um amor que me faça escrever sobre amor. Quero um olhar dourado, pulso firme, ânsia de viver. Não quero jogos, não quero beber, quero estar acampada no anfiteatro de um copo de vinho tinto e estrelas, as estrelas que eu nunca mais parei para ver. Respirar intoxicada, olhar para o lado, olhar em frente, e ter sem realmente precisar de nada. Não quero abrir pré-inscrições para a fatalidade de estar viva, para a vulgaridade de andar na rua, para a depressão do tempo. Quero encontrar um amor que me faça escrever sobre amor. Não quero estar, quero ser amor. Quero um amor que me faça escrever sobre amar. E não quero escrever, não quero cartas de despedidas, só não quero isto, só não quero este amor, quero outro, um que me faça parar de escrever como é a minha vontade de não ser escritora. Quero. Quero outra vez. Só não quero atravessar a estrada. 

És pouco


Vale a pena? Não tenho paciência para esperar, nunca tive. Ainda assim acabo por chegar quase sempre atrasada ou um minuto antes mas nunca tive paciência para esperar. Tomara que fosses pó, partículas deambulando pelo quarto, comigo a girar num rodopio do meu indicador atravessando um feixe de luz. Nunca tive paciência. Apercebo-me agora da minha ansiedade, analiso-me ao longe e percebo que nunca soube ter calma. Calma na alma, dizem eles. Prudência, pouco confuso pensamento, sede do que se tem. Morro de sede, canso-me ao acordar. Não tenho paciência para esperar por ninguém, nunca tive. A noção da perda, da ausência final e do tempo que passa. Das coisas que se deixaram por fazer e eu nunca tive paciência para mim, por isso vou. Vou fazer mesmo quando não quero, vou dizer mesmo quando não posso, vou embora mesmo quando não devia ir. Tomara que fosses chá de pimenta, que quem te tomasse gostasse de morrer. Numa caneca por entre os meus dedos enquanto me sento na cama de pernas cruzadas à espera da vida. E na toxicidade das pontas espigadas do meu cabelo fizesses crescer paz com flores pequenas e amarelas, e me fizesses outra vez criança. Por entre os amigos imaginários que matei e por dentro desta vontade de não ter quatro paredes para morar. E do desinteresse que tenho por ti podias contar-me histórias de livros em promoção. Que se ainda há outra coisa para a qual não tenho paciência é para pessoas que gostam de estar. Estar, estar, estar. Estar é feio e é só o que sabes fazer. Tomara que não estivesses tu. Toda a gente menos tu. Quem dera que fosses. Não tenho paciência para ti. Posso esperar por ti mas sei que não estarei à espera quando chegares. 

Daqui e teu


Um dia, no mundo, não vai chover em lado nenhum. Poderei parar de falar de cada um de vós deste modo com riso onde o nervosismo está escondido no coração, no estômago e na arte. Falar tudo, vou falar tudo como quem escreve isto e não vou esconder nada como agora o escondo. Não vou confessar às paredes de quem gosto, não vou disfarçar quem me toca à alma, as minhas primeiras impressões ainda vão ser válidas. Guardar tudo em segredo, mesmo tudo, em vez de só guardar que sei sentir. Que a pele que sempre foi tocada agressivamente gosta agora de ser só tocada, que não gelo a cara de tristeza porque estou impávida mas não serena. Um dia talvez eu morra, porque às tantas da vida nem da morte estou certa. Não vou ter mais caixas nem cartas nem sorrisos, vou ter cafés, cigarros descontraídos e vou ligar-vos. A despedir-me de mim. Do que não gosto de ser agora. Do que não quero mais ser e não sei largar. Da falsa união, da falsa amizade, do falso amor, da falsa carne. Serei eu, deitada no chão do quarto, a representar peças sem espectadores. Contigo na mente, com todos os electrões que me atravessam quando penso na tua imagem. Um dia, o céu não vai ter mais almas para encher e o inferno vai estar lotado, voltarei a encontrar-te, a acreditar no destino, a ter fé e a ter sonhos. Como um desejo enquanto sopro as velas que já não sei contar, a contar o tempo que não passe, a falar para ti como se depois de milhares de anos ainda fosse tudo igual. A instabilidade será compreendida, o caos tomará lugar, haverá movimento e toda a gente vai perceber que não são os sinais dos tempos, que não há lugar nem relógio para se ser inconformista. Será libertador perceber o amor como uma liberdade, sem definição, onde o amor não exista realmente porque nada se tem e se pode dar lugar a tudo. E eu vou estar. Todas as que sou paralelas vão estar. Sóbrias, lúcidas, focadas. Que ainda não soube ser só uma e estar em comunhão comigo. Um dia vou fugir, vou mesmo. Vou deixar de querer, de desejar, de possuir. Serei o mundo e porque serei o mundo, não vai chover. Nesse dia vou poder ficar em casa porque quero e não porque me escondo. Vou ter paredes brancas pintadas à pressa, flores pela casa porque nunca as tive, cheiro a sumo de laranja pela cozinha, subtil como será a sala pequena com um sofá para um ou dois. E para os amigos, muito espaço, muitas varandas, muita luz. Que nesse dia como hoje eu perceba que tenho de viver e não vos ligar e não vos pedir desculpa e não me despedir. Há tanta coisa que eu pedi para ter agora e não sei guardar na palma da mão. Só quero ir e voltar sempre, e prometo, voltar sempre. 

Proceder ou por ceder


"Estou cansado, é claro, 
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado. 
De que estou cansado, não sei: 
De nada me serviria sabê-lo, 
Pois o cansaço fica na mesma. 
A ferida dói como dói 
E não em função da causa que a produziu. 
Sim, estou cansado, 
E um pouco sorridente 
De o cansaço ser só isto — 
Uma vontade de sono no corpo, 
Um desejo de não pensar na alma, 
E por cima de tudo uma tranquilidade lúcida 
Do entendimento retrospectivo… 
E a luxúria única de não ter já esperanças? 
Sou inteligente; eis tudo. (...)"
- Álvaro de Campos 

Quando é que às tantas te apercebes da pequenez da tua vida, dos outros, do quanto não conheces deitada numa cama. Do quanto deixaste por ver porque tudo aquilo que assiste e que te assiste é feito uma fantasia na tua cabeça. É preciso que te toquem, foi preciso que te tocassem com afinco e fogo para te deparares com as circunstâncias da tua apatia. Estás viva, à custa de beijos que não pediste, estás viva e não tens o que viver. Nem sabes como o fazer. Assusta-te esta mera possibilidade de cegueira de não ter percebido o quanto perdes tempo à procura de uns "concordo" para o teu discurso, apaixonada por um erro de feito de demagogias e falta de coragem que sempre odiaste. Mas também estás parada. Olhas o calor que vem do outro lado da cama e não sabes se é aí que queres estar, de corpo corrompido, mas vivo, sentir a sentir-te. Faltam os lados da alma que ninguém te consegue tocar. Falta que te falem sem pedires, que ouças sem que não haja nada para ser ouvido. Já te passou a tristeza, já te passou a revolta, finalmente a apatia. A calma. A serenidade de te estares a perder. O teu fogo tem nome, a tua saudade tem cara, a tua pontada no peito ao sabor de um relógio que não sabes qual é tem uma figura. Odeias dar nomes as coisas, que se estragam, que se definem, que se estagnam, dizes tu neles. Mas há nome para o teu estado, o teu respirar mais pesado, a tua falta de apetite, as tuas insónias, a tua ausência de sonhos. Como é que fizeste isso? Como é que ao final de tanto que já sonhaste e voltaste a sonhar, deixaste de sonhar tão nova? Ou talvez tão velha, tão cansada, tão farta, tão estranha. Estás estranha até para ti mesma. Só queres porque queres fugir, ir embora, não voltar, mandar foder todos, morrer. Estás doente e sabes. Estás doente e não te curas. Estás doente e não falas. Estás doente do lado colorido do coração, da parte bonita da vida, estás incapacitada para usar o amor. Estás cega às ilusões, aos sonhos, as possibilidades. Sentes-te roubada. Ameaçada. Não sei como te sentes e não sei como te sentir na verdade. Gostava de te conseguir tocar, mostrar, transformar. Gostava que esta fosse uma vida e não um estado de coisas e de caos. Fala, faz, qualquer coisa, por favor. 

Vamos


O ar quente que sai da minha boca por entre conversas aleatórias e a tua bebida favorita que aprendi a tolerar, e as unhas pintadas de azul, num coração gelado que faz viagens à Índia quando anda de comboio, e a janela aberta num dia de Inverno em que toda a gente se fecha em casa. E o tempo perdido. Seria assim tão estranho se eu desaparecesse? Estou farta destas letras todas que não expressam a transposição da minha alma. Perdi o passo acelerado e ganhei o vício de escrever com as mãos mais juntas por ser contrariamente mais rápido. Algures dentro de mim formato o texto para dois pensamentos e não tenho coragem de admitir que são vários. A passo de reabilitação volto a ler o que escrevi e percebo o estado de inebriação que se apodera da minha mente sempre que o faço. Cheguei à conclusão que não me lembro de metade da crueldade que coloquei nas palavras e nos sentimentos. Friamente, sempre friamente. Nas conversas aleatórias encontro-me perdida a ouvir e reformulo pensamentos para voltar sempre ao mesmo porque na verdade não ouvi nada. Num estado de carência pela liberdade é como talvez me encontre. E de querer impossíveis. Acho que preciso de inspiração como se não me coubesse dor suficiente no peito e não cabe. Tenho o número registado no telemóvel à espera de coragem também. Ligar e dizer que quero representar outra vez. Preciso de histórias para contar como se perdesse em não ser interessante o suficiente para mim e não sou. Estou enteada até aos ossos e por fora estou a viver a cem mil passos momentâneos e paralelos que mostram cores que não existem em mim, mas gosto, como de um costume louco, eu gosto. É possível que me perca em todas as pessoas que conheço? E que ganhei um vício de conhecer? Como se coleccionasse vítimas que não mato para aprender como me matar a todos os segundos um pouco. E sou criativa, sempre o faço de maneira diferente. Alguma vez perdeste a capacidade de lutar? Alguma vez perdeste a capacidade de querer? Como se o facto de o fazeres não te desse alento suficiente como imaginar o teu corpo em acção. Vivo de noite há demasiado tempo e por obra deste milagre já consigo ver tão bem que não me dispenso ao julgamento interior, mental, profundo, dos outros e de mim. Dos outros. Não dá para pedir desculpa pela frieza já que eu própria o faço comigo todos os dias e não consigo ter perdão de volta do eco. Sinto saudades e não sei do que sinto saudades, sinto-me injusta comigo e com a minha vida. O que estou aqui a fazer mesmo? Pronta para sair de casa mais uma vez porque saiu e porque posso sair. Estupidez minha, estou a mentir. Como se me pudesses ouvir e dizer-me as mil coisas que sou eu que tenho para dizer a par de todas aquelas que apaguei. Tenho um desgosto neste coração mas arranjo outro e se preciso for vivo com muitos. É de todo possível que em busca do que não tenho perca aquilo que me faz feliz, se eu não fosse fútil e leviana. É impressionante como não me consigo parar e como realmente não estou a avançar para os caminhos que me fazem sonhar. Preciso só de sair daqui, este lugar dá-me tantas saudades que eu não sei se fiquei no passado ou se simplesmente já tudo é tão repetido que eu não tenho pensamento para ter. Está a acabar prometo, eu não acredito nisto nem no amor nem em nada. Nem em mim, muito raramente o faço mas nem em mim, com a intensidade esporádica de uma catástrofe. Estou partida de mim. Estou longe, demasiado longe. E vamos fugir, Raquel?
"This is why I hate time"

Não, obrigada


Há tantas histórias que queria contar que me perdi. Só sonho, só me perco, só me procuro e nunca encontro. Quando acho que algo tem finalmente interesse, motivação, capacidade aos meus olhos, fico cega. Cega de mim, por mim. Sempre dentro de mim tudo o que acontece à minha volta. Algumas coisas perdem o sentido por elas, eu faço sempre com que percam o sentido para mim. Como se nada realmente existisse ou nunca tenha existido, tudo me passa em filmes, em livros, em histórias mais uma vez. Já escrevi sobre esta merda umas mil vezes. Daqui a vinte anos vou escrever sobre isto. Há pessoas que são assim, creio, vou acreditar, como eu, que já nascem tão cheias da vida. Mas eu adoro viver, estupidamente, só não gosto da vossa definição do que tenho de fazer para o conseguir. Tenho o medo ou talvez a esperança de que nunca tenha nada que me recrie para além de mim mesma. Esgoto-me no mundo que há dentro de mim, percebo as coisas a uma velocidade tão absurda que me julgo à frente do meu tempo mas a verdade, a verdade que nem tem lugar, é que não tenho tempo. Não tenho tempo para ir embora, não tenho tempo para falar o que penso, não tenho tempo para viver o que quero viver e por isso invento sempre maneiras diferentes de me afastar, de pensar o que não sou, de viver o que acho que quero. Eu não sei o que quero. E sei. Tenho tudo na minha cabeça, guardado em gavetas que não tenho coragem de abrir. São os meus pensamentos de fundo, sempre em paralelo aos assuntos de discussão, aos assuntos que agora se fala, aos assuntos vazios das conversas de circunstância, a tudo o que digo, faço e ainda penso mais. São a minha companhia antes de ir dormir, desenhados a frustação e despedidos a receio. São a minha força de manhã, sem forma, sem cor, sem definição. São as coisas que não digo a cada um que está na minha vida, parecidos com segredos mas mais graves que isso. São as palavras que moldam as que digo, sempre com sinceridade, sempre em tom de mentira aqui dentro. Aqui dentro todas as coisas são antónimas das coisas que me vêem. Estou a dilacerar-me assim acho, no entanto como é que ainda consigo enganar-me e enganar alguém. É a parte que chego à revolta. Porque é que ninguém me diz para parar? Como é que me alimentam ainda mais estes sonhos sempre em roda? Como é que não há ninguém - e já houve, só para me castigar ainda mais - que me diga os erros, a infelicidade, a tragédia, a dor da minha vida, porque eu nunca sei delas, a par das minhas vontades, das minhas capacidades. Já sei, eu outra vez. Eu outra vez a falar comigo mesma, deitada no chão do quarto, a falar para paredes vermelhas e pretas em voz alta. A dar murros na parede, a atirar-me para o chão, a imaginar mil formas de ser hoje uma coisa e amanhã outra e nunca em ciclo mas sempre a voltar ao mesmo. Já sei que devo parar. Que todas as respostas estão dentro de mim e nos sucessos que se foram desenhando em diplomas pela casa, em fotografias pelo computador, em mensagem com carinho. Eu não sei o que é uma resposta, odeio saber a verdade, e no fundo eu só queria que alguém tivesse a coragem para me fazer a questão pertinente, porque eu, eu já estou cansada de questionar o que ando eu a fazer a minha vida. Porque a verdade, a que eu detesto, é que não é nada. Quando se calhar estou só a ser estúpida porque mais ninguém vê as coisas assim. Ou eu não consigo ou eu não sei ou estou só a inventar mais uma vez uma maneira de ficar louca. Adoro a minha companhia, afinal, sempre que me lembro que não tenho interesse nenhum por aquilo que acham que devo ser, fazer, sentir, viver. E não tenho, às vezes por capricho próprio só gostava de saber como era ser como toda a gente e não me achar como toda a gente, mas não consigo, estou ocupada demais comigo e com as exigências que fiz a mim mesma, um dia. Quero só que saibam que não quero saber se não gostam de mim, se não gostam das minhas horas e se não me acham capaz de ter o que eu quero. Eu sempre achei que antes de vos enfrentar, tinha que desafiar, agredir, e confrontar o que sou e é isso que me está a preocupar agora. 

Lovers