És pouco


Vale a pena? Não tenho paciência para esperar, nunca tive. Ainda assim acabo por chegar quase sempre atrasada ou um minuto antes mas nunca tive paciência para esperar. Tomara que fosses pó, partículas deambulando pelo quarto, comigo a girar num rodopio do meu indicador atravessando um feixe de luz. Nunca tive paciência. Apercebo-me agora da minha ansiedade, analiso-me ao longe e percebo que nunca soube ter calma. Calma na alma, dizem eles. Prudência, pouco confuso pensamento, sede do que se tem. Morro de sede, canso-me ao acordar. Não tenho paciência para esperar por ninguém, nunca tive. A noção da perda, da ausência final e do tempo que passa. Das coisas que se deixaram por fazer e eu nunca tive paciência para mim, por isso vou. Vou fazer mesmo quando não quero, vou dizer mesmo quando não posso, vou embora mesmo quando não devia ir. Tomara que fosses chá de pimenta, que quem te tomasse gostasse de morrer. Numa caneca por entre os meus dedos enquanto me sento na cama de pernas cruzadas à espera da vida. E na toxicidade das pontas espigadas do meu cabelo fizesses crescer paz com flores pequenas e amarelas, e me fizesses outra vez criança. Por entre os amigos imaginários que matei e por dentro desta vontade de não ter quatro paredes para morar. E do desinteresse que tenho por ti podias contar-me histórias de livros em promoção. Que se ainda há outra coisa para a qual não tenho paciência é para pessoas que gostam de estar. Estar, estar, estar. Estar é feio e é só o que sabes fazer. Tomara que não estivesses tu. Toda a gente menos tu. Quem dera que fosses. Não tenho paciência para ti. Posso esperar por ti mas sei que não estarei à espera quando chegares. 

Daqui e teu


Um dia, no mundo, não vai chover em lado nenhum. Poderei parar de falar de cada um de vós deste modo com riso onde o nervosismo está escondido no coração, no estômago e na arte. Falar tudo, vou falar tudo como quem escreve isto e não vou esconder nada como agora o escondo. Não vou confessar às paredes de quem gosto, não vou disfarçar quem me toca à alma, as minhas primeiras impressões ainda vão ser válidas. Guardar tudo em segredo, mesmo tudo, em vez de só guardar que sei sentir. Que a pele que sempre foi tocada agressivamente gosta agora de ser só tocada, que não gelo a cara de tristeza porque estou impávida mas não serena. Um dia talvez eu morra, porque às tantas da vida nem da morte estou certa. Não vou ter mais caixas nem cartas nem sorrisos, vou ter cafés, cigarros descontraídos e vou ligar-vos. A despedir-me de mim. Do que não gosto de ser agora. Do que não quero mais ser e não sei largar. Da falsa união, da falsa amizade, do falso amor, da falsa carne. Serei eu, deitada no chão do quarto, a representar peças sem espectadores. Contigo na mente, com todos os electrões que me atravessam quando penso na tua imagem. Um dia, o céu não vai ter mais almas para encher e o inferno vai estar lotado, voltarei a encontrar-te, a acreditar no destino, a ter fé e a ter sonhos. Como um desejo enquanto sopro as velas que já não sei contar, a contar o tempo que não passe, a falar para ti como se depois de milhares de anos ainda fosse tudo igual. A instabilidade será compreendida, o caos tomará lugar, haverá movimento e toda a gente vai perceber que não são os sinais dos tempos, que não há lugar nem relógio para se ser inconformista. Será libertador perceber o amor como uma liberdade, sem definição, onde o amor não exista realmente porque nada se tem e se pode dar lugar a tudo. E eu vou estar. Todas as que sou paralelas vão estar. Sóbrias, lúcidas, focadas. Que ainda não soube ser só uma e estar em comunhão comigo. Um dia vou fugir, vou mesmo. Vou deixar de querer, de desejar, de possuir. Serei o mundo e porque serei o mundo, não vai chover. Nesse dia vou poder ficar em casa porque quero e não porque me escondo. Vou ter paredes brancas pintadas à pressa, flores pela casa porque nunca as tive, cheiro a sumo de laranja pela cozinha, subtil como será a sala pequena com um sofá para um ou dois. E para os amigos, muito espaço, muitas varandas, muita luz. Que nesse dia como hoje eu perceba que tenho de viver e não vos ligar e não vos pedir desculpa e não me despedir. Há tanta coisa que eu pedi para ter agora e não sei guardar na palma da mão. Só quero ir e voltar sempre, e prometo, voltar sempre. 

Proceder ou por ceder


"Estou cansado, é claro, 
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado. 
De que estou cansado, não sei: 
De nada me serviria sabê-lo, 
Pois o cansaço fica na mesma. 
A ferida dói como dói 
E não em função da causa que a produziu. 
Sim, estou cansado, 
E um pouco sorridente 
De o cansaço ser só isto — 
Uma vontade de sono no corpo, 
Um desejo de não pensar na alma, 
E por cima de tudo uma tranquilidade lúcida 
Do entendimento retrospectivo… 
E a luxúria única de não ter já esperanças? 
Sou inteligente; eis tudo. (...)"
- Álvaro de Campos 

Quando é que às tantas te apercebes da pequenez da tua vida, dos outros, do quanto não conheces deitada numa cama. Do quanto deixaste por ver porque tudo aquilo que assiste e que te assiste é feito uma fantasia na tua cabeça. É preciso que te toquem, foi preciso que te tocassem com afinco e fogo para te deparares com as circunstâncias da tua apatia. Estás viva, à custa de beijos que não pediste, estás viva e não tens o que viver. Nem sabes como o fazer. Assusta-te esta mera possibilidade de cegueira de não ter percebido o quanto perdes tempo à procura de uns "concordo" para o teu discurso, apaixonada por um erro de feito de demagogias e falta de coragem que sempre odiaste. Mas também estás parada. Olhas o calor que vem do outro lado da cama e não sabes se é aí que queres estar, de corpo corrompido, mas vivo, sentir a sentir-te. Faltam os lados da alma que ninguém te consegue tocar. Falta que te falem sem pedires, que ouças sem que não haja nada para ser ouvido. Já te passou a tristeza, já te passou a revolta, finalmente a apatia. A calma. A serenidade de te estares a perder. O teu fogo tem nome, a tua saudade tem cara, a tua pontada no peito ao sabor de um relógio que não sabes qual é tem uma figura. Odeias dar nomes as coisas, que se estragam, que se definem, que se estagnam, dizes tu neles. Mas há nome para o teu estado, o teu respirar mais pesado, a tua falta de apetite, as tuas insónias, a tua ausência de sonhos. Como é que fizeste isso? Como é que ao final de tanto que já sonhaste e voltaste a sonhar, deixaste de sonhar tão nova? Ou talvez tão velha, tão cansada, tão farta, tão estranha. Estás estranha até para ti mesma. Só queres porque queres fugir, ir embora, não voltar, mandar foder todos, morrer. Estás doente e sabes. Estás doente e não te curas. Estás doente e não falas. Estás doente do lado colorido do coração, da parte bonita da vida, estás incapacitada para usar o amor. Estás cega às ilusões, aos sonhos, as possibilidades. Sentes-te roubada. Ameaçada. Não sei como te sentes e não sei como te sentir na verdade. Gostava de te conseguir tocar, mostrar, transformar. Gostava que esta fosse uma vida e não um estado de coisas e de caos. Fala, faz, qualquer coisa, por favor. 

Lovers