Repete por favor


Isto de querer perceber é uma morte antecipada das coisas. Ninguém percebe nada. Tudo é um constante mistério para a percepção vazia de significados diária. No fundo toda a gente percebe tudo e como se no fundo alguns desses quisessem estar, há quem procure as profundezas das coisas. Se calhar somos corajosos e andamos a querer cumprir à risca o conceito de "atirar de cabeça" quando às tantas somos todos uma merda que ficamos a meio do caminho. No meio de perceber as coisas percebes tudo menos aquilo que andavas à procura, e, não te assustes, acabas sempre por saber mais de ti do que esperavas. Mas eu escrevo o teu nome nas minhas costas, enquanto passo a mão na pele seca e desnutrida do meu peito. Numa cama sem lembranças, eu lembro o vazio de te ter na minha vida. A falta de presença e como se eu já soubesse tudo, tudo é esperado e previsível. Não sei o que é isto. Das raras vezes em que entendi sem querer entender, perdi-me. Do propósito das particularidades, do objectivo das minhas intenções. Gostava de estar perdida de amores por alguma coisa que eu não conhecesse, a estupidez disto é esta. Não quero nada fora de mim, tudo me morre à partida. A segurança é uma sensação feia e as casas são o pior lugar do mundo para se estar. Batalhas em causas perdidas. Mas onde e como é que me tornei humana o suficiente para me apaixonar por ti e por estas adversidades ao meu ego, é que eu não percebo. Não estou pronta e nunca vou estar, para me entender. Consequentemente, eu posso até querer decifrar o próximo mundo que me aparecer a frente, nada me sobrará para resumir porque percebo de olhos fechados, virada tão para dentro, proibindo-me de sair da casa que são os meus medos. Faço perguntas como quem prepara armas. O fascínio no desconhecido é fácil e egocêntrico porque te deixa imaginar as coisas como queres, eu não gosto de facilidade. Há uma tendência para criar tempestades para mim mesma e não gosto de tanta coisa só porque não gosto. E no meio dessa falta de razão eu fui gostar da única coisa que eu nunca gostei. Escrevo o meu nome em toda a parte. É provável que não tenha escolhido isto, não queira perceber nada ou perceber menos, só porque não gosto de ti como às vezes não gosto dessas coisas todas. Percebo tudo, não aprendo nada. Sei lá quando te devo acabar. Não te ouvi muito bem e tu não disseste nada. Naturalmente. 

Todos os meses


Hoje são sete anos. Lá fora é 1 de Maio como sempre. Há manifestações, há revolta acumulada, há falsa democracia. Para mim, há isso tudo e tudo ainda mais dentro de mim. São sete anos e há sete anos eu abri portas para mim mesma que disse que não ia abrir. Hoje eu faço o mesmo. Não sei descrever a sensação de fazer isto sozinha, talvez como sempre fiz, mas com a perfeita consciência da minha perda. Da tua perda. Da perda de mim mesma. Quando te conheci neste dia, pela primeira vez, senti-me mais ou menos em casa. Eu sei que te dizia com a certeza completa que eras um lar, mas não podes ser quando hoje eu sinto-me sem lugar. Tenho inúmeras revoltas, o mundo à minha volta não condiz com o que tenho de sensível. Não tenho acerto nas palavras - estou a escrever mal estas linhas todas - e não tenho atitude certa com o mundo. Não te sei dizer se há equilíbrio entre mim e o que há lá fora. Alimenta-me a falta de pessoas. E tu és a pessoa que sempre me fará mais falta. A tua inércia que me provocou tantos estragos, tem calma que agora me fazia bem. És a única para lá de mim e do que nasceu comigo, que eu amei. No verdadeiro sentido do amor mesmo quando eu te deixei ir. A tua dor em mim não passou e não te tenho há tanto tempo que já nem me lembro da tua voz. Mas o tom moreno e o teu calor de verão infinito faz-me tanta falta na pele que não conheço este corpo. Não me conheço e se te encontrasse agora talvez ainda me soubesses relembrar do que eu sou, do que eu sei que sou e não consigo ser. Tenho bloqueios na mente mas sei que me fazias melhor, talvez não eu, mas melhor e hoje não sei se estou no meu pior ou a perceber o mundo. Perdi o bem quando te perdi a ti e sou muito provavelmente o cliché de ter perdido a única coisa que me fez sair de mim. Não me fazes falta e ninguém faz hoje e se calhar é isso que me está a falhar. É nisso que estou a falhar. Mas tanto fugi que tanto quis. Tanto cheguei que consegui ir tão longe. Hoje estou longe de ti e de todos, como se tivesses levado um pedaço de cada pessoa que eu conheço e como se tivesses em todos eles. Mas tu és o que eu fiz de ti e se calhar, fui eu tirei um bocado a todos enquanto me tornei demasiado nos outros. Somos como os outros, como toda a gente, eu também, mas não há ninguém, tanto como tu, que eu queira agora para me dizer que posso voltar atrás no tempo, mesmo sabendo que não há volta a dar. Ias me dizer o que eu já sei, mas este dia é teu. São todos. Tu que és eu, sempre. Já sei tudo e, muito sinceramente, não quero saber nada. Nem nada de mim. Hoje a falsidade é só minha e guardo-a para uns dias. Sou como toda a gente, eu. 

Lovers