Consumos


Guardas as coisas no peito, porque as consomes ou foste consumida. Deixas que te vivam a pele apartir de dentro e nunca és capaz de meter pomada nessas feridas. Relembras vezes sem conta memórias nos quadros que pintaste e detestas a maneira como passaste o pincel. E o resultado final não te interessa, repetes vezes sem conta o processo de ter de fazer, para não te disserem que não fizeste nada, mesmo que nada seja o que tu queres. Sentada no sofá, vês os mesmos programas vezes sem conta e não te sentes bem em casa nem em lado nenhum. Tens a mesma vontade nas coisas e nas pessoas, de que te fiquem para sempre mas elas vão e tu ficas sempre no mesmo grupo de gente de quem ninguém se lembra. Se soubesses amar, já tinhas amado. Se soubesses chorar, já tinhas chorado. Mas tu não vives. Não te vives e nunca te sentiste. A tua pele pela qual as mãos que passaram não te tocaram o coração, não te cabe na medida do que és e desconheces os teus músculos e a sua capacidade. Nunca superaste o teu medo e a frieza, com que partes em mil pedaços o carinho que te dão, é aquilo que te mantém viva. Sabes que podes não ter coragem para ti mas és uma heroína para o mundo. E acordas a querer mais, sempre mais e nunca sabes demais. E tens a razão como a tua escrava e és criada de ti mesma à noite. Quem me dera que fosses parecida contigo mesma e com aquilo que tens de melhor, ontem quando eras o teu pior. Guardas as pessoas no peito, porque nunca te consumiste.

Adormecer


Como é que se desiste de alguém que se ama? Não se desiste. Tu não deixas ir aquilo que te faz sentir vivo sem dar luta. Ou talvez até é suposto ter essa capacidade, já que amar é tanto. Mas é estranho que seja humanamente possível baixar os braços perante algo que tu queres mais que a tua paz. Mais do que o teu orgulho. Por isso, não se desiste. Adormeces só. Aquelas insónias terríveis de mil voltas na cama, de lados frios na almofada, são como deixar ir alguém que tu gostavas que estivesse ao teu lado na cama. Eventualmente poderás dar-te por vencido e depois de tanto tentar, podes simplesmente tomar uma droga qualquer e ir. No amor também podes simplesmente ir. Vai-te doer. Vai-te chatear saberes que vais ver alguém como saberes que não vais conseguir dormir descansado nessa noite. Mas madrugada após madrugada vai ficando mais fácil, até dares por ti a dormir bem ou a não queres dormir mais. Mas os lençóis volta e meia serão sempre os mesmos como as ruas em que se encontram. E o cheiro também nunca te vai passar, no quarto, na memória e em todos os olhares que cruzares que te ardem como o sono. E, repito, que te vai magoar. No entanto, por favor, nunca entendas como é que se deixa ir alguém que se ama, como é que se deixa ir alguém a quem contaste o que eras, como é que se deixa ir parte integrante do teu pensamento dias a fio. O teu corpo, a tua mente, o teu coração que estavam habituados, fazem o que com isso? Adormecem, eu sei, já disse. Mas todos os dias acordas e todos os dias tens saudades. Todas as manhãs queres ter vinte segundos de loucura e em todos os shots queres encontrar essa coragem. E é por isso que não deixas ir, porque acreditas em "um dia". Um dia ganhas coragem e dizes-lhe tudo. Um dia ganhas coragem e dás-lhe um beijo. E um dia percebes que só ganhaste foi distância e orgulho. E não, não adormeces mais porque te doí intensamente. Porque te revoltas com a capacidade que tiveste em não ter porra de capacidade nenhuma. E é aí que percebes, que não se deixa ir, és tu que vais e és tu que foste e só depende de ti voltar. Se ainda quiseres.

Continuas a ser a minha sorte


Eu sei que conhecer-te e ter estado contigo, foi uma sorte, mas agora estou sozinha como sempre desde que nunca mais fomos os mesmos. E a questão é mesmo estar. Eu deveria sentir-me sozinha, não neste estado de apatia que me leva para todos os caminhos para onde eu não quero ir. Eu deveria ser capaz de cruzar o teu caminho, de te olhar, de te enfrentar, mas tenho medo que percebas que nada mudou em mim. Eu tento todos os dias, mas não sabes o que ter exactamente a mesma vontade de há cinco ou dez ou trinta dias atrás, a mesma vontade de ficar o dia todo, a noite toda, com os olhos e com tudo o que é meu colocado em ti. Por isso, nada mudou. Espero o dia em que mude, em que eu acorde e já não pense em ti como quem espera que seja um bom dia, em que adormeça e não tenha vontade de te dizer que te amo e tenho umas saudades tuas que não cabem em mim, o dia em que eu, como em todas as vezes que tenho cinco minutos sozinha e um bocado de ar para respirar, não pense que gostava de te ter lá para me abraçar e dizer que vai ficar tudo bem. Mesmo que fosse mentira. E mesmo que eu conseguisse não chorar. E eu nunca mais chorei para toda a gente ver. Continuo exactamente com a vida que tinha antes de ti. Porque se me perguntarem eu não posso explicar e mesmo que soubessem eu nunca poderia colocar este aperto de todas as horas em conversas alcoólicas de cinco minutos. Por isso como te disse estou sozinha agora e choro. E não passa. A dor não passa. A respiração abafada não passa. O murro no estômago de te rires sem que eu seja a causa não passa. A ansiedade de nunca mais te poder dizer nada não passa. O nervosismo dos sítios que calhamos de partilhar não passa. Tu não passas mais por mim. E a única coisa que me deixaste foi a certeza de não saber nada de ti. E custa-me. Custa-me não te ter dito bom dia mais vezes, não ter falado mais contigo, não te ter dito mais daquilo que eu queria, não ter sido mais corajosa, não ter essa coragem exactamente agora. E fico a espera de algo que não vem, que eu sei que não e que ainda assim não consigo esquecer. E não esqueço, aliás todos os dias é mais forte, todos os momentos que eu fiz questão de gravar na minha memória. Quando ficava a olhar para ti na cama e tentava gravar o teu rosto. Quando acordava e tentava gravar a tua cara de sono. Quando te rias e tentava gravar as tuas bochechas. Quando te tocava e tentava gravar a tua pele. O quanto era macia e até a cor eu decorei. E os teus ombros que tentei guardar sempre com imagens novas na minha cabeça. Porque era lá que eu me sentia bem. Daqui a um mês eu vou lembrar, daqui a dois, daqui a três, tanto faz, eu vou sempre lembrar os teus lábios, os teus beijos, a tua calma. O teu cheiro. O teu sabor. A tua voz. O teu sorriso vezes sem conta. As razões pelas quais eu me apaixonei. Também aquelas que te levaram daqui. Que eu não entendo, que não batem certo. Que eu gostava de odiar, mas que só consigo pensar que é impossível teres mentido este tempo todo. Não está bem, nada está bem aqui, mas há coisas mais fortes que eu tanto como mais fortes que tu. Que não é assim simples quanto isto. Que não me ouviste, que não me ouves, porque há quem te fale mais alto e não a meu favor. Que eu não tenho absoluta certeza de nada e não posso crer. E que a única que me sobra era que eu te amava tanto como hoje. Tanto como vou amar amanhã. E que tu não escolheste ficar com isso e que eu nem sei se foi uma escolha tua. Só tua. E foi por isso que eu não escolhi insistir ou mostrar-te seja o que for para ficares comigo. Mas sinto-me amarrada, não a algo, não há nenhuma história, não a ti, mas em mim mesmo por não conseguir mostrar-te isso. E isto. E não posso permitir que os meus dias passem por passar assim porque eu não sei o que faço. E eu nunca vou saber realmente. E se te questionas porque ando com o mesmo à vontade de antes, porque sorrio e porque não te digo tudo isto é porque sei que não vale a pena. Não vale a pena contar-te porque não vale a pena tefr o que não é nosso. E eu sempre te quis. Desde o primeiro dia quis. Quis sempre dizer-te tudo e agora nada. Quis sempre ficar contigo. E era verdade tudo o que te dizia e é verdade que eu acho que somos muito mais que isto e que as nossas decisões baseadas em coisa nenhuma que valha realmente a pena. E um dia quando todo este amor me passar, talvez seja o dia em que eu te diga que era assim que eu sentia tudo. E talvez possamos ser mais que dois estranhos porque nunca foi essa a intenção e poderiam ter sido todas menos essa, quando eu me preocupo tanto contigo. E até lá vou gostar de ti e mesmo longe vou sempre querer saber de ti. E sentir a tua falta mais mil horas e perceber que não devia ter guardar na minha memória todos os teus pormenores, mas sim tudo o que sinto por ti. E uma última vez, espero que saibas que te amo e que posso parecer ou fazer seja o que for, mas escolho amar-te em silêncio porque amar-te, como te disse cem vezes, continua a ser a melhor surpresa da minha vida. E um dia, mesmo que não seja juntos, temos que ser felizes. Porque agora nem eu nem tu somos. Espero que sim e é, depois de ti, o que eu espero mais, mesmo que eu não te entenda e tu não me entendas também, espero que sejas mesmo muito feliz. Porque eu ainda gosto tanto de ti, príncipe. 

Diverte-te


Tu roubas-me as palavras, podes dizer isso, e a única que eu gostava de te dizer é adeus. "Merda, merda e merda". É só o que me apetece gritar. Não consigo. Como não consigo evitar estar contigo mesmo sabendo que não vale a pena o esforço. "Vou-me foder". E apesar disso nem magoada vou ficar. Porque não dá, eu sou de falar coisas bonitas, não de as ouvir. O que me dizes sai-me a mil. Nunca acreditei no amor de declarações exuberantes, mas sempre o vi como uma manifestação. Como um acto involuntário tanto como a medida em que amas. Não da boca para fora, nem de corpo para dentro mas sim como um gesto de tudo o que és em tudo o que fazes, sem pensar porque amar é ser louco. É assim que o vivo. Não esta loucura de ser cego porque não se quer ver. Já tive a minha dose de romantismo. Quero paixão. Quero isso que não se muda nem se mente porque algo não nos deixa fazê-lo. Se tu me amasses, se tu me quisesses por inteiro, tinhas. Se tu me amasses de cada vez que me vês, não conseguias ficar aí. Porque gostar de alguém assim nunca vai ser sereno. Por isso só posso entender que tudo o que dizes é só isso mesmo, dizer. E o que tu queres não sou eu, é a ideia desse amor que podes contar com pormenores, enquanto me dás duas de letra. "Mas dás o caralho!", porque podes dizer o que quiseres, se me queres enganar, conquista-me primeiro. E estás a perder-me porque o amor não se faz por mensagens nem na cama. Tu não me amas porque nunca és tu que te revoltas com isto. Sou eu. É a mim que me magoa e irrita e tira do sério. E eu não vou ficar à espera de algo que só vem quando é conveniente. Porque às vezes sou conveniente para ti. Como é que eu sei? Porque o que tu dizes nem é falar. O amor sente-se, faz-se, vive-se, não compactua com meias palavras, meios olhares ou actos inexistentes. Por isso quando me quiseres amar, eu ainda vou lá estar. Enquanto isso não me peças que alinhe nisto porque já nem tu és igual, porque todos os dias, mais um pouco, ou és tu que já não me queres enganar ou sou eu que já não acredito em ti.

Lovers