O teu cheiro


Estava um cheiro tão forte a chocolate, café e lenha naquela casa. Tinha-te comprado morangos mas não quiseste e por isso fui fazer o meu café favorito na manhã seguinte, na tentativa de me acalmar e entender porque não quiseste os morangos. Tu adoravas. Fui até à praia, fiquei com os pés tão gelados mas voltei descalça. Ainda estava muito nevoeiro quando entrei em casa e eu tinha-me constipado em dez minutos. Tentei que não me ouvisses entrar mas quando fui ao quarto já não estavas lá. Fizeste-me a cama com lençóis novos. Os teus favoritos, cinzentos claros e cheirava tão bem. Tinhas aberto a janela e agora já estava sol. Tentei encontrar-te pela casa e nem sinal de ti. Vi um bilhete no espelho da casa de banho: "Volto já. Comi os morangos ao pequeno-almoço!". Não estavas perdoado mas fui tomar banho mais descansada. A água quente queimava-me a pele e senti-te entrar em casa. Vieste dar-me um beijo no meio daquele vapor todo e ficamos por lá. Tinhas feito o meu bolo de chocolate para dias especiais e eu perguntei se me tinha esquecido de alguma coisa, tu sorriste e disseste que só me faltava dizer-te "bom dia". Mas eu tinha-te dito enquanto te via dormir naquela manhã. E às vezes quando passo os dedos pela boca ainda sinto o sabor da tua pele dessa vez. Eu adorava beijar-te enquanto dormias e tu respondias com cocegas. Era tão puro e não tínhamos grandes conversas. Tu fazias tudo para me ver feliz e fazia tudo para te dar o que merecias e nada menos. À noite estava sempre um frio enorme e tu acendias a lareira, eu adorava ver o teu cabelo, os teus olhos, as tuas bochechas contra a luz do fogo. Podia ficar a olhar para ti para sempre e sentia-me em casa. Como tu me prometeste, fazer-me sentir em casa. Adormeci todas as noites e acordei todas as manhãs a pensar em ti e nestes dias desde que partiste, porque tu realmente nunca me deste nada disto e um dia eu vou sentir o teu cheiro por todo o lado, eu sei que vou e mesmo que eu saiba que não será como café e chocolate, mesmo que seja como tabaco ou flores, vai ser como se eu tivesse vinte anos.

Cooler than me


Tentei encontrar o meu batom por todo o lado. Eu nunca o perco e era a prova que eu bebi demais. Estava um gelo por isso roubei uma camisola qualquer tua. Não, admito não era uma qualquer. Era a minha favorita. Ok, admito não fui isso que eu roubei. Foi o casaco vermelho. Adorava ver-te com ele, fazias-me lembrar um daqueles jogadores de futebol americano que aparece nas séries da mtv, ou assim. Mas à tua maneira sim. A maneira que tens para fazer tudo tão teu. Como quando te ris com uma cara parva qualquer que inventas na hora para se lembrarem de ti como o mais engraçado. Mas não interessa agora, perdi mesmo o meu batom e espero que o encontres. Usei de propósito para ti e fiquei sem saber se gostavas. Era cor-de-rosa já agora e eu tenho a certeza que me ficava mal mas quis arriscar. Como se já não fosse risco suficiente beber mais dois shots que o normal para falar contigo. Não, beber não é o risco. É ter falado contigo obviamente. E não me perder no meio da conversa. Agora que penso, perdi-me sempre e não me lembro de nada que me tenhas dito. Por isso, talvez em outra vida eu te possa ouvir ou conseguir ter uma conversa contigo sem me lembrar que te roubei alguma coisa. Mas eu tinha que ficar com o teu cheiro e tu nunca mais podias sair com aquele casaco porque eu tinha medo que vissem o que eu via quando olhava para ti. Eu adorava ver-te entrar seja onde for com ele. E lembro-me que a primeira vez que senti borboletas estavas com ele vestido e se calhar agora que nunca mais vais poder usa-lo, eu vou esquecer esta paixão. Mas não, ter perdido coisas em tua casa foi uma moeda pela outra e até o cheiro a tabaco me lembra dessa noite agora. E se eu te pudesse explicar que a minha vontade é levar-te para a primeira esquina. Tu sabes. E sei, eu sei, que ias achar atrevido demais mas desde daí desses mil shots errados, eu sinto falta de te tocar e queria mostrar-te. Tu és tudo o que eu sempre quis e quando eu estou contigo não me sinto insatisfeita e isso é estranho. Quer dizer é estranho por ser tão incrível, não sei se me entendes. Eu satisfeita tem tanta piada. E, definitivamente, devia dizer-te isso mas deixa lá, tu ias achar que sou ainda mais louca. E não pronta. Bem e nisso concordamos. Porque tu sabes tanto a vicio e a noite que é impossível ficar serena ao teu lado e apesar de todos os meus esforços, eu perco a vontade toda de usar batom ou roupa sequer quando te vejo. E passo tempo a espera, a espera e a espera que já sei. Já sei onde meti o batom, lembrei-me. E de repente já não estamos mais quites, mas ficamos assim certo? Eu roubei-te o casaco, tu roubaste-me o coração.

Não contes a ninguém


Liguei-te para dizer que estava com saudades tuas. Desliguei logo a seguir. Peguei no telemóvel outra vez para dizer que sinto a falta da tua voz. Que queria ouvir por ela a verdade. Não consegui. Tentei. Tentei escrever-te algo bonito, só me saiam frases estreitas, por isso sentei-me e tentei ficar calma. Não sentia isto à muito tempo, começou a arder-me o estômago, depois os olhos tanto como tinha o peito colado nas minhas mãos frias. Estava gelada. Cheia de calor, mas gelada. Estava aterrada com o que me passou pela cabeça, não suporto saber. Agora mesmo tentei escrever-te uma mensagem, não deu. Não lembra a ninguém falar-te disto a estas horas ou mesmo por este meio. Não me cabe na cabeça. Não  me apetece também. Acabo sempre por lutar contra mim e acho que sei de cor o som das mil mensagens que já me mandaste. Nunca te consigo responder com carinho porque estou aqui a tentar manter-me de pé. Quem me dera que me abraçasses agora mesmo. Mas, espera, não fujas de mim. Enquanto estás aí não vás e mesmo que o faças, espera só uns minutos, por favor. Tenho mesmo estas coisas para te dizer e queria mesmo dizê-lo pessoalmente mas não me sai nada, estou apavorada. Sabes disseram-me que era normal porque da maneira como me conheciam eu nunca tinha sentido nada assim. É verdade. Assim não. Sabes como eu gosto de ti é como estar nas nuvens, não te sei explicar. Já te sentiste parvo e a sorrir sem razão muitas vezes se calhar, mas esta é a minha primeira vez. Sabes como eu gosto de ti é como voltar a mim vezes sem conta e nunca me conhecer ou como uma grande viagem ou uma enorme aventura. Sabe tão bem encontrar-te ao final de dias e dias a caminhar. Eu gosto de ti como de ir à praia no inverno, como de ver filmes, como de ouvir música clássica, como ficar na janela do meu quarto a ver a trovoada mesmo cheia de medo, como escrever cartas sem destino, como colocar perfume, como ficar mil horas no banho. Sabes aquelas coisas boas todas que tu fazes e te sabem mesmo bem? Quando estou a fazer as minhas gostava de te contar e ver-te rir por eu ser tão simples. Eu gosto de ti quando vou dormir e imagino-te comigo e gosto de ti quando sorriu e imagino que talvez te pudesses apaixonar pela forma como eu o faço de olhos fechados. Eu gosto tanto de ti como gostava de ter aqui para me ouvires. Ouvires que eu não tenho nada para te dizer porque não há nada que eu consiga contar-te que já não tenhas ouvido antes mas que ainda assim eu gostava de ter uma história contigo. Não tens noção como eu gosto de ti e nem sequer é gostar. E era isso que eu te queria dizer, que nem sequer é gostar. Liguei-te mas desliguei, mas liguei-te para te dizer que sim, que eu te amo.

Nunca vais ser doce


Princesa, foi contigo que aprendi a gostar de bolachas maria, quando vinhas para a minha casa horas a fio e ficávamos debaixo do meu coberto velhinho. Com café, forte, comíamos os pacotes que houvesse e de manhã fazia-te sempre torradas com o mesmo amor que te dei a noite toda em beijos e corpo. Apetece-me estar outra vez naquela casa que alugas-te para nós e onde senti que me amaste pela última vez. Éramos mesmo os melhores amigos, riamos tanto. Eu gostava de subir tudo o que houvesse para escalar contigo sempre a gritar o meu nome e a dizeres "espera, eu vou ver primeiro". Eu nunca tive a noção do perigo. Em nada. Às vezes apetece-me experimentar tudo e outra vezes tenho medo. Como contigo quando te experimentei, como agora que não estás aqui para me dar chocolates. Lembras-te dos estalos que te davas, dos beliscões que me davas a mim? Aposto que sim. Nós estávamos sempre à luta, mesmo quando não estávamos a discutir. Nunca pensei que depois fossemos mesmo abrir uma guerra, mas antes disso nós acabávamos sempre a fazer amor. Em todo o lado. Era assim que nos entendíamos já que não havia muito para conversar. Nunca leste os mesmos livros que eu e nunca quiseste saber como andava o mundo. Não tinhas opinião sobre nada e eu tinha sobre tudo. Mas os meus amigos adoravam-te, não entendo. Todos ficaram tristes por termos deixado de ser felizes. Eles adorariam qualquer pessoa porque são pessoas doces, mas de ti gostavam mesmo. Ainda hoje eles me perguntam por ti e é tão estranho, mas como antes, não tenho muito para dizer sobre ti. Nós sempre fomos feitos de silêncio, a todas as horas. Uma vez disseste-me que eu sonhava pelos dois e que um dia me recompensavas com um grande discurso. Eu sei que apesar de tudo e apesar de saberes que eu sou assim sem lugar para estar, tinhas grandes planos. Quem me dera que também tivesses a força para me domar. Com a mesma vontade que me fazias pequenos-almoços e perguntavas o que queria fazer naquele dia. Contigo ia a tantos e tantos lugares. Uma vez olhei para uma montanha e disse que gostava mesmo de ir lá acima e tu levaste-me. Foi complicado encontrar o caminho mas chegamos. Não foi como nós fomos para nós mesmos, mas tu fizeste um esforço nessa altura. Eu achava piada a tudo lá, às flores principalmente e tu dizias que querias voltar para fazer piqueniques, mas nunca mais voltamos. Nem às cascatas. Nem aos rios. Nem ao mar. Um dia até te salvei do mar. Tantas vezes te salvei e nunca me salvaste realmente de nada, nem de mim, nem deles. E quando me magoaste tanto durante um ano inteiro, nunca te perguntaste sobre as promessas que fizeste mas eu adorava ver-te mentir. Agora até sorrio ao imaginar a minha inocência e como a perdi para nada. Deixei de olhar para as flores, deixei de subir montanhas, os sítios onde vou têm que ser o mais longe possível para não te sentir e a única coisa que guardei de ti foi o hábito parvo de beber leite antes de ir dormir. Hoje até falei contigo sem saudade e disse-te mesmo que não aguentava mais ter-te na minha vida. A minha memória de nós é doce, como podes ver, mas o que tu me fizeste sentir é que não, Rainha.

Nem sempre é paz


Tu cansas-me. Já tentei entender tudo, como chegamos até aqui, como é que tudo é tão bonito e como é que tudo consegue ser tão calmo quando eu tenho tanto e tanto oxigénio aqui dentro preso quando me prendes a respiração com as tuas palavras, com o teu toque, com o teu olhar escuro, com a tua doçura. Todos os dias me arrependo. Dos meus passos, da maneira como te olho, especialmente da como te vejo. Eu tenho a ideia de estar a viver uma fuga tua. De mim. Um daqueles sextos sentidos que quebras com vinte palavras, está cada vez maior. Quando me dizem que tenha calma, há uma voz que me diz que não. Que não é assim. Que não devia ser cega. E tu sabes que é ela quem tem a razão. Sabes que me vais magoar com todas as letras e com toda a certeza, a única que não tens para tudo o que eu sou porque não me consegues decifrar igualmente como não te consigo a ti. E ambos sabemos como isto acaba. Com uma manhã em que desapareces e uma noite que me fazes chorar depois de quatro copos. E tenho tantas saudades de quando não te conhecia, nem a ninguém, e agora só não me conheço a mim. Eu costumava ser segura e ter a certeza do que queria e única coisa com que fiquei foi esta vontade de tudo. Não, não me perdi. Ainda tenho um mundo inteiro dentro de mim. Mas aquilo que eu mais queria agora era que este formigueiro me passasse, este de quando não me consigo concentrar e este de quando tenho a certeza que me enganas em todas as dimensões do que és. Eu não confio em ti e talvez nunca o vá fazer, mas gosto de ti em cada pedaço do que me mostras. E agora sentada aqui, onde poderias estar, tenho a certeza que me estou a deixar ir para um caminho sem volta. E tenho saudades, não de ti nem de nada, só do que poderíamos ser. Eu não consigo aceitar, nunca o vou fazer verdadeiramente, goste de ti o quanto eu gostar e é por isso que nunca te vou contar a verdade tal como ela é. Podem saber todos menos tu. Este gostar custa-me os dias, as noites, as tardes, as conversas, os pensamentos, a paz que tanto vai como vem. Sim, se eu pudesse eu não gostaria de ti e nunca foi a minha intenção, mas ainda que não possa ter escolhido gostar de ti, posso escolher não o fazer na prática. Não porque tu me cansas, mas porque nós sabemos que nunca me poderás deitar e proteger de todas às vezes que eu precisar. Não é o que tu és. És? - (Dos rascunhos que nunca cheguei a publicar). 

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