Todo o dia


Às vezes custa-me a tua inconstância, a tua inconsequência. Não entenderes que eu sou confusa demais para gostares de mim sem te magoares. E não porque eu queira. Custa-me entender que nunca vou conseguir acreditar no que me dizes e não sei se me custa mais por ti ou por mim. Eu que fiz tempestades toda a minha vida, estou calma contigo, sempre corri atrás do que queria só para mim, tenho medo de correr atrás de ti, eu que sempre fui assim sem meios termos, agora tenho-te aqui deitado ao meu lado. E tudo o que o que fui até te conhecer não fui mais. Tudo o que eu achava que procurava, eu não me lembro mais. Nunca mais senti nada desde que te encontrei. A sensação que tenho é de estar adormecida e ser acordada com beijos leves nas bochechas, mesmo quando não estas e até aí eu tenho sorrir para me sentir viva, com a esperança que ainda assim a quilómetros de distância sintas exactamente o mesmo. Tudo em mim ficou mais sensível e tenho alergia à chuva, tenho alergia ao sol e só estou bem deitada em lençóis brancos. Só gosto do teu cheiro, só gosto de ti. Todo o dia, só gosto de ti. E é por isso que me custas a entrar, a entranhar, a aceitar. É por isso e por não te ter aqui. E podem passar mil horas, eu nunca te digo o quanto me fazes falta como agora, agora mesmo. Como se fosses a solução para todos os meus problemas, como se me viesses salvar da confusão que tudo se tornou a minha volta. E sim, quando me questiono o porquê de gostar de ti assim, eu consigo respirar e sentir o meu peito e tenho aí a minha resposta. Tudo o que me trazes é movimento e o único passo que não consigo dar é exactamente aquele vai ao teu encontro. E se, ainda assim, eu espero, podes ter a certeza que me custam inúmeras coisas mas são quase tantas como aquelas que eu aprecio e sim eu sei hoje que um dia será. Continuo a dizer que foi o que me disseram.

Tudo em ti


Era tudo isto que eu te queria dizer ontem: não sabia que era possível sentir paz e medo ao mesmo tempo. Não até te conhecer. Não até perceber que para lá daquilo que eu esperava, eu sinto a tua a falta. E até perceber que eras diferente. De tudo. De tudo o que já vivi, conheci, gostei. E sim, já deves ter percebido que para mim não é fácil reconhecer. Mas é deste silêncio que vem a paz que me faz gostar de ti. Eu gosto mesmo de ti. Do teu sorriso mesmo quando nem sequer faz sentido. Dos teus olhos que ainda não sei de que cor são e das tuas pestanas não sei porquê. Da tua boca porque é suave e a minha não. Da tua cara quando estas de olhos fechados e calmo. Gosto das tuas falhas no cabelo e gosto que ele seja tão escuro. Como gosto da tua pele também mais macia que a minha. E gosto das tuas mãos nela e por terem o tamanho exacto para eu me sentir bem. Gosto quando me tocas e eu sinto que vou ficar com as tuas marcas. Gosto dos teus braços, do teu peito e de estar neles. A minha parte favorita é o teu pescoço, mil vezes. E gosto de outras coisas, como o teu cheiro, a tua altura, a tua voz, as expressões que usas. Quando não te percebo e por isso não percebo como vi tudo isto em ti, quando nem imagino sequer o que pensas e quando, ainda assim, queria que estivéssemos na mesma frequência. E, às vezes, quando acertas no que eu queria dizer. E estas mesmas coisas que me prendem, que me fazem ir até ti, são as mesmas que me fazem querer fugir porque um dia eu vou adormecer com saudades e quando acordar além de gostar de ti, vou gostar de mim, contigo. E essa é a única coisa que eu não gosto em ti: gostar de tudo em ti e não saber nada. E ainda que não conheça todas as tuas partes, eu nunca esperei gostar tanto. 

Sabes a tempo


Tu cheiras a primavera, naqueles dias de nevoeiro quentes. Tu sabes a um gosto suave na minha pele, tanto como me sabes a paixão. Tanto quanto és leve com vontade de não ser. E a tua respiração é como a chuva e a paz dos teus olhos é uma guerra imensa em mim. E eu não consigo não gostar de ti. Eu queria não sorrir, mas quando tu chegas só me sai a voz mais doce e quando falo de ti, toda a gente sabe que és tu. És tu que me sabes a doce, a férias, a sono, à minha roupa favorita, aos meus lugares secretos, ao que mais gosto de fazer. Que sabes a todas as músicas calmas que ouço e as outras violentas que são para mim como tu és, sempre inesperadas. Tu sabes a noites em claro, a dias desconcentrada, ao prazer de estar em sintonia com o mundo sem que lhe dê nada. Eu não poderia ter escolhido qualquer um ou qualquer outro, quando tu estavas aqui. Gostava de poder contar-te sobre como também me sabes a amargo por isso, por não ter entendido que era alguém como tu que me faltava. Todos os dias sou feliz, mesmo quando me travas o paladar, o cheiro, os sentidos todos. E eu tenho a certeza que estou apaixonada por ti. Pelas tuas mãos, por saber que mentimos um ao outro para nosso bem, por saber que somos verdadeiros porque não conseguimos ser de outra maneira. Quando és tímido, quando não és. Quando me dizes que sim ou que não. Tanto faz. Eu nunca conseguia não gostar de ti quando me fazes sentir o melhor das estações. O frio no estômago, o calor no coração. Mas tens tanto disso que não te posso pedir que fiques ou que me protejas sempre porque também és vento. E sim eu também gosto que não te possa exigir nada. E agora sabes-me tão mal e tão bem que não quero que acabes, que vás, que desapareças. Promete que ficas e promete que ficas quatro estações comigo. Se eu me apaixonar por cada uma delas, dá-me um beijo tal como o sol porque tens o gosto dos melhores dias que já vivi.

Recovery


E rapaz, eu esperei por ti o dia todo, o mês todo, o ano todo, a vida toda. Para me falares, para me notares, para me amares, para apareceres. Hoje sonhei com os teus olhos mil vezes e só os teus olhos fizeram o meus lençóis saírem do sitio, imagina só se sonhasse com o teu corpo. E com o meu. É nisso que és especial, sabes mesmo manter-me aqui. Eu nunca desejei tanto alguém que não tivesse antes e esperei a vida toda por isso. Por alguém como tu que aparecesse do nada e que eu sei que nunca vai ser mais do que isso, no fim. Eu imagino-te por trás de mim a agarrar-me o cabelo com a mesma força e com a mesma atenção que me beijas. Nunca te imagino suave e nunca e imagino menos que o melhor a pegar-me ao colo. E não é para embalar-me o sono, contigo tenho a certeza que não dormiria um segundo. E se adormecesse seria de cansaço. E se me acordasses ficaria cansada mais uma vez. Esperei a vida toda por estas borboletas, com paz. Por este desejo, com guerra. O dia que ardermos acho que o mundo todo vai ouvir, na minha cabeça vai ter a dimensão de um tornado, no teu corpo espero que seja um vulcão.
Eu não quero que me ames, eu nem saberia fazer isso mesmo que nos soubesse bem. Eu só te quero para mim, só para mim. Sempre que eu quiser, sempre que me apetecer. Em cima, por baixo, de todas as formas. De manhã, à tarde, à noite. Podes mandar, podes ligar e podemos esconder-nos. Podemos passar o dia na cama. Podemos nem nos falar no dia a seguir. Mas a qualquer hora promete que estás pronto para as minhas fantasias, acho que sempre quis alguém como tu para me as realizar. Eu digo-te sítios, palavras, conto-te histórias, visto-me para ti, deixo fazeres o que quiseres, no fim eu não te dou prendas, não faço surpresas mas vais sempre ter o que nunca te vais esquecer. Preto vais ser a tua cor favorita. Cabedal o teu material. Se te perguntarem o que é sofrer, tu vais sorrir. E no fim, tu vais esperar o dia todo, o mês todo, o ano todo, a vida toda, para mais uma vez me encontrares. E talvez, um dia, nos encontremos de peito junto, só num abraço.

London by your eyes


Eu sinto tanta falta daquela cidade. Da chuva certa e do ar que não nos deixa respirar. De andar perdida e de alugar bicicletas de meia em meia hora para conhecer as ruas mais pequenas. De falar uma língua diferente cheia de medo mas com a certeza que de que chegaria onde queria. E de sorrir para toda a gente porque nunca mais as vou ver. De ser tudo tão diferente que me sentia igual a todos. Tenho saudades de acordar sem janela, num quarto minúsculo e comer bolachas o dia todo. Tenho saudades de correr para o metro só porque queríamos chegar primeiro e tenho saudades de te ver chegar para me vir buscar à porta da escola como se aquela fosse a nossa cidade a muitos anos e de me contares o que viste enquanto eu estava fechada numa sala a ser feliz. Tenho saudades de detestar toda a comida que experimentamos e ter cheiros bons a fazer-me lembrar de casa mas sem que eu tivesse vontade de voltar. De apanhar autocarros vermelhos sem saber muito bem para onde. Outra vez a chuva que sabe melhor do que em qualquer outro lugar do mundo. E acordar já sem tempo para nada sabia tão bem e os banhos compartilhados na casa de banho mais pequena do mundo. Todos os segundos, exactamente todos, eu lembro-me e sinto como se tivesse lá, o sabor bom de poder estar lá contigo e sabor amargo de saber que nunca mais ficaríamos juntos assim. Doce mesmo foi encontrar-te num museu perdido, como se não nos víssemos a anos e sentir que não interessava quantos anos passassem, íamos pertencer aquele lugar. Agora eu queria voltar lá, sozinha, e ver aquilo sem os teus olhos. Ter novas memórias. Ver as linhas todas de metro que não fizemos, os jardins que não percorremos, descobrir mais casas, mais museus, mais arquitectura. Ver mais arte, entrar em mais sítios estranhos e trazer todas as coisas que achei engraçadas antes. Ver muita muita luz e sentir tudo ainda mais. E quem me dera que não tivéssemos conhecido tanta coisa juntos, agora que não estamos juntos e o meu lugar favorito no mundo é também a memória tua que mais me custa apagar. Mas voltava e vou voltar. E tu dizes que talvez estejas lá. E embora tenha saudades tuas, nunca mais te vou querer encontrar em Londres.

Boa noite


Se não for hoje, um dia será foi o que me disseram. E eu tenho a certeza. Tive-a desde o dia em que te vi de olhos bem fechados. Estavas a minha frente e tinhas tudo o que eu não precisava naquele momento e eu tinha tudo para te desfazer as certezas. Tinhas acabado de jurar que nunca mais te apaixonavas e eu tinha acabado de lembrar que não era feita para amar. Acho que esperavas tanto isto como eu. Acho que os dois tentamos não falar um com o outro dias depois de nos conhecermos assim. E ainda hoje, todos os dias, tu não me mandas mensagens nem eu a ti mas pensamos um no outro. Eventualmente acabamos por nos ver e sempre que te vejo tenho mais a certeza, tu és o que queria conquistar e dizer a toda a gente que sim, que não podíamos mas que o fizemos. E eu gostava de poder falar contigo, escutar a tua voz, estar ao teu lado, e não lembrar-me nos teus braços e sentir os teus lábios tão nitidamente e depois disso, gostava de não perder-me nos diálogos, de ficar sem palavras porque me perco no teu sorriso. E eu nunca quis apaixonar-me por ti, tu achas mesmo que isso será impossível mas eu gosto de tudo em ti, em segredo. Tudo o que tu és era tudo o que me traria paz agora. A tua doçura nem está na maneira como me tratas e o teu encanto não está nos teus gestos, está no imprevisto de tudo a tua volta. Na maneira como eu não te posso prever nem obrigar a nada. No jeito que eu espero e nunca me canso de esperar. E é por isso, que eu sei que um dia será e eu não vou fazer para que seja, tu também não, desde o primeiro dia que nós sabemos que vai acontecer e nesse dia eu contamos todas estas histórias. Porque desde o primeiro segundo, nesse mesmo instante em que cai sobre ti e tu me agarras-te, eu soube que nós íamos cair mil vezes mais. E não estás agora aqui para me ouvir a falar de ti mas se ouvisses saberias que tinhas razão em sentir o mesmo, que nós não temos nada em comum mas tudo nos liga, que nós somos o verão e o inverno, que nós somos o preto e o branco e que passem os dias que passarem só haverá um que nunca vamos esquecer: aquele em que dissemos "bom dia".

Podíamos ser amigos


Eu podia ver todos os teus passos e consegui ver cada hesitação. Com luz, sem luz, sempre senti todos teus passos e eu dizia que eram em minha direcção. Não eram. Mas um dia acordei ao teu lado. E acordei outra vez e outra. Eu lembro-me dos flashes e das camisas brancas, das cores azuis e das músicas. Lembro-me da tua mão a volta da minha cintura e lembro-me dos teus olhos de quem sabia que a nossa história não ia acabar bem. Ainda assim tu pegaste-me ao colo e tiraste-me todos os dias de todos os sítios onde eu estivesse, todos eram multidões e se não conseguiste mais vezes, eu sabia que os teus olhos me iam tocar até de manhã. Já tinha passado da conta aquilo que eu tinha bebido e pesavam-me as pálpebras, depois os joelhos, nessa noite pesava-me a consciência. Tu deitaste-me na tua cama e tiraste-me a roupa, não senti frio nenhum juro. Mas senti a tua mão enorme a passar-me a mão na barriga e se eu tivesse força, chateava-me contigo porque detesto isso e tu sabes. Deves tê-lo feito para eu ficar mais sóbria, mas eu não queria olhar para ti. Não queria mesmo que soubesses que eu não estava disposta a alinhar seja no que for, que eu te enganei e que fiz só o que me apetecia. Por isso esperei que ficasse dia, que adormecesses ao meu lado preocupado e escrevi-te um bilhete a desejar-te um bom dia e com o conselho de que nunca me quisesses perguntar porquê. Nunca quis magoar-te. Fui-me embora e todas as noites evitei todos os sítios onde estivesses. E às vezes choro porque gostava de gostar de ti da maneira certa e choro porque tu sabes que eu me vou magoar mas que podes fazer com uma pessoa como eu. Nunca lidaste com isso e disseste que ninguém me conseguiria amar só uma vez, uma única, como eu queria que tu fizesses comigo. Eu e tu somos diferentes de tudo o que já conhecemos. Eu nunca vou gostar de ti por inteiro, tens tudo o que eu detesto mas fazes-me adormecer, e tu nunca vais gostar de mim por inteiro, porque eu abalo as tuas certezas e invado-te as vontades. Mas eu nunca vou gostar de ninguém assim e tu sabes que passe o tempo que passar isto vai sempre incomodar-nos as noites, as amizades, as opções. E ainda assim tenho saudades tuas. Nunca me deixaste mas eu tenho saudades tuas. Das tuas mensagens de bom dia e de boa noite. De ficar no teu ombro. De pedir-te para me levares para casa. Da incapacidade de me dizeres que não. Se nos encontrássemos noutro dia, tenho a certeza que seriamos só os melhores amigos do mundo e tenho realmente pena que nunca consigamos ser apenas isso, mas vou guardar-te para sempre em segredo, prometo.

Nós nunca


Gosto que não estejas, quando não estás nos mesmos sítios que eu e só consigo pensar em ti. Gosto da ansiedade que não me impede de nada, quando não respondes as minhas mensagens. E gosto que nunca me tenhas ligado para nada realmente importante que não aguentasses esperar para dizer no dia a seguir. Quando tu não olhas para mim, quando tu não queres nem saber, quando só me cumprimentas com um sorriso, é quando eu gosto de ti. Tudo o que eu consigo pensar é o teu olhar na escuridão. É o teu sorriso no meio da multidão. É que eu queria estar contigo e não posso. E às vezes apetecia-me contar-te tantas histórias sem nexo, só para te ver fingir que me ouves. Abraçaria o mundo inteiro, menos tu. Beijaria outro tanto e nunca esqueceria o teu beijo. Quando tu existes na minha vida, é quando eu tenho medo. Quando eu só penso que nós podíamos arder, é quando eu sei que não era suposto. Às vezes sinto esse frio quando não nos cruzamos que eu não sinto quando estou ao teu lado e é por isso que não te digo nada, dás-me paz e eu não quero. Estando longe de mim é quando me fazes mais feliz porque eu não posso me apaixonar por ti e tu tens tudo o que eu queria. Tu és alguém por quem eu sorriria o dia todo só que não dá. Hoje não dá, amanhã não dá, nunca vai dar. Apanhaste-me no dia errado por seres demasiado certo. Mas comigo não dá, tu sabes,  de todas às vezes que falamos tu deves saber que eu sou desconcentrada demais para dar, tenho quase a certeza. Tu deves perceber o meu incomodo quando estou ao teu lado e já deves ter visto que nunca quero falar contigo sobre coisas sérias, que me levem a pensar que estás disposto a ouvir-me. Nunca estejas, nunca. O dia que tu me ouvires, o que dia tu leres isto e perceberes que é para ti, ainda que não precises de me perguntar, nem caias nesse tentação sequer, tu vais abrir portas proibidas. Não caminhes na minha direcção, se me vires a vir muda de rua. Ainda que eu vá ter contigo num raro acontecimento. Ainda que aches que eu sou louca por pensar assim. Ainda que entendas que eu só preciso de ser calada. Ainda que te sintas capaz. Quando eu gosto mais de ti é quando eu sei que nunca me vais querer todos os dias, nem acordar a pensar em mim, nem pedir-me nada único. Eu gosto tanto de ti agora que me estas a ler que um dia quando te contar disso vais-te rir e eu não vou gostar mais. Mas eu gosto de como és e tinhas tudo para eu gostar de ti ainda assim. Eu quero-te tanto que nunca te vou querer, por isso tem calma comigo porque eu já tenho medo pelos dois.

Lovers