Lição de Mulher




Sei que a vida me ensinou o suficiente para perder o encanto em certas coisas, para não ver em cada olhar uma paixão desenfreada e não me perder de amores por um sorriso bonito no silêncio de quem supostamente me admira. Há beijos que são para ser dados e há um momento para eles, dá-los antes ou depois é matar o futuro e desonrar o passado. Há abraços que são para ser dados e há uma intensidade para eles, dá-los com mais ou menos força do que o devido é dar esperança a sonhadores e desiludir realistas. 
Assim, após dar muitos beijos que não queria, mas que até devia, e deixar de dar muitos outros pelas mais ínfimas razões, quase sempre cobardia, e após dar inúmeros abraços a quem não devia, embora fossem raros esses, aprendi a medir a intensidade dos sentimentos e das emoções. Hoje, sei bem quando é amor ou quando é paixão, sei bem quando é um olhar ou é um espelho de alma, sei bem quando é um beijo intencional ou é um beijo apaixonado, sei bem quando é um forte abraço ou roubar de coração. Sei bem os propósitos e a ingenuidade. Sei bem todos os gestos e passos da verdade e todas as artimanhas da mentira. Como costumam dizer, sou demasiado perigosa e inatamente sedutora, verdadeiramente mulher. 
Certo é que me tornei mulher à custa de lágrimas ao vento, suores de desespero e gritos de ansiedade. Não se é mulher quando se nasce só pela condição biológica. Nem se é mulher pelo que passaste. És mulher quando conjugas a tua alma de forma a dar beleza ao teu corpo e usas o teu corpo para abrir a tua alma.
Arranjo artimanhas e gestos e passos para ter quem quero e o que quero, consigo sempre concretizar os meus objectivos. Não passo por cima de ninguém, subo acima de mim, ultrapasso-me. Apaixono. Enfim, calculo muito bem todos esses dados que adquiri, vivo em pleno estado de alerta, caçadora na selva. Protejo-me a mim e ao único homem. Uma mulher tem um homem. A mulher tem o homem. Aquele em que os beijos e os abraços são verdadeiros. Aquele em que a paixão está na força do amor e não no poder da carne. E não interessa que tenha achado isso de outros ou vá achar, quando beijo ou abraço, tal como todas as mulheres, eu sei a diferença quando o faço com ele.

Falam-me e lembro-me de ti



Nunca te escrevi e vou escrever hoje. Quando me falam de morte, lembro-me necessariamente de ti. Não que me estejas associado só dessa maneira, mas simplesmente se há arrependimentos na vida, embora eu não seja culpada, eu tenho esse arrependimento de não ter estado contigo mais vezes, não te ter dado mais beijos na tua cara macia, não te ter abraçado mais. Quando me falam de boas pessoas, lembro-me necessariamente de ti. Não que sejas a única boa pessoa que conheci mas és aquele que mais dignidade mostrava no olhar, sei que gostavas de viver e talvez o teu maior pesar antes de morrer tenha sido que quem devia dar valor a isso, não tenha dado. Quando me falam de memória, lembro-me necessariamente de ti. Não é que me lembre de ti todos os dias, estaria a mentir se o dissesse, mas quando olho para o céu, quando penso na existência de um outro mundo, quando penso nas minhas más acções, lembro-me de ti, e quando me falam de lembrar eu recordo que era das poucas que ainda dizias o nome e te lembravas pouco, antes de perderes todos os conhecimentos que a vida te deu no teu, com certeza grandioso, subconsciente. Quando me falam de idade e os arrependimentos dela, lembro-me necessariamente de ti. Não que eu seja velha, mas gostava que tivesses vivido mais anos ou eu tivesse nascido mais cedo para poder gozar de ti e do teu maravilhoso espírito eternamente alegre. Quando me falam de injustiça, lembro-me necessariamente de ti. Não, há gente que sofreu mais,  é verdade, mas acho que a forma como te abandonaram foi monstruosa. A última memória que tenho de ti é em Coimbra, deitada aos teus pés numa cama de hospital, adormecida. Lembro-me da dor que foi dar-te um último beijo na bochecha porque já todos sabíamos que não estarias aqui muito mais tempo. Lembro-me de chorares, lembro-me de chamares o meu nome, lembro-me da minha irmã abraçar-te e a acariciar-te, lembro-me que lhe fazes falta, lembro-me de a ver chorar por não estares lá. Quando morreste e me disseram, não chorei. Foi a minha "primeira morte". Chorei dias depois. Não de saudade, de raiva. Lembro-me que ninguém percebeu, mas sei que tu entenderias. Não me lembro de ti muitas vezes pela pressa da vida e tive contigo tarde demais, mas és e foste das melhores pessoas que conheci e eu gostarei sempre de ti, afinal daquele lado, e com gosto, só te tenho a ti. A morte é uma porcaria, sabes? Uma porcaria necessária. 

Ingenuidade do Optimismo



Eu posso ter esta mania de ver qualquer parte boa em tudo e em todos, talvez para colmatar o que há de mau em mim e posso até iludir-me com as pessoas ao achar que há sempre uma razão válida para o pior delas e que o seu melhor virá sempre ao de cima. Eu sei, não é a posição mais sensata. Sou optimista. 
E, quanto a ti, eles podem não perceber o porquê de seres tu, o porquê de seres o único, o porquê de seres o "eleito", como gostam de te chamar estupidamente. Sim, estupidamente, porque eu não escolhi nada nem ninguém, antes assim fosse, antes eu tivesse essa capacidade de escolher as pessoas consoante o seu mal e o seu bem, ao invés de contrariar o meu famoso "sexto sentido" que toda a gente admira. Mas o porquê de seres tu está na forma como me tratas, está forma como me fazes tolerar e aceitar o que há de mau em ti ao invés de tentar fazer de ti outra pessoa, está forma como me fizeste deixar de sonhar tanto para passar a viver mais (contigo). Como tu beijas, como tu abraças, como tu olhas, como tu te mexes, como tu falas, como tu andas, como tu sorris, para mim. E não, não fui eu que inventei o fogo, e  muito menos a chama, nem fui eu que inventei o mal e o bem, e muito menos te inventei. Não fui eu que fiz, foste tu, dou-te o mérito. Nem sou eu que me voltei a conquistar, nem sou eu que fiz por voltar. Foste tu que não desististe e me resgataste. Por isso, valeu a pena o optimismo, sempre te ensinei alguma coisa. Sempre passei alguma coisa a alguém. 
Não me arrependo, nem um segundo, e por isso não posso admitir que me digam "desiste que vocês nunca vão ficar juntos...". Não gosto de pessimistas, muito menos de falsos sonhadores e desiludidos. Desiludidos são amadores, quem não sabe sonhar e acarretar com as consequências, então que não sonhe. Quem se ilude somos nós, não são os outros que o fazem. Quem não sabe se levantar, que não caia. Quem não sabe lutar, que não lute. E quem se desilude que morra sozinho, sem levar ninguém. Porque aí deixo a ingenuidade do optimismo e relembro que "Para todo o mal há um pior". 

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