« É inevitável proibir-me de recordar. Não é que eu queira esquecer o que ficou para trás, mas também não tenho prazer em relembrar certos lances, certos dias, certos sítios, certos dizeres… E é esse o meu problema: querer suprimir da minha memória momentos inapagáveis. Porque enquanto viver, estes serão eternos, do dia à noite, onde quer que eu esteja. Por isso a única maneira de seguir em frente é enfrentando o passado, porque às vezes a última coisa que nos falta por inteiro é a coragem de nos imaginarmos há uns tempos atrás, ainda quando as coisas eram diferentes. Estou a falar de não ter medo de olhar para o que foi vivido. Olhar com bons olhos e de uma maneira optimista, sabendo que apesar de parte do tempo decorrido ter sido um erro, muitas lições se aprenderam… Lições que não podem ser ensinadas por mais ninguém na vida a não ser pelo senhor arrependimento. Aos poucos, fui tentando ganhar
esta vontade em voltar a lutar. Fui tentando captar estes flashes de esperança que me fizeram perceber que já perdi demasiado tempo a lamentar-me por um passado definido e que é altura de recomeçar do zero. Confesso que às vezes fracasso e deixo de acreditar que um dia as coisas vão voltar ao que eram antes de tudo isto acontecer. Em parte, isso é impossível pois com tanta coisa, até eu mudei e a maneira como olho para o amor deixou de ser a mesma. No entanto, todos os dias pensei no dia em que iria dizer para mim própria que a partir dali, tudo seria diferente. Pensei nesse dia como sendo o dia em que ia finalmente determinar-me a arrumar tudo de vez, para sempre. Parece-me que hoje é o dia. »
Esta não é uma verdade que eu tenha escrito, é um post de um dos meus blogs
favoritos: "Feito num oito".
« (...) Toda a constituição do meu espírito é de hesitação e dúvida. Para mim nada é nem pode ser positivo; todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim próprio. Tudo para mim é incoerência e mutação. Tudo é mistério, e tudo é prenhe de significado. Todas as coisas são "desconhecidas", símbolos do Desconhecido. O resultado é horror, mistério, um medo por demais inteligente. (...) o meu carácter é do género interior, autocêntrico, mudo, não auto-suficiente mas perdido em si próprio. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho. Todo o meu carácter consiste no ódio, no horror de e na incapacidade que impregna tudo aquilo que sou, física e mentalmente, para a actos decisivos, para pensamentos definidos. (...) Os meus escritos, todos eles ficaram por acabar; (...) uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil interassociações; e não tenho força de vontade para os eliminar ou deter, nem para os reunir num só pensamento central em que se percam os pormenores sem importância mas a eles associados. (...) Não pondero, sonho; não estou inspirado, deliro. (...) belos voos de imaginação acariciam-me o cérebro; mas deixo-os ali dormitar até que morrem, pois faltam-me poder para lhes dar corpo, para os converter em coisas do mundo externo. (...) Aflige-me a ideia de se encontrar uma solução para (...) os problemas da ciência, da filosofia; a ideia que algo possa ser determinado por Deus ou pelo mundo enche-me de horror. Que as coisas mais momentosas se concretizem, que um dia os homens venham todos a ser felizes, que se encontre uma solução para os males da sociedade, mesmo na sua concepção - enfurece-me. E contudo, não sou mau nem cruel; sou louco, e isso duma forma dificil de conceber. » - Fernando Pessoa